Nuno Jacinto: 71 vagas de MGF por preencher significa que “não estamos a conseguir atrair e manter profissionais no SNS”
DATA
06/12/2022 16:51:49
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Jornal Médico
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Nuno Jacinto: 71 vagas de MGF por preencher significa que “não estamos a conseguir atrair e manter profissionais no SNS”

A Ordem dos Médicos (OM) adiantou que das 161 vagas por ocupar na escolha de especialidade, 71 são de Medicina Geral e Familiar (MGF). Nesse sentido, Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) esteve à conversa com o Jornal Médico acerca deste que é um assunto que, no seu entender, deve ser encarado de “forma preocupante”. Este é um sinal de que “temos de trabalhar muito mais e melhor se queremos ter mais especialistas, nomeadamente em MGF, a reforçar o Serviço Nacional de Saúde (SNS)”.

Num ano em que o concurso apresentou mais candidatos do que vagas, muitos foram os que preferiram não escolher nenhuma das vagas disponíveis, levando a uma sobra de 71 vagas, no caso da MGF: “Isso significa que os colegas que estão para escolher a especialidade já olham com algum receio para o que pode ser o seu futuro caso escolham o internato de MGF, e isso, é muito preocupante”, salienta.

Isto leva Nuno Jacinto a refletir que “não vale a pena abrir vagas, abrindo-as quase de forma ilimitada, se depois não são proporcionadas as condições de trabalho necessárias aos colegas. O que acontece e que, já se previa, é que vamos abrir vagas que depois, acabam por não ser ocupadas, com colegas que preferem esperar ou optar por outras vias, a escolherem esta via de formação para o seu futuro”.

Relativamente à falta de atratividade da especialidade ou vontade de permanência no SNS, Nuno Jacinto aponta alguns motivos possíveis: “No que concerne à MGF, prende-se com um motivo básico que é a pouca valorização e respeito pelo nosso trabalho que tem acontecido ao longo dos últimos anos, continuamos sempre a ouvir que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são o centro do sistema, mas não há uma aposta clara naquilo que é a MGF ou que são os centros de saúde, em Portugal”.

A questão salarial, a evolução da carreira médica que, “neste momento, é praticamente inexistente”, a autonomia das equipas, a flexibilidade de horários, a diminuição da carga burocrática, a redimensão das listas de utentes “que, neste momento, têm uma dimensão impraticável tudo aquilo que temos de fazer”, ou as condições básicas do material clínico das unidades, são outros dos motivos apresentados pelo presidente da APMGF que precisam de ser considerados para conseguir atrair os colegas para a especialidade no SNS.

Apesar de mais de 500 médicos internos tenham sido colocados na formação especializada de MGF, estas 71 vagas por preencher vão ter impacto nos CSP, ao nível da prestação de serviços aos utentes, “dado que neste momento temos mais de 1.300.000 portugueses sem médico de família”, reforça Nuno Jacinto. “Precisamos de todos os jovens candidatos a internos e especialistas que possamos ter e precisávamos de garantir a sua formação com qualidade, ao longo destes anos, para daqui a quatro ou cinco anos termos este número de especialistas a reforçar o SNS, mudando o paradigma atual”, conclui o presidente da APMGF.

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Editorial | Jornal Médico
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