José Agostinho Santos: Síndrome pré-MEIOStrual
DATA
30/12/2011 09:49:39
AUTOR
Jornal Médico
José Agostinho Santos: Síndrome pré-MEIOStrual

A crónica desta edição emerge, de forma inesperada, de uma consulta que fiz ontem, a uma doente de 55 anos, diabética e trabalhadora activa.

 
 
jose_agostinho.jpgA crónica desta edição emerge, de forma inesperada, de uma consulta que fiz ontem, a uma doente de 55 anos, diabética e trabalhadora activa.
No plano dessa mesma consulta, discuti com a doente, já habituada à colheita sanguínea trimestral de HbA1c, os procedimentos preventivos a realizar em breve: está na altura de fazer a pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF), a microalbuminúria em urina de 24 horas (não tenho tira-teste disponível) e a mamografia.
Agendei, também, a próxima consulta, que será para colheita de citologia cervicovaginal e para trazer os resultados dos meios complementares pedidos.
A doente concordou... Porém, a expressão do rosto evidenciava um contorno mais definido dos relevos cutâneos, fruto de uma contracção muscular facial, que denotava, claramente (oh sagrada comunicação não-verbal!), um ar de frete (passo a expressão!). Após questionada, a paciente lá me disse: “pois... está naquele período difícil do ano!... Mas quero-os fazer!... Se é recomendado, é para o meu bem também!”.
Dei comigo a pensar que ouvia, algures, com frequência, esta do “período difícil”? E eis que a resposta me surgiu, de forma quase imediata, enquanto a doente completava o seu discurso com um decisivo: “até fico meio irritada quando sei que tenho que fazer isso tudo!”. Qual síndrome pré-menstrual!!
Depois de a utente deixar o gabinete e enquanto fazia os meus registos finais, fui assimilando e compreendendo o conteúdo das suas palavras (atiradas em jeitos de desabafo). De facto, quão aborrecido não deverá ser a colheita de duas amostras de três dejecções consecutivas? Pressupõe ter os frascos de amostra por perto e todos os procedimentos menos agradáveis subsequentes para o seu uso. São inconveniências para o quotidiano de alguém que trabalha e que se prolongarão, em média, durante 3 dias... A doente perguntar-se-á como proceder; se deverá levar, ou não, levar os frascos para o local de trabalho? Eis a questão! Se a resposta for positiva... Ora bem, não deverá esquecer, então, de levar consigo o kit PSOF.
Posteriormente,
vem a saga da colheita de urina durante 24 horas. Duvido que alguém queira sair de casa com um bidão de urina atrás de si!... Tão certo assim é, que uma boa parte dos utentes deixa a recolha para um dia de fim-de-semana. Porém, quão frustrante não será aproveitar um sábado de folga para proceder a essa colheita? Logo naquele sábado em que está um belo dia de sol e em que a melhor amiga convida para ir tomar um chá junto ao mar... Lá terá que recusar com um lamento do género “tenho que andar por casa... estou a fazer o exame da urina de 24 horas...”. O nível de ansiedade basal subirá, para alguns utentes, logo a partir dessa recusa, produto de uma frustração pessoal. O enclausuramento em casa até poderá saber bem num dia de inverno... Mas é aproveitado, também, para reparar nas paredes que estão a precisar de ser pintadas, na lâmpada da casa de banho que ainda não foi mudada ou na desarrumação do quarto dos filhos (que insistem em não colocar as diversas coisas em prateleiras e gavetas), o caldo poderá entornar, num ápice! E é que entorna mesmo quando um dos membros do agregado remata com um: “que irritada que estás hoje!”.
Finalmente, depois das duas etapas anteriores, a meta é atingida com um exame mamográfico, que “esmaga” os seus seios e com o bónus do (habitualmente referido) desconforto mamário que se mantém nas horas seguintes.
No dia da consulta, a doente trará, então, os resultados de todos os exames. Entrará no gabinete com dois sacos aos ombros: um correspondente à ansiedade na leitura e transmissão dos resultados (“estará tudo bem?!”) e outro com o peso da ansiedade antecipatória da colheita da citologia no exame ginecológico (“é sempre desconfortável...”).
A leitura que faço do pedido destes MEIOS complementares é, também, de um síndrome pré-MEIOStrual.
Terá já alguém estudado este quadro de irritabilidade, ansiedade, isolamento social e, quiçá, humor disfórico que se inicia dias antes da realização dos meios complementares e que se pode manter até ao dia da consulta? No caso desta doente, este quadro era, claramente, reproduzível... Ao ser definido por ela própria como “período difícil do ano”.
Pergunto: que impacto terão estes nossos procedimentos preventivos na qualidade de vida dos doentes naquele intervalo do ano? Dou comigo aqui a pensar no número de doentes que “se esquecem” de fazer os exames. Esquecimento?... Quem os realiza uma vez, dificilmente se deverá esquecer. Talvez seja, antes, um “evitamento” dos exames.
Penso, também, em todos aqueles que não os evitam, mas cumprem-nos com a ansiedade aqui descrita. Será este síndrome pré-MEIOStrual subdiagnosticado?...
A questão-chave é a de que, apesar de desconfortáveis, a evidência prova que são importantes para redução dos outcomes negativos na população. Evicção não é, portanto, solução.
Como poderemos aconselhar os nossos doentes de que, de alguma maneira, sofrem nesta fase “difícil” do ano? Abordar o assunto e discutir expectativas e receios antecipatórios? Tentar distribuir os procedimentos ao longo dos doze meses? E que tal, usar técnicas não farmacológicas como o aumento do exercício físico e das técnicas de relaxamento, tal como recomendado para mulheres com síndrome pré-menstrual?...
Ficam as questões no ar...
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Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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