O acesso dos MF à informação científica: um país, várias realidades
DATA
09/05/2011 10:06:55
AUTOR
Jornal Médico
O acesso dos MF à informação científica: um país, várias realidades

Só recentemente me apercebi que para tantos colegas havia sérias dificuldades de acesso e que há regiões inteiras do país onde o acesso à melhor informação científica só é considerada uma ferramenta de trabalho para os médicos das especialidades hospitalares

  

cronica_monica_granja_02.jpgTiago Villanueva, região de Lisboa: "é urgente melhorar o acesso dos médicos de família à informação científica"

 

Ao longo do internato, tive sempre a sensação de que os colegas das especialidades hospitalares levavam vantagem em termos de acesso a publicações científicas. Apesar da quantidade de publicações open access (em que o autor paga os custos de publicação, permitindo o acesso livre) ter vindo a aumentar nos últimos anos, grande parte da literatura científica com importância e interesse para médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) ainda implica o pagamento de uma subscrição/assinatura.

Um sinal de que é preciso melhorar o acesso dos médicos de MGF à informação científica é o número significativo de pedidos de artigos que todas as semanas aparecem nas listas electrónicas de discussão para médicos de família e internos da especialidade, nomeadamente a MGFXXI e a MGFamiliar. Felizmente, as listas têm tido um papel muito importante a nível da promoção do acesso e disseminação de informação científica pois, congregando centenas de médicos internos e médicos de família, há sempre quem esteja num estágio hospitalar com acesso a bem equipadas bibliotecas, ou quem disponha, por exemplo, de assinaturas individuais ou mesmo algum tipo de acesso institucional (no caso de médicos de MGF com algum tipo de afiliação académica).

No entanto, isto não chega, até porque, nas listas, a procura supera claramente a oferta. É apenas um "remendo". Mas esta procura voraz revela aquilo que é evidente: os médicos de MGF sentem a necessidade de aceder a informação que, na maioria dos casos, é de acesso restrito e essa necessidade oscila entre a curiosidade intelectual pura e fins muito concretos, como a realização de um artigo de revisão ou de investigação para publicação. E é durante o internato que essas necessidades se exacerbam, dadas as expectativas de produtividade científica nessa fase crucial de formação e desenvolvimento profissional.

Na prática, a realidade é mais cruel. Os médicos hospitalares têm tido a vantagem de disporem de acesso à Biblioteca do Conhecimento online (http://www.b-on.pt/), sobretudo em hospitais centrais e universitários. Durante os meus estágios hospitalares, pude beneficiar do acesso à "B-On" no Hospital Fernando da Fonseca.

A História mostra-nos que os hospitais sempre foram considerados os grandes baluartes da ciência médica, mas esse paradigma está esgotado. A Medicina moderna passa agora pelo desenvolvimento de serviços de proximidade à população, caracterizados, como diria o Dr. Juan Gérvas, por "máxima qualidade, mínima quantidade, com tecnologia apropriada e tão próximo do domicílio do paciente quanto seja possível" (1).

Aliás, os melhores sistemas de saúde do mundo têm como característica comum terem sistemas de Cuidados de Saúde Primários fortes (é o caso, por exemplo, da Holanda, da Dinamarca ou do Reino Unido). E é, portanto, natural, que a investigação e o desenvolvimento da ciência médica tenha que acompanhar essa evolução. Recordo-me de num estágio hospitalar durante o internato um jovem especialista ter ficado surpreendido por eu lhe dizer que lia determinadas publicações científicas da área dos Cuidados de Saúde Primários/MGF. Interpretei a sua reacção quase como querendo dizer que os médicos de MGF estão numa divisão científica inferior à dos médicos hospitalares, não tendo portanto necessidade de reflexão, actualização, discussão e produção científica regular. Imagino, quase como em jeito de mito, que muitos interpretem Cuidados de Saúde Primários como se tratando de cuidados "primitivos", "rudimentares", pouco científicos e pouco "sofisticados", comparativamente com os cuidados hospitalares, quando, na realidade, primários tem aqui mais a ver com o conceito de primordiais, aqueles que estão primeiro.

Há alguma evidência a mostrar que os médicos hospitalares publicam consideravelmente mais que os médicos dos Cuidados de Saúde Primários e quaisquer que sejam as razões que expliquem isso, elas não podem justificar as presentes dificuldades que existem no acesso a informação científica (2). A especialidade de MGF tem, como qualquer outra especialidade, um débito de produção científica regular e, para efeitos práticos, muitos centros de saúde poderão considerar-se equiparados, a nível comunitário, a centros hospitalares académicos, pois contribuem para a formação pré-graduada de estudantes de Medicina e pós-graduada de médicos internos do Ano Comum e de MGF, alicerçando a produtividade científica dos médicos dos Cuidados de Saúde Primários.

