Jorge Nogueira... Venda suspensa
DATA
08/11/2011 09:54:19
AUTOR
Jornal Médico
Jorge Nogueira... Venda suspensa

Num sítio da net encontrei há dias uma referência às preferências do médico quanto à maneira como os doentes o tratam, o que em Portugal é motivo de conversa de corredor mas nunca vi ter honras de imprensa, médica sequer

 

Saúde, saudade e salvação

 jorge_nogueira.jpgTalvez seja altura de voltarmos ao que nos faz andar aqui, ao mesmo tempo que as tarefas de organização e as políticas de saúde nos preocupam quanto baste - até porque os nossos rendimentos estão a ser fortemente atingidos - e ainda que as soluções para a situação de crise que vivemos pareçam longe de estar ao nosso alcance, o que certamente prejudica a nossa saúde, a nossa disponibilidade para as outras pessoas, e a saúde das pessoas que estão ao nosso cuidado. As queixas biológicas mantêm-se e aumentam as outras, as famigeradas psicossociais. Se por momentos as esquecemos, elas voltam agora com a força toda. A relação médico-doente, tantas vezes explorada na sua dimensão assimétrica, entre alguém que pede ajuda e alguém que a oferece, é às vezes reconduzida à relação mais primordial entre dois seres humanos, e isso acontece com particular frequência entre o médico de família e os seus doentes, a quem conhece por vezes há largos anos, e a quem revela a espaços algumas das suas fraquezas. Num sítio da net encontrei há dias uma referência às preferências do médico quanto à maneira como os doentes o tratam, o que em Portugal é motivo de conversa de corredor mas nunca vi ter honras de imprensa, médica sequer. O autor, que me parece ser internista, dizia o seu agrado pelo tratamento clássico, por Dr (Doctor), e não entendia a forma de tratamento pelo nome próprio que muitos médicos do seu meio (EUA) favorecem, numa espécie de falsa democratização da tarefa médica. Na continuação, percebi que o autor era uma mulher, noção que se perde na língua inglesa quando se usa o Doctor seguido do nome de família, uma vez que em inglês os adjectivos não têm género. Parecendo que não, estamos aqui a falar de respeito. Do doente pelo médico e por si próprio: ao tratar o médico por Doutor, o doente está a respeitar o médico e a si próprio e à sua escolha. Ao aceitar e apreciar este tratamento, o médico está a respeitar o doente e o compromisso com ele - o que está longe de ser fácil - e está-se a respeitar a si próprio. Parece óbvio mas não é. É frequente ouvir dizer entre médicos, especialmente MF, que os doentes não nos respeitam. Eu prefiro dizer que nada nos clínicos gerais é dado adquirido a não ser a carteira básica de serviços. No nosso caso, conhecer o perfil do médico e os serviços que proporciona é o que menos importa. O que mais importa é o seu grau de fidelidade ao compromisso afectivo com o doente. Também o respeito não é no nosso caso um dado adquirido, não vem com o pacote, é preciso conquistá-lo, e o movimento é bilateral, a procura tem de ser mútua.

O trágico da nossa função é que não temos, fora da relação, muitos argumentos prévios para nos metermos na vida dos doentes, ao contrário do que acontece com os gastroenterologistas: toda a gente sabe que eles se dedicam a problemas de saúde do aparelho digestivo, é isso que os doentes esperam deles, é essa a sua posição original, o seu contrato pré-explícito. O mesmo se passa com os cardiologistas, com os oftalmologistas, etc. Sobra o Clínico Geral, homem como nós, demasiado humano, ponto onde o respeito me pode proteger de cair na rua. Um respeito não estribado em argumentos prévios, frágil como uma criança. Quando falamos de problemas psicossociais, a fragilidade do nosso argumento prévio aumenta ainda um pouco mais, não somos psiquiatras e o nosso interesse pela vida dos doentes pode facilmente ser tomado por pura bisbilhotice, ou por algo que não adianta nada. Como dizia uma doente a quem o médico lhe perguntava pela sua vida, farto de que ela lhe pedisse electrocardiogramas em série, "e a sua, Dr., como é que vai?". A verdade é que a proximidade em que nos encontramos com os doentes faz com que a nossa humanidade seja demasiado mútua, demasiado igual, até porque não tratamos apenas com pessoas doentes, vemo-las também saudáveis - "como nós"? -, e convocamo-las quando estão bem.

Despeço-me muitas vezes dos doentes com a expressão "Saúde", o que é uma forma de corresponder à saudade que vamos tendo: "estou bem mas já cá não venho há muito tempo, já tinha saudades". "Saúde" é também uma forma de "dar a salvação", como na expressão antiga "Deus te salve". "Salvé", diziam os Romanos. Além disso gosto de a usar porque diz bem com a minha função e é tão abrangente como ela. Era além disso a saudação (salvação) preferida dos republicanos espanhóis, "salud", um eco de camaradagem e luta comum.

 

Jorge Nogueira

 

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Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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