Anos de Chumbo
DATA
13/12/2011 04:24:35
AUTOR
Acácio Gouveia
Anos de Chumbo

A inovação eletrónica na prescrição veio para ficar! Alguns médicos encaram com mágoa esta invasão informática nas suas rotinas. Mas isto de modernices é já um velho hábito entre nós. Os humanos, quero dizer.

 

O privilégio pírrico

“Tememos as coisas na medida em que as ignoramos”
Títio Lívio

O privilégio pírrico

“Nada perdura senão a mudança”
Heraclito

A inovação eletrónica na prescrição veio para ficar! Alguns médicos encaram com mágoa esta invasão informática nas suas rotinas. Mas isto de modernices é já um velho hábito entre nós. Os humanos, quero dizer.
Vai para uns milhares de séculos que uns maduros duns antepassados nossos, armados em prometeus, passaram a utilizar o fogo. Outros, tinham modificado os seus ancestrais hábitos alimentares tornando-se omnívoros. Outra modernice de monta foi a mudança da caça/recoleção para a criação/produção de alimentos. Cabeças pensantes (que não tinham obviamente mais nada que fazer!) lembraram-se de acabar com o monopólio da linguagem falada e inventaram a escrita – coisa complicada, como se vê pela polémica levantada pelo novo acordo ortográfico. A páginas tantas, alguém teve a ideia de repudiar o monopólio do nosso meio natural, a terra firme, e lançar-se em aventuras aquáticas, aéreas e, como se não bastasse de travessuras, até a Terra já se abandona! E note-se que estas modernices têm tido custos. Mas, ao que dizem os antropólogos, não fosse esta mania da inovação, típica dos humanos, e já a espécie teria ido à vida (o que não teria sido uma opção de todo isenta de benefícios para uma multitude de outras espécies). Adiante, que a escorregadela para o filosofar nos está a afastar do tema onde queria chegar este amanhador de ideias. Resumindo: isto de modernices é coisa velha e parece que não há volta a dar-lhe: há umas que não pegam, mas é da nossa natureza vivermos em perpétua inovação e adoção de novas tecnologias e hábitos.
Ora a informática é talvez das inovações aquela cuja presença mais ubíqua se tornou. É difícil encontrar actividade humana onde não se tenha infiltrado, nem sítio aonde não tenha chegado. Hoje tudo se computoriza. Desde televisões aos automóveis. A informática é omnipresente.

Refuseniks

“Que inapta a ao lado da sabedoria é a inépcia”
Goethe “Fausto” - 8810

Não é pois de estranhar a recente legislação sobre prescrição eletrónica. De estranhar é a quarta exceção à obrigatoriedade do uso de receitas eletrónicas: “inadaptação informática”. Antes de mais será preciso distinguir graus de inadaptação informática. Muitos entusiastas da informática esbarram com uma inquebrantável incapacidade para mexer nos seus PC, sem provocar danos ou desperdiçarem enormes quantidades de tempo em vão. Mergulhando de cabeça nas funções avançadas ou programas complexos, acabam por se emaranhar numa frustrante luta contra a máquina e contra o software da pesada. Mas, por outro lado, é preciso reconhecer que o computador hoje se tornou amigável e facílimo de manejar, desde que o cidadão se não aventure para além da sua perícia. Basta ver como idosos analfabetos e/ou mesmo com algum embotamento cognitivo, se desenrascam com o skype, ou (os não analfabetos) com o messenger para conversarem com os netos. A inadaptação informática absoluta é algo só aceitável em pessoas com gravíssimas limitações cognitivas ou então por manifesta embirração. Ora, um tal torpor psicológico capaz de impossibilitar o uso das ferramentas informáticas não é compatível com a actividade clínica. É preciso convir que a emissão duma receita informática é algo de muito simples, nada que se compare a personalizar o firewall, portanto ao alcance de qualquer clínico em exercício da sua profissão. Logo, estes colegas caem inquestionavelmente no grupo dos resistentes e não dos incapazes.

Pirro

“Orgulhosamente sós”
Oliveira Salazar

Não sei de outras profissões onde seja permitida a recusa em usar a informática para fins laborais. Se assim for, poder-se-á dizer que este é um privilégio da classe médica. Ora, se os médicos forem os únicos dispensados de usar computadores na sua profissão, então terão obtido um privilégio pírrico. Um falso privilégio. Ao desertarem da onda de progresso que a humanidade cavalga, estão a dar uma má imagem da classe e a caminhar para o fenecimento da sua influência na sociedade e mesmo nas atividades relacionadas com a prestação de cuidados saúde. É um regalia de todo incómoda, esta  se colocar à margem da marcha da progresso. Pena é que a classe se não aperceba da má opção que fez.

DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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