Faz sentido, então, que os centros de saúde também disponham de acesso institucional a todo um conjunto de publicações, como acontece com muitas instituições hospitalares. No presente modelo de formação pós-graduada em MGF, em que o internato não depende do respectivo departamento universitário de Cuidados de Saúde Primários/MGF (como acontece, por exemplo, na Holanda), o acesso torna-se mais difícil, mas não necessariamente menos importante. Não é aceitável que ainda se escutem por aí relatos de médicos de MGF que não têm acesso sequer à internet no seu centro de saúde. Hoje em dia, dispor de internet no local de trabalho devia ser considerado apenas o mínimo denominador comum, pois, conforme foi referido anteriormente, muitas publicações de renome na área da MGF dispõem de acesso grátis, com destaque para as publicações Open Access. 

É certo que o acesso à informação em muitos casos é, do ponto de vista financeiro, oneroso para as instituições, pois, afinal de contas, os grandes grupos editoriais internacionais são instituições com fins lucrativos. O modelo actualmente dominante de publicação científica, nomeadamente na área médica, implica filtrar primeiro e publicar depois, cobrando aos consumidores de informação por esse mesmo acesso a um produto editorial seleccionado e "digerido". Embora já haja quem questione isso, sugerindo, nomeadamente, a necessidade de se avançar para um modelo de publicar primeiro e filtrar e julgar a posteriori, vamos ter ainda que esperar algum tempo pela mudança de paradigma.3 Até lá, vamos precisar de continuar a aceder a informação e de pagar, de uma forma ou de outra, pela mesma. As assinaturas individuais de revistas científicas são, regra geral, caras e, portanto, está mais que demonstrado que os médicos de MGF têm necessidade de ter mais e melhor acesso institucional a publicações científicas, à semelhança de muitos colegas hospitalares.

No entanto, parece um autêntico contra-senso que se privilegie a Medicina hospitalar, proporcionando aos colegas hospitalares uma vantagem competitiva, quando a MGF é a especialidade que em Portugal congrega o maior número de médicos internos e médicos especialistas, os quais apresentam necessidades semelhantes em termos de procura e consumo de informação.

A melhoria das condições acesso dos médicos de MGF à informação científica é uma aposta nos Cuidados de Saúde Primários e no seu desenvolvimento científico.

 

cronica_monica_granja_03.jpgMónica Granja, região do Porto: ter acesso fácil à informação científica é um dado adquirido

 

Tendo realizado o internato de MGF na área do Porto no final dos anos 90 e trabalhado em Matosinhos desde 2000, nunca senti que as minhas dificuldades no acesso à informação científica fossem diferentes das dos colegas hospitalares. Nessa época existiam dificuldades, sim, mas elas eram transversais às várias especialidades e próprias de uma época "pré-global" que, apesar de ter ocorrido há pouco mais de uma década, nos parece, felizmente, muitíssimo distante. Em 1997, quando ingressei no internato da especialidade, ninguém que eu conhecesse tinha internet em casa e, sempre que precisava de fazer uma pesquisa, recorria pessoalmente à biblioteca do Hospital Geral de Santo António (HGSA), onde decorria a maioria dos meus estágios hospitalares. Nessa biblioteca, pesquisar na Medline consistia na consulta off-line de ficheiros disponíveis em disquetes e periodicamente descarregados nos computadores disponíveis na sala de leitura. Para além das pesquisas dirigidas, mantermo-nos actualizados significava também folhear os números mais recentes das diversas revistas em papel que a biblioteca subscrevia e dispunha em escaparates.

Também na coordenação de internato da zona norte havia um acervo de revistas, mas estas diziam mais directamente respeito à especialidade de MGF, soando os seus títulos completamente desconhecidos à minha hospitalocêntrica formação pré-graduada (lembro o assombro de folhear pela primeira vez um exemplar do Canadian Family Physician e de aí encontrar o artigo que inspirou uma das minhas áreas de especial interesse profissional: as relações dos médicos com a indústria farmacêutica).

