Os exames
DATA
27/09/2011 06:51:41
AUTOR
Jornal Médico
Os exames

O recurso aos ECD proporcionados à Medicina por disciplinas afins (Física, Química, Biologia), conduziu a uma revolução epistemológica fantástica e de cuja radicalidade já nem nos apercebemos. Desde o fim do século XIX a semiologia diferenciou-se de vez em relação a tudo o que até aí fora.

 

O recurso aos ECD proporcionados à Medicina por disciplinas afins (Física, Química, Biologia), conduziu a uma revolução epistemológica fantástica e de cuja radicalidade já nem nos apercebemos. Desde o fim do século XIX a semiologia diferenciou-se de vez em relação a tudo o que até aí fora. E mesmo não questionando o primado da clínica (matéria em que os mais iconoclastas não conflituam com os mais ortodoxos) sobre toda a panóplia de ECD, a verdade é que sem estes não é possível exercer medicina tal como a concebemos hoje.
Mas se os médicos podem cair na imprudência de hipertrofiar a importância dos ECD, já o comum dos cidadãos, por falta de informação, alimenta uma ilusão de omnipotência com consequências bizarras e nada inocentes.
Para começar a relação médico/
doente sai debilitada. Em vez dos ECD gravitarem à volta das pes-
soas – doente e médico – ou melhor da relação entre os dois, passaram aquelas a orbitar em redor do radioso exame, fonte da verdade irrevogável. Curiosamente, num tempo em que tanto se fala de humanização e tanto se atribui aos profissionais da saúde um cariz de insensibilidade, esta visão popular dos exames é profundamente desumanizante, não só dos profissionais, mas também dos próprios utentes dos cuidados de saúde.
Há uma espécie de inversão de valores. O centro do processo deixa de ser o doente para se tornar o exame.
O doente aniquila-se, alheado da riqueza e complexidade do todo o seu ser, perante o ECD que nos trás à consulta. Hipertrofiado na sua relevância e ignorando que este mais não é que um pormenor, embora por vezes determinante, corre o risco de despersonalização.
Por outro lado, e como seria de esperar, a confiança no médico atrofia à medida que se agiganta a crença na infalibilidade do exame.
O que os nossos doentes desconhecem é que a semiologia é composta de cérebro e sentidos. Estes põem aquele em contacto com a realidade. Mas o trabalho nobre é efectuado pela inteligência que processa os dados, canalizados pelos sentidos, em diagnósticos. Ora os ECD são bons substitutos dos sentidos, mas não da inteligência. Ajudam-na, mas nunca a superam. O exame só é precioso na medida em que há por detrás dele a inteligência do médico que o pediu criteriosamente e o interpreta judiciosamente, isto é, que o usa como peça do puzzle que é o diagnóstico. O exame pode ser dispensável, nunca o médico. Na ausência da sagacidade do médico é susceptível de lançar falsas pistas. Por outro lado, a sua proliferação desenfreada causa ruído. Isto, o comum dos mortais não sabe. E como tal, relega o médico para o papel (desumanizado, diria eu) de mero requisitador de exames. Não mais que isso.
Esta subalternização do papel do médico é transversal a todas as especialidades, mas particularmente aguda na medicina familiar. Seria fastidioso explicar que esta desumanização do médico é tudo menos vantajosa para o doente.
A divulgação de pormenores sobre nosologia deveria ser preterida em favor de informação sobre a metodologia de trabalho dos clínicos. Enquanto tal não for feito, é natural que estes mal-entendidos floresçam.
Adiante.
Outra consequência perniciosa deste examofilia tem a ver com o disparar de custos, tema muito pertinente nos sombrios dias que correm. A fé cega na infalibilidade dos ECD, aliada ao (ab)uso de todo o tipo de recursos, timbre das sociedade industrializadas, gera um consumismo que, para alguns tipos de personalidade, atinge foros de grotesco. Por vezes nem é já o diagnóstico duma doença o fito do cidadão que se submete a um ECD: é o consumir como fim em si mesmo.
Quantas vezes, cumprida a formalidade da requisição, o doente só volta para pedir outro exame, sem que se digne mostrar o resultado do pretérito. E esta voracidade consumista reflecte-se, não apenas no que toca à quantidade, mas também nas exigências de sofisticação. Raio X… já foi; no mínimo pede-se uma TAC, a ressonância sempre era melhor, mas bom mesmo seria a tomografia de emissão de positrões! Estamos perante uma verdadeira feira de vaidades, em que cada um apresenta as suas credenciais com orgulho: análises sofisticadas, imagiologia a rodos, eu sei lá o que mais. Os ECD já realizados são exibidos como credenciais de status.
Este consumismo, que não é moderado pelo factor custo, tornou-se um escoadouro de recursos, difícil de estancar. Curiosamente, criou-se uma confusão entre direitos a fazer exames com direito a cuidados de qualidade. Estes não passam necessariamente por uma enxurrada de ECD. Vive-se na ilusão de quanto mais se gasta com cuidados de saúde melhor a dita. Se é verdade que cuidados de saúde de qualidade são caros, cuidados exorbitantemente caros não trazem melhorias. Pelo contrário!
Dir-me-ão que os médicos também são culpados. Sem dúvida. Como a imagem que passa é a de que o bom médico é o que passa muitos exames e excelente o que acede a todos os pedidos que lhe façam; e como gostamos que os nossos
doentes gostem de nós… lá vamos (uns muitíssimo mais que outros) cedendo. Até porque, por vezes, o pedido de exame é a forma airosa de terminar uma consulta que não está a correr muito bem! Depois, há a chamada medicina defensiva. Infelizmente desta forma estamos a legitimar o excessivo peso atribuído aos ECD no processo diagnóstico.
Para terminar é preciso dizer que, em boa verdade, este consumismo não é universal. Há doentes que não têm qualquer gosto, quanto mais avidez, em submeter-se a ECD. Entre estes há aqueles que até se esquivam aos que lhes são indiscutivelmente apropriados. E há uma grande quantidade de gente que fica de fora, enquanto perdemos tempo a gerir o excesso de informação de uns tantos, esquecemos “os que não se chegam à frente”. É a lei dos cuidados inversos em todo o seu trágico esplendor e perversidade!

DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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