Rui Cernadas... Um ciclo ou… o triciclo
DATA
08/11/2011 09:46:52
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas... Um ciclo ou… o triciclo

E nós médicos, conheceremos, enfim, o tal ou tais "senhores mercados", os que ora se agitam, ora se enervam, ou se abespinham ou se relaxam, às vezes nervosos, outras vezes seguindo as dicas das agencias de notação, esperando o momento em que, ou sofram uma diarreia incoercível ou uma cólica renal...

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Costuma dizer-se que os Portugueses são bons a improvisar e que o jeito tradicional, quase genético, do "desenrascanço" funciona mesmo.

Quem sou eu para desmentir a crença?

Mas o problema, em todo o caso e em minha opinião, é exactamente esse.

Como não planeamos, nem programamos, não atingimos os resultados desejados, nem esperados.

Do mesmo modo, como se fala muito, demais, mas escreve-se pouco, é fácil dar o dito por não dito, afirmar sem medir ou pesar consequências, nem responsabilidades.

Basta ver como muitos dos nossos políticos são desta maneira brilhantes. Alguns até se irritam, depois, com os jornalistas e os seus gravadores!

Outros, porém, nem se irritam. Irritam-nos!

É uma espécie de condução ou de navegação à vista, sem capacidade para a detecção de baixios ou de curvas e contracurvas imprevisíveis e invisíveis, sempre dispostas a nos encalhar ou despistar...

Foi assim que, lenta e convictamente, o país seguiu até à situação presente e ao sufoco financeiro e económico que, orgulhos e honras à parte, nos pôs fora da Europa da frente, dos poderosos e dos ricos.... de chapéu na mão e esta, mirradinha e esticada!

Como vão longe, anos depois da Revolução, as pesadas heranças de que todos falavam, muitos esbanjaram e alguns se aproveitaram!

A propósito, também então essa do "orgulhosamente sós"...

Mas agora os perigos são muitos e maiores.

Talvez o menor deles seja o de virem estranhos e estrangeiros dar-nos ordens e regras, por muito duras e insensíveis que sejam. E vão ser!

Como diziam alguns filósofos, da época em que apreciávamos o pensamento, os alemães vão mesmo, sem guerras, dominar a Europa. E os britânicos, com as suas libras, a observar...

Na verdade, a realidade tornar-se-á mais tangível e próxima, isto é, quem vai mandar já não estará lá fora, mas cá dentro.

Confirmar-se-á, para desespero dos intelectuais, e para reacção pruriginosa dos outros que, quem comanda e decide, é quem tem dinheiro.

O triunfo do capitalismo.

E nós médicos, conheceremos, enfim, o tal ou tais "senhores mercados", os que ora se agitam, ora se enervam, ou se abespinham ou se relaxam, às vezes nervosos, outras vezes seguindo as dicas das agencias de notação, esperando o momento em que, ou sofram uma diarreia incoercível ou uma cólica renal...

Outro perigo, mais assustador, é o das novas decisões organizacionais e estruturais que chegarão.

A necessidade de mudar, a cada ciclo, é clássica e conhecida.

Sob o argumento, quiçá verdadeiro, de poupança ou de combate ao despesismo, avizinham-se as transformações que, entre nós, sempre conduziram a avanços e recuos, mas nunca a autênticas reformas!

Vai ser tempo de novo ciclo, traduzindo o habitual espectáculo já em curso: a avaliação dos professores voltou ao Parlamento para recuar, embora neste caso o Presidente da República a tenha "segurado", desconfiando da constitucionalidade da decisão apressada e retrógrada...

Em simultâneo com a queda do governo, os sindicatos médicos vieram a terreiro anunciar o acordo sobre a avaliação dos médicos, na base do SIADAP. Posição com a qual concordo inteiramente, até porque a avaliação é o modo mais firme de demonstrar a capacidade de quem a tem e, sobretudo, o empenho de quem quer e gosta de fazer o que deve.

Anunciada para 2012, a avaliação do desempenho parece apostar na garantia de um processo de diferenciação técnica, capaz de facultar uma progressão no percurso profissional, sem favores, baseada numa actualização formativa e em critérios de competência.

Oxalá assim seja...

Um ciclo está, realmente, a fechar-se. Com uma curiosa particularidade - a de se não saber se se abrirá outro diferente. Mas com uma certeza trágica, a do cenário da dependência externa.

É caso para dizer que o ciclo pode mudar.

Mas o que de melhor nos poderá acontecer é ir de triciclo...

 

Rui Cernadas
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