Anos de chumbo: Deutshland gefelt mir! - Erst teil
DATA
09/05/2011 09:51:36
AUTOR
Jornal Médico
Anos de chumbo: Deutshland gefelt mir! - Erst teil

 

Deutshland gefelt mir! - Erst teil*

                                                                                                    A Alemanha agrada-me!*: Acácio Gouveia

 

 Um paradoxo tem valor só quando o não é

O Paradoxo; Fernando Pessoa

Versão integral acessível, apenas, na edição impressa.

acacio_gouveia.jpgSou de um tempo em que pensar de forma diferente era perigoso. Felizmente já não é assim. Todavia, nos tempos que correm, ter convicções alinhadas com a maioria não é bem visto. Estar contra corrente é, no mínimo, o que se pode exigir de qualquer cidadão. Já vivi o suficiente para deixar de me preocupar em não estar de acordo com as normas ou enveredar sistematicamente pela iconoclastia contra o establishment. Por isso não me preocupa não ser do contra e estar de acordo com a opinião corrente.

O paradoxal é que a heterodoxia, tendo ascendido à categoria de regra, arrisca-se a transmutar-se em ortodoxia: todos querem ter opinião diferente da estabelecida. Portanto, ser diferente tornou-se regra, ou seja, o desalinhamento, erigido a cânone, põe em causa o próprio desalinhamento, uma vez que é de bom-tom normativo ser-se anti-norma. Aqui chegados espero que o leitor seja capaz de seguir este raciocínio, já que eu próprio tenho dificuldade em fazê-lo. Adiante! Mas se o(a) leitor(a) paciente estiver em maré de ouvir heterodoxias acertou na prosa. Hoje estou decididamente contra a corrente!

O desfasamento temporal e espacial, entre o que escrevo, agora e aqui, para ser lido depois, aí, no papel impresso do jornal, põe-me ao abrigo dos previsíveis vitupérios. Espera só que se faça justiça ao Jornal Médico de Família, já que nada ter a ver com as heresias que se seguem. O rigoroso respeito pela liberdade de expressão é timbre deste jornal. As reflexões são da exclusiva responsabilidade deste vosso criado e é de crer que a redação do JMF de modo algum as subscreva, como aliás a maioria esmagadora dos portugueses.

 

As cigarras e as formigas

 

The civic morality that underlies the social cohesion of many democratic societies, especially in northern Europe, has been absent in Ireland for some time.

Garret Fitzgerald; The Irish Times; 9 de Abril de 2011

 

Entre as várias abstrusidades que a crise trouxe às douradas praias do jardim plantado neste cantinho europeu, a onda de racismo anti-alemão é das que mais me perturba. Parafraseando Platão a "Apologia de Sócrates", diria que me surpreendo a interrogar sobre o porquê deste surdo ressentimento. Angela Merkel é diabolizada e apontado dedo acusador à maléfica Alemanha, por se querer imiscuir na vida política das pátrias em dificuldades... Grécia, Irlanda e Portugal.

É um facto que, na Alemanha, a idade da reforma passou do 65 para os 67 anos, ainda em 2008, quando eclodiu a crise, e que na Grécia podiam os funcionários públicos reformar-se aos 53 anos. Mas é compreensível: as cristalinas águas do Mediterrâneo, as coloridas aldeias alcantiladas sobre baías acolhedoras, enfim, a luminosidade da atmosférica helénica, bem merecem ser desfrutadas por gente com réstia de juventude. Já as ásperas praias bálticas, a sombria Floresta Negra ou os gélidos píncaros bávaros são tão pouco acolhedores, pelo que o melhor que os teutónicos têm a fazer é renunciar ao ócio e ocuparem o tempo livre ... trabalhando. Assim como assim, sempre pagam as reformas dos gregos. Há gente manhosa que diz que do norte da Europa fluiu imenso dinheiro para os países periféricos do sul, mas nós sabemos muito bem que a verdadeira e perversa intenção era fomentar o consumo de produtos germânicos (aliás de reconhecida má qualidade!). Não fora o mercado dos menos de 30 milhões de aqueos, lusitanos e gaélicos, e a prosperidade dos mais de 90 milhões de tudescos não passaria dum sonho.

Se é permitido devaneio especulativo, interrogo-me se a falência destas nações não evidenciará a falência das religiões (ou dalgumas). Vejamos: o núcleo das religiões resume-se à Fé e à Caridade. A relação com Deus e com o semelhante são as duas dimensões da religião: metafísica e ética. Ou seja: por um lado acreditar na existência da Divindade e adorá-La, e, por outro, amar o próximo. Se a primeira é exclusiva da condição de crente, já a segunda pode ser extensível a não crentes. Mas se não é de espantar que alguém adira ao todo ou parte do corpus ético duma religião, negando ou ignorando a existência de Deus, já é bizarro que um crente acredite e renuncie à praxis ética. Contudo, parece que isso é menos raro do que se pudesse imaginar.

Se há dois países cripto-confessionais na UE são eles, justamente, a Grécia ortodoxa e a católica Irlanda. Os popes esqueceram-se de ensinar ao seu rebanho que o Senhor abomina a mentira (e o governo grego aldrabou a contabilidade nacional com o intuito de enganar os parceiros europeus) e que a preguiça é pecado mortal. Já os bispos irlandeses, demasiado focados nas ovelhas mais tenras, desvalorizaram a mensagem evangélica: o ser é mais importante que o ter. E os irlandeses preferiram a ganância e arruinaram-se comprando bens materiais que não podiam pagar. Curiosamente, a famosa ética protestante parece ter dado frutos bem diferentes. Os tão mal-amados nórdicos gastam menos do que consomem, exibem menos do que o que possuem. A austeridade luterana proporciona-lhes prosperidade, ao passo que o bacoco novo-riquismo sulista desembocou em miséria e humilhação.

Sejamos francos, dolorosamente francos: a culpa da deplorável situação destes três países recai sobre eles próprios e é agravada pela insistência em engendrar bodes expiratórios a quem responsabilizar pela sua desgraça. A ganância boçal expôs estes países (cada um à sua maneira) às hienas. Pior, esta irresponsabilidade tem consequências para os nossos parceiros da União. Solidariedade é coisa que, tugas, irlandeses e gregos só evocam quando precisam de ajuda.

 Acácio Gouveia
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