Outro recurso (ainda hoje) disponível e que usei várias vezes era o pedido de artigos ao serviço de documentação e informação da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG). Este serviço dispõe de cerca de meia centena de revistas com foco na MGF, disponibilizando cópias de artigos em papel e mediante o pagamento das respectivas fotocópias. Através deste serviço da APMCG é possível, mediante pagamento, aceder ainda a artigos disponibilizados pela British Library. No primeiro ano do internato cheguei a pagar 6 contos (30 euros) por dois artigos sobre o Apgar Familiar para o meu trabalho do curso de Introdução às Metodologias de Investigação.

Há alguns anos cheguei a usar também o serviço de documentação (e obtenção de artigos) que um laboratório farmacêutico disponibilizava aos médicos. Esse laboratório tinha uma página on-line onde nos registávamos e podíamos pedir os artigos de que precisássemos (serviço que já não se mantém, pelo menos esse laboratório). Os últimos artigos que obtive usando este sistema foram-me entregues no centro de saúde por um delegado desse laboratório o que, para quem, como eu, não recebe delegados de informação médica foi um tanto constrangedor.

Terminado o internato, e com ele a minha condição de utilizadora interna da biblioteca do HGSA, o meu acesso à informação científica melhorou: não só a globalização da informação progrediu a passos largos (quando comecei a trabalhar como especialista já tinha internet em casa), como, sobretudo, tive a felicidade de assentar como médica de família num centro de saúde que, fazendo parte de uma Unidade Local de Saúde (a de Matosinhos, ULSM), tornava os seus profissionais utilizadores internos da biblioteca do Hospital Pedro Hispano. Foi como utilizadora desta biblioteca que senti a globalização da informação científica e, actualmente, tenho (eu e todos os profissionais da ULSM) acesso à maioria dos artigos de que necessito à distância de um e-mail. O pedido é feito para o endereço electrónico da biblioteca sendo os artigos na sua grande maioria enviados em formato digital e no próprio dia. Apenas aqueles artigos a que o serviço acede através de empréstimo inter-bibliotecas demoram por vezes alguns dias (havendo alguns, raros, artigos que não estão disponíveis de todo). Existindo um número limite de artigos que podem ser solicitados por mês (vinte), sei também que são possíveis excepções devidamente circunstanciadas.

Tentando saber como se passavam as coisas noutros contextos de trabalho, vim apurar que a situação de Lisboa se replica noutros pontos do país: na região centro e no Algarve, por exemplo . Nestes locais, para se aceder a um artigo não disponibilizado gratuitamente na internet (e tal como refere o Tiago para Lisboa), ou se está num estágio hospitalar, ou se tem alguma ligação mais ou menos informal ao meio académico. Ou então, contaram-me, pede-se de modo não formal directamente a um delegado de informação médica. Fora isso, só fazendo um pedido de partilha numa das listas de médicos de família já referidas... ou pagando mesmo o artigo.

Por outro lado, a Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN) disponibilizou recentemente o acesso a uma base de dados, a Proquest, a partir dos computadores dos centros de saúde que estejam ligados na rede habitual. Deste modo, qualquer profissional de qualquer centro de saúde da área da ARSN (à excepção da ULSM), pode, entrando através da página da ARSN, aceder a milhares de artigos em texto completo, incluindo conteúdos de acesso de outro modo pago.

Em boa verdade e apesar de só ter tido acesso à internet no centro de saúde desde há um ano, sempre tive a minha facilidade de acesso à informação científica como um dado adquirido, tão natural como ter no meu centro de saúde uma bata, uma secretária e um gabinete para trabalhar. Só recentemente me apercebi que para tantos colegas havia sérias dificuldades de acesso e que há regiões inteiras do país onde o acesso à melhor informação científica só é considerada uma ferramenta de trabalho para os médicos das especialidades hospitalares. Sirva este texto como uma declaração de inconformidade e uma oportunidade para que os ventos do norte soprem a favor de uma mudança de paradigma mais a sul.

 

Tiago Villanueva, médico de família, UCSP Alvalade, Lisboa
Mónica Granja, médica de família, CS Sra. da Hora, Unidade Local de Saúde de Matosinhos

 

1  - Gérvas, J, Serrano, E. Valores clínicos prácticos en torno al control de la incertidumbre por el médico general/de familia. Expectativas y realidades en la Atención Primária española, Fundación 1º de mayo, 2010.

2 - Askew DA, Glasziou PP, Del Mar CB. Research output of Australian general practice: a comparison with medicine, surgery and public health. Med J Aust. 2001;175:77-80.

3 - Richard Smith: Twitter to replace peer review? http://blogs.bmj.com/bmj/2011/01/26/richard-smith-twitter-to-replace-peer-review/ (consultado a 18 de Março de 2011)

 

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