Proximidade e distância
DATA
27/09/2011 09:17:41
AUTOR
Jornal Médico
Proximidade e distância

Era um miúdo de 10 ou 11 anos e vivia num subúrbio de Lisboa. Filho único, uma vez por outra ainda fazia recados à mãe. Poucos, sendo macho, espigado, quase púbere, com a voz a querer mudar e o buço a despontar, chamemos-lhe Francisco. Os pais viviam numa casa de pedra e cal, construção robusta e perdurável, hipoteca e tudo

 

 

Era um miúdo de 10 ou 11 anos e vivia num subúrbio de Lisboa. Filho único, uma vez por outra ainda fazia recados à mãe. Poucos, sendo macho, espigado, quase púbere, com a voz a querer mudar e o buço a despontar, chamemos-lhe Francisco. Os pais viviam numa casa de pedra e cal, construção robusta e perdurável, hipoteca e tudo. Do outro lado da rua das traseiras havia então um descampado, à beira da linha de comboio, onde existia uma casa de paredes instáveis e construção frágil e efémera, a que nessa época distante se chamava barraca, e onde habitava uma família cigana. Tendo granjeado a simpatia da sua mãe, em dada altura ela decidiu embrulhar uma série de artigos domésticos que o Francisco não soube, não era assunto seu, e oferecê-los à cigana, uma mulher de ar digno e formas opulentas, com uns magníficos olhos verdes que já por várias vezes tinham impressionado a sua influenciável mente pré-púbere, feita de corpo e afecto, razão pouca ou nenhuma. Para algum espanto seu, e vaga alegria, a mãe resolveu, em lugar de ir ela própria, mandá-lo a ele fazer esse raro recado. De embrulho na mão, quando se preparava para obedecer, a mãe do Francisco chamou-o outra vez para dentro e disse-lhe em tom grave e voz baixa, timidamente, como se lhe estivesse a dizer um segredo ou a confessar um delito: “mas vê lá não a trates por senhora”.
Esta história assim banal, coloquial, fez-me pensar numa dúvida que às vezes me assalta qual bandido em encruzilhada, nomeadamente se é de bom gosto, tanto estético como ético, o médico falar da sua vida pessoal na consulta, até porque não há outra vida sem ser a pessoal, alguns dizem que o médico deve usar mais as orelhas do que a boca, e a pessoa em questão deve ser o doente e não o médico. Porém agora registe-se apenas que tal como muitas outras pessoas com vidas pessoais muito diferentes, o Francisco da história aprendeu a manter distâncias de segurança. Diferentes para classes, culturas e pessoas diferentes (cada pessoa é uma cultura). Por exemplo se a mulher não fosse tão atraente a norma da mãe seria igual? Ou se fosse um homem? Se não fosse cigana? Se não morasse numa barraca?
Seja como for, ao Francisco a norma pareceu absurda, na rigidez da sua consciência infantil. Por exemplo, a ideia era provavelmente, pensava ele, aumentar a distância e não reduzi-la, se não a tratasse por senhora era pouco sensato tratar por você, e menos ainda por tu, uma mulher que tinha idade para ser sua mãe. Por outro lado, a norma entrava em conflito com outro preceito da educação que aquela mesma mãe lhe tinha dado – o de tratar por senhora uma mulher com marido e filhos, o que era manifestamente o caso da cigana. A recomendação da mãe era portanto uma tremenda injustiça, ainda para mais difícil de cumprir como tudo – a língua portuguesa tem degraus, com acordo ou sem acordo. Tinha uma alternativa, um pouco débil e timorata: não a tratar de maneira nenhuma, nunca se pôr em posição verbal de se dirigir a ela directamente. Com a sua flexibilidade, é um recurso que a língua portuguesa permite, porém logo lhe pareceu indigno de um cavalheiro e uma inqualificável cobardia – o superego de um miúdo de 11 anos é um carrasco. Do alto do seu brio antepubertário, ele queria dirigir-se a ela directa e pessoalmente, perigosamente. Claro que teria preferido poder tratá-la por tu com carinho, mas isso já não tinha nada a ver com o recado da mãe e com a sua enigmática instrução. É claro que acabou por tratá-la por senhora com toda a coragem dos seus 11 anos, e teve a felicidade de ver a oferta ser aceite – afinal de contas, com toda a sua dignidade, a cigana precisava mesmo de ajuda e granjear a simpatia daquela senhora não era assim tão fácil, simpatia escassa em coração ressequido. No fundo de si próprio, sobrou a esperança de que talvez aquela mulher tivesse gostado um bocadinho do mensageiro, para além do que continha o embrulho. Mais, sem querer abusar da prosápia: que talvez ela tenha aceite a encomenda por virtude dele, nem que fosse poucochinho. Hoje adulto, o Francisco gosta de pensar que talvez a mãe tivesse pressentido isso.
O lado realista do Francisco, e eu próprio, pensamos contudo que, na circunstância descrita, houve um princípio moral implícito que permitiu a comunicação entre as duas mulheres, a “senhora” e a “cigana”: não se pode recusar a oferta de uma criança. Então como hoje, comunicar foi pôr em comum. A uma distância confortável.

DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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