José A Santos: uma vez médico, para sempre médico…
DATA
19/04/2012 11:37:25
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: uma vez médico, para sempre médico…

Por vezes, dou por mim a pensar no quão figura pública um clínico poderá tornar-se, particularmente um médico de família exercendo num meio rural

 

jose_agostinho.jpgPor vezes, dou por mim a pensar no quão figura pública um clínico poderá tornar-se, particularmente um médico de família exercendo num meio rural. No meu campo particular, mesmo trabalhando numa região urbana e ainda sob o relativo anonimato do internato médico, já vou vivenciando as particularidades de um ambiente que é estranho para a maioria de nós...mas que é, paradoxalmente, familiar para todos que nos observam.

Naturalmente, o reconhecimento dos nossos rostos fora do ambiente de consulta poderá ter um lado suave e doce. Poder-se-á encontrar um sorriso caloroso numa rua mais inóspita, um gesto de delicadeza no trânsito e um jovial "bom dia!" que nos acalenta numa incursão pelo meio local. Estas atitudes revestem-se de uma peculiar ternura (sim ternura, atrevo-me a conferir algum afecto nesta atitude), o que revela que o apreço dos pacientes pelo nosso trabalho clínico vai para além da parcial formalidade do ambiente de unidade de saúde.

Porém, haverá, certamente, contextos em que este reencontro com o paciente é, no mínimo, desconfortável. Isto porque um médico é também paciente de outro médico e tal como qualquer outro paciente prevarica em determinadas situações! A diferença assenta em que o paciente não-médico deseja fortemente que o seu médico não o encontre a prevaricar (algo difícil de acontecer... qual a probabilidade? 1 em 1 milhão de pessoas?) enquantoque o paciente-médico deseja intensamente que o seu médico e os seus pacientes não o encontrem a liderar uma não-conformidade... algo bem mais possível: probabilidade de 1700+1 em 1 milhão de pessoas!

Caros colegas, estamos bem tramados!

Não que eu acredite em bruxas...mas que as há, há! Só assim se justifica que, por diversas vezes, nos surja um paciente precisamente naquela exacta situação em que não nos convinha mesmo nada encontrar um avaliador externo! Um exemplo vulgar, um caso comum, um erro frequente: fazer compras no supermercado a 1 km da unidade de saúde! Por muito que saibamos que estamos a enfiarmo-nos na boca do lobo, a tentação é demasiado grande quando se conjugam circunstâncias especiais como: sair tarde e a más horas da unidade, ter um grupo de amigos a jantar lá em casa, despensa de casa vazia. Conjuga-se a falta de tempo e disponibilidade para procurar outro mercado e a conveniência da proximidade. E até vacilamos por momentos, mas depois deixamo-nos conduzir pelo pensamento "pode ser que não encontre ninguém!". Lá nos dirigimos apressados até às prateleiras do supermercado e, em pés de lã, enchemos o carrinho das compras com apetitosas massas italianas, uma embalagem de molho bechamel, dois doces para a sobremesa, o vinho especialmente bom para um jantar de amigos (e especialmente elevado em taxa de álcool), as tostas...e as entradas! Ah, as entradas... os presuntos, os fumados! Tudo fica encavalitado naquele carrinho de mão, como se se tratasse de uma torre de legos. Porém, ao contrário de uma criança orgulhosa da sua obra em legos, nenhum de nós deseja pavonear-se com tal peça de arte! Em vez disso, seguimos acelerados, com a sensação de missão cumprida, até à caixa pertencente ao rosto que nos parece o menos familiar possível! E precisamente no momento em que entramos no entroncamento de um dos corredores com a larga marginal das caixas, eis que encontramos a Dª Laurinda e Sr José, o casal de diabéticos com o pior controlo glicémico da nossa lista!...

Os seus olhares atingem-nos como se tratassem de flashes provindos das câmaras de dois paparazzi que nos aguardassem. Impossibilitados de escapar e muito menos de esconder as nossas compras com alto teor calórico e com o maior índice glicémico possível, tentamos recepcionar de forma natural os dois sorrisos honestos do casal, a quem por acaso até aconselhámos uma alimentação bem mais saudável na consulta da semana passada...

Bem, tentando manter uma atitude descontraída e sem mostrar qualquer parte fraca, a nossa última esperança flui na estabilidade da comunicação olhos nos olhos que se mantém durante vários segundos. Se nós conseguíssemos que nenhum deles tivesse um desvio do olhar para o nosso carrinho de compras, não estaria tudo perdido!... Mas, não... O Sr. José faz qualquer pergunta particular que nos obriga a direccionar um pouco mais o nosso olhar para si mesmo, ...escapando-nos a Dª Laurinda que, em dois segundos, coloca os olhos naquela nossa torre de legos!...Ok, fomos apanhados!... E partir daí é o momento auge deste nosso percurso: tentamos mostrar que não estamos minimamente perturbados com as possíveis avaliações daquele júri; o júri tenta disfarçar que não está a ser júri; existe uma tentativa de manter uma resposta com coerência ao Sr. José e, entretanto... uma tentativa de desvinculação daquele ambiente. Inicia-se uma busca de palavras para a cerimónia de encerramento... uma despedida afável, porém desconfortável... e resta-nos apenas seguir o nosso rumo, cabisbaixos e já sem pressas: perdidos por 100, perdidos por 1000!

Estes momentos em que as nossas vidas privadas se cruzam com as nossas vidas clínicas sempre nos afectaram das mais diversas maneiras, que vão de um extremo muito positivo até a um extremo desconfortável q.b.. Questiono-me se tais momentos têm algum impacto, a posteriori, no sucesso terapêutico, na abordagem do doente ou na relação médico-doente.

A verdade é que são inevitáveis... logo, mereciam ser objectos de investigação...

É apenas uma ideia! Por enquanto, deixo esta reflexão breve... Assim é a vida!

José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

 

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