Rui Cernadas: Muitos problemas
DATA
30/12/2011 09:47:46
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: Muitos problemas

Os tempos que vão correndo não são fáceis para ninguém. Nem para os Portugueses, nem para Portugal.

 
rui_cernadas.jpgOs tempos que vão correndo não são fáceis para ninguém.
Nem para os Portugueses, nem para Portugal.
Porque haveriam de ser menores ou diferentes para os profissionais da saúde, as USF, os hospitais, os ACES ou as ARS?
Obviamente que quando há recursos ou dinheiro abundante, as coisas tornam-se demasiado simples e por isso mesmo, perigosas, no sentido em que a facilidade se confunde com permissividade ou falta de rigor.
Foi claramente o que, em minha modesta opinião, sucedeu em muitos sectores da actividade económica e dos serviços públicos, em particular.
Sobretudo, porque a “treta” do discurso do Estado Social abriu as portas a um conjunto de dogmas e de assunção de direitos que, independentemente de o poderem vir a ser, exigiriam arcaboiço financeiro e económico que o nosso país não tinha, não tem, nem terá nas próximas décadas.
Talvez um dos graves problemas seja o da rede dos cuidados continuados, não pela nobreza dos ideais que preconiza ou pela necessidade que se lhe reconhece, mas pelo modo como foi concebido e implementado.
O estudo técnico de identificação dos interessados, fossem privados ou instituições de solidariedade social, bem como o enquadramento das candidaturas e o desenvolvimento dos projectos, alimentou investimentos vultuosos, alguns deles inseridos em programas específicos que previam e contaram com comparticipações estatais.
A verdade é que, até pelo nível de exigência colocado no plano dos projectos, das instalações e dos requisitos para o funcionamento, obrigou-se a um esforço adicional dos promotores dos investimentos que, arrastou igualmente o Estado para um montante global de despesa incomum.
Para além de manter sérias dúvidas quanto à razoabilidade das escolhas, não pelos projectos ou entidades em si, mas pela inserção geográfica e demográfica e relação com as estruturas de cuidados hospitalares, nomeadamente.
E depois, claramente, a forma desarticulada e pouco compreensiva como se envolveram os cuidados de saúde primários, criando situações diárias complexas e de difícil resposta que desagradam aos profissionais, aos utentes e aos seus cuidadores; situações não planeadas, nem previstas.
Basta atentar na repetida insistência com que médicos e unidades funcionais se questionam sobre o papel a desempenhar e na falta de informação e de articulação entre estes dois níveis de unidades: cuidados primários e cuidados continuados.
Outro problema vai passar pela reforma hospitalar, sobre a rede de urgências.
Como alguém dizia – e bem – é provável que o trabalho, incompleto há quatro anos, possa seguir por rumos ou entendimentos diferentes do que se previa, tanto mais que, no essencial, parece que os participantes no estudo continuarão a ser os mesmos que o Ministro Correia de Campos nomeou.
Veremos que aposta se fará nas unidades de urgência básica, como estruturas de entrada e patamar inicial do atendimento clínico. Bem como, naturalmente, na sua distribuição geográfica.
O país só terá a beneficiar com medidas que promovam o descongestionamento dos níveis mais elevados, sofisticados e dispendiosos da urgência hospitalar.
E na verdade, os próprios doentes também…
Outro problema… O dos incentivos a pagar às USF e aos seus profissionais.
Há incentivos financeiros e institucionais, em causa e em avaliação.
Uns e outros, para o pessoal das USF e para a administração, com regras conhecidas e bem definidas, ainda que habitualmente a obrigar a trabalho árduo e prolongado de conferência, de justificação e de reclamação.
O que por regra tem provocado atrasos no seu pagamento.
Porém, existe alguma controvérsia sobre a análise desses resultados.
Uma delas, talvez a mais séria e retumbante, passa pelo facto de as USF e as suas equipas terem um melhor score e resultado sob o ponto de vista dos incentivos financeiros do que relativamente aos institucionais…
O que não pode deixar de merecer uma reflexão séria, desde logo porque os institucionais deveriam traduzir, ao nível da prestação dos cuidados e de algum modo da qualidade da actividade desenvolvida, uma outra leitura.
Na verdade, o que ocorre, por exemplo nos territórios da ARS Norte, é o inverso, isto é, a enorme percentagem de USF que não atinge o direito ao pagamento dos incentivos institucionais, é a mesma que, ao invés, obtém o direito ao recebimento dos incentivos financeiros… Enfim, são muitos os problemas.
Como quer que seja, a defesa da SNS deve principiar nos seus profissionais e nas Instituições que servem.
A literacia em saúde, ou a sua promoção junto dos utentes e dos seus cuidadores, deverá visar a partilha de tomada de decisões e, em doenças crónicas, a autogestão das condições crónicas.
E para autarcas e políticos, convirá recordar que a matriz do SNS, assente numa prestação de cuidados por unidades funcionais públicas, implica uma boa gestão da despesa e um controlo permanente dos custos, atitude sensata e indispensável para um esforço de compromisso com os actuais níveis de cobertura e acessibilidade.
Em nome da verdade e do bom senso, é preciso que autarcas e políticos se consciencializem de que devem falar sem demagogia nem jogadas eleitorais nem segundas intenções às suas populações e eleitores.
Mesmo que esse não seja o seu hábito mais comum…
DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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