Carl Steylaerts: Germinação
DATA
26/02/2012 03:41:56
AUTOR
Jornal Médico
Carl Steylaerts: Germinação

É um processo de compreensão (understanding), de estar literalmente under (sob): permanecer debaixo e observar o outro nos seus afazêres. Depois, tentar "perceber" o que realmente aconteceu, e até mesmo "ver" por que razão aconteceu e procurar deduzir de onde veio

 

carl.jpgComo já devem ter reparado, a minha língua materna não é o inglês.(*) Mas, tenho uma editora australiana que vela pelas minhas crónicas como um anjo-da-guarda e a quem, por isso mesmo, gostaria de aqui expressar publicamente o meu agradecimento. Obrigado, Karen!

Apesar de ser bastante a favor do Esperanto como meta-linguagem, devo confessar que nunca aprendi... Mas, enquanto tento escrever numa outra meta-linguagem, deparo-me com algumas palavras novas, como "geminação". É uma palavra que contém um mundo inteiro, em apenas oito caracteres. Impressionante...

Geminar é tão antigo quanto a raça humana, suponho. "Não te farei mal, senão me fizeres mal. Aliás, promovo-te a meu amigo e espero que faças o mesmo". Agora imaginem... que a WONCA promovia a "geminação". Numa perspectiva nacional, para começar, e numa abordagem local, como objectivo derradeiro. "Os médicos de família (MF) de Málaga (onde decorreu o congresso europeu da WONCA em 2010) geminariam com os MF de Cracóvia (onde decorreu o congresso europeu da WONCA em 2011)" e produziriam um relatório sobre os resultados desse esforço no(s) ano(s) seguinte(s). Imaginem...

Imaginem o mesmo processo numa escala maior e numa escala menor. Da geminação de associações nacionais, continentais, até à geminação de médicos, unidades e associações locais. Qual seria o resultado deste processo?

É um processo de compreensão (understanding), de estar literalmente under (sob): permanecer debaixo e observar o outro nos seus afazêres. Depois, tentar "perceber" o que realmente aconteceu, e até mesmo "ver" por que razão aconteceu e procurar deduzir de onde veio.

O professor Inayatullah, um paquistanês a residir na Austrália, desvenda na sua Causal Layered Analysis que, na grande maioria das vezes, as pessoas gritam a sua ladainha, e encontramo-la nos títulos dos jornais.

Quando um número suficiente de pessoas grita manchetes, alguém entrega ao académico a tarefa de "analisar e resolver o problema". Quando o processo académico fica concluído e é transposto para um formato "divulgável", como por exemplo, campanhas de cessação tabágica, as conclusões académicas não parecem ser eficazes. A origem desse insucesso, de acordo com Inayatullah, é simples: os académicos olharam apenas para a ponta do iceberg, esquecendo-se de analisar as entrelinhas, mitos e crenças das pessoas.

Ora, a geminação é precisamente sobre como aprender a ler nas entrelinhas, bem como a compreender as crenças e mitos de pessoas de outras culturas. Vivemos um tempo em que tudo o que é estranho é perigoso. Qualquer pessoa com barba é um terrorista até que se prove o contrário. (Em 2004, eu e o meu colega italiano fomos barrados no aeroporto de Bruxelas quando viajávamos para o congresso da WONCA, em Orlando, por causa... das nossas barbas!).

É impressionante que, num mundo globalizado (menos fronteiras é bom), as nossas comunidades tendam a reagir com a instituição de novas fronteiras...

No seu livro Hawaii (1959), James Michener escreve sobre o choque entre quatro culturas: indígenas havaianos originários do Tahiti, americanos, chineses e japoneses. Cada grupo com o seu Deus, as suas crenças e as suas tradições... e um desrespeito mútuo. O desporto suavizou o caminho para a compreensão, o desejo de vencer uma competição (de esforços fúteis) é mais forte do que o racismo. Um meme forte.

Gostaria de retirar vantagens desse meme. Poderá demorar uma ou duas gerações até que os resultados se tornem óbvios, mas se procura um bom resultado, o tempo está do seu lado, como cantavam os Beatles.

Poderíamos criar um jogo que exigisse competitividade, mas não luta contra um oponente, cujo objectivo seria a resolução de um dado problema. O jogo seria jogado por colegas da mesma aldeia/vila/cidade/país, mas em diferentes países... Por isso, o mesmo problema pode resolver-se de várias maneiras. Depois, inventaríamos uma nova divisão para as sessões paralelas da Conferência da WONCA: How did you do it? E as diversas equipas apresentariam as suas soluções.

Um exemplo: cuidados dentários a bebés é um reflexo da força de um sistema de saúde. Você a sua equipa devem tornar esta temática num Estado de Arte. How did you do it?.

Depois da apresentação na Conferência da WONCA, um Mercado de Geminação seria o lugar ideal para encontrar equipas com interesses mútuos. No regresso a casa, este jogo seria jogado na vida real, devendo as equipas agir entre si enquanto supervisoras umas das outras. Imaginem!

 

Carl Steylaerts, MD
Tesoureiro honorário da WONCA Europa

 (*) Nota de tradução: O autor desta crónica é belga, mas o texto (aqui traduzido para português) está originalmente escrito em inglês.

 

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