Conceição Balsinha: “As pessoas com demência e as suas famílias têm um acesso limitado aos cuidados que necessitam nos CSP”
DATA
05/08/2022 12:18:39
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Jornal Médico
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Conceição Balsinha: “As pessoas com demência e as suas famílias têm um acesso limitado aos cuidados que necessitam nos CSP”

A Medicina Geral e Familiar está de parabéns, pois tem mais um doutorado. Conceição Balsinha realizou, no dia 21 de março, as suas provas de doutoramento em Medicina, na especialidade de Investigação Clínica, com a tese “Users and Health Professionals’ Perspectives Regarding Portuguese Primary Care Services: A Focus on Dementia”. O Jornal Médico falou com a médica de família e investigadora do Comprehensive Health Research Center (CHRC), que revelou as principais conclusões do seu trabalho.

Jornal Médico (JM) | Quem é Conceição Balsinha? Como se apresentaria aos seus colegas?

Conceição Balsinha (CB) | Sou uma médica de família que se interessa muito pelos assuntos relativos ao envelhecimento e que adquiriu também um gosto pela investigação.

JM | Realizou recentemente as suas provas de doutoramento em Medicina com a tese intitulada “Users and Health Professionals’ Perspectives Regarding Portuguese Primary Care Services: A Focus on Dementia”. Porquê a escolha do tema da demência como área de investigação?

CB | Em certa medida foi um acaso. No entanto, considero que a demência é um tema muito atual e relevante pois sabemos que a população portuguesa está a envelhecer, o que significa que o número de pessoas com demência também vai aumentar. Além disso, em Portugal, a área das demências é do âmbito quase exclusivo das especialidades de Neurologia e de Psiquiatria, apesar do papel dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) ser visto como fundamental por organizações como a Alzheimer’s Disease International e a Organização Mundial de Saúde. Na realidade, são os profissionais dos CSP que têm habitualmente uma visão global das necessidades de cuidados dos seus pacientes, que tentam gerir a multimorbilidade de forma integrada, que acompanham as famílias e que reconhecem mais facilmente problemas psicossociais. No entanto, apesar de estas características serem mais-valias para o acompanhamento das pessoas com demência e seus familiares nos CSP, estudos internacionais têm identificado várias barreiras ao desempenho dos CSP nesta área. Depois, como não existiam muitos estudos em Portugal sobre demência no ambiente CSP pareceu-nos relevante compreender melhor a prestação de cuidados na demência nos CSP no nosso país, principalmente numa altura em que está a ser discutida a implementação da Estratégia Portuguesa para a Demência.

JM | Quais os estudos - e o que envolveram - que estiveram na base da tese e quais os seus objetivos?

CB | A prestação de cuidados de saúde nesta área da demência é complexa, pelo que escolhemos métodos qualitativos, recorrendo a entrevistas in[1]dividuais (com pessoas com demência e seus familiares cuidadores, médicos de família, enfermeiros e assistentes sociais), bem como à análise de consultas de Medicina Geral e Familiar com