José A Santos... Linha de Especialidade de Medalie...Parte 2!
DATA
08/11/2011 09:51:49
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos... Linha de Especialidade de Medalie...Parte 2!

Tenho vindo a rir cá comigo ao constatar que, para a maioria de nós e perante uma etapa nova da nossa vida, desenvolvemos muitos jeitos e trejeitos de uma criança insegura e inocente, depois de um miúdo caprichoso e astuto e, finalmente, crescemos...

 

jose_agostinho.jpgRetomando o rumo seguido em duas edições atrás, volto a construir a "linha de especialidade de Medalie".

Tenho vindo a rir cá comigo ao constatar que, para a maioria de nós e perante uma etapa nova da nossa vida, desenvolvemos muitos jeitos e trejeitos de uma criança insegura e inocente, depois de um miúdo caprichoso e astuto e, finalmente, crescemos...

Todo o 1º ano de especialidade constitui a infância do internato complementar. O interno, agora criança, começa a dar uns passos tímidos, procurando o mundo exterior de onde provêm tantos pacientes, pesquisando a reacção à sua própria presença e buscando a atenção pelo mínimo gesto clínico. Rabisca os primeiros esquemas de tratamento, folheia atentamente os prontuários terapêuticos e adquire notórias capacidades de motricidade fina como montar colunas de hipóteses de diagnósticos. E após consolidação da marcha, atreve-se a correr pelo gabinete, avançando, por diversas vezes, em caminhos clínicos menos prudentes...

Fase bela (e talvez, ao mesmo tempo, muito chata) é esta que o interno atinge na idade dos porquês: "Porque se medica com isto?", "Porque se faz assim?"... e algumas questões bem embaraçosas como "porque se pede o valor da velocidade de sedimentação por rotina?", obrigando o orientador a disfarçar e a tentar uma resposta muito mal desenrascada... ou então, a despachar a resposta para o colega do lado que "está mais por dentro dessa área!".

O interno vai, assim, crescendo saudavelmente ao longo do 1º ano e, sem tardar muito, começa a querer ir brincar com os outros colegas para o parque da comunidade, para muitas educações para saúde... mas sempre sob o olhar atento de um especialista!

Com o 2º ano, vem a adolescência do internato complementar... caracterizado pela rebeldia tão típica e pelo desejo imperioso de afirmação da personalidade clínica. Tal período poderá ir, de bastante harmonioso, até altamente tumultuoso... dependendo, em parte, da forma vivenciada pela família nuclear (entenda-se, orientador de formação e interno mais velho) desta fase V do ciclo de Duvall. O surgimento de conflitos no seio deste agregado formativo não são surpreendentes nesta fase... principalmente quando o interno adolescente desaparece do gabinete habitual até altas horas do fim da tarde, sem "dar cavaco a ninguém" e após ter chamado doentes para um gabinete bem longe do gabinete do seu orientador. O regresso ao fim da tarde poderá gerar, algumas vezes, uma discussão acesa: "onde estiveste até estas horas?", "que utentes é que tu chamaste?", "o que andaste a prescrever?"... O interno lá responde, em atitude de desafio, que "eu já sou autónomo!", que tem direito ao seu espaço e que precisa que o deixem sozinho com os "seus" doentes.

O próprio orientador perde noites com a cabeça em água... ficando naquele limbo emocional em que se questiona sobre como melhor proceder: é certo que ele tem que crescer e aprender a desenrascar-se sozinho neste mundo, mas por outro lado... "ele é ainda tão menino!". Vêm ao de cima os receios de que o interno se perca com as más companhias das prescrições enviesadas e compradas e que envergonhe o agregado formativo com respostas "tortas" para com outros profissionais de saúde ou com "demasiada irreverência" para com os doentes. Mas, sobretudo e sob o instinto protector de orientador, emerge o receio de que não se saiba defender de utentes mais agressivos e que tal o faça sofrer. Bom... claro que este instinto protector apaga-se rapidamente perante frases provocadoras como: "eu li as últimas guidelines e já não é nada disso que se faz!"... Ui... está o caldo entornado!

O 2º ano poderá ser o ano dos conflitos e, portanto, marcar para sempre a relação entre o orientador e o interno. Relembraria que tal poderá ser o reflexo de uma infância do 1º ano já tendencialmente algo patológica (que poderá pontuar muito ou pouco em coesão) e, acima de tudo, ser o produto de um determinado vínculo orientador/interno estabelecido logo nos primeiros momentos do internato.

A primeira metade do 3º ano traz a bonança depois da tempestade. O interno, já adulto e com o cerne da personalidade médica formado, lidera, com serenidade e astúcia clínica, períodos inteiros de consulta. Os doentes reconhecem-no, procuram-no e recompensam-no com sorrisos. Os colegas respeitam-no e colocam-no no mesmo patamar. Trata-se de um período de enorme realização pessoal, sentindo-se o próprio interno "empoderizado".

Porém, uma crise existencialista poderá surgir a meio do 3ºano, a chamada "crise dos 50": altura de introspecção sobre o que alcançou até então, sobre as suas limitações, sobre os sucessos e sobre o que ainda não fez para um currículo final. Inicia uma busca incessante de novos projectos e procura uma plataforma para os realizar. Trata-se de uma etapa em que delega funções nos outros, em que se despe de tarefas que até então cumpria... e em que desabafa "já estou cansado... já não tenho paciência nem tempo para este tipo de coisas". A relação com o orientador é, agora, mais próxima e até carinhosa... fruto do reconhecimento de um passado lado a lado e de muitas barreiras ultrapassadas.

A segunda metade do 3º ano é descrita como a "fase do cansaço de uma vida", carimbadas pelas reflexões em papel curricular sobre os erros cometidos e os projectos bem sucedidos e pela procura angustiante de um colmatar de falhas antes do término desta vida... Enfim, toda uma ambivalência entre o querer viver o internato e o querer colocar um fim a todo o trajecto. A fase final do internato torna-se penosa pelos sucessivos internamentos no gabinete durante dias consecutivos para estudo da lista, pelos episódios agudos de delírio aquando da redacção do infindável curriculum, pelo sofrimento entranhado de se saber que o fim está perto e pela incerteza do que o espera para além deste fim. O interno mergulha no seu mundo do estudo diverso e torna-se progressivamente mais isolado, deprime, dorme pouco e desenvolve hipoacúsia que o impede de ouvir palavras de confiança e incentivo por parte dos que lhe querem bem. Acima de tudo, sente-se sozinho num mundo que apenas os outros "velhos" do seu ano (também eles meios "xéxés") sabem do que se trata. De forma muito subliminar, interpreta o mundo de forma estranha, entrando numa atitude de desconfiança para com os outros, que poderá, facilmente, gerar conflitos.

Até que...chega o dia do fim (dia do exame final de especialidade)... Perante uma equipa médica que o acompanha no momento, o Interno parte...e termina assim a sua vida de especialidade. E depois? Virá o paraíso ou o inferno?...

 

José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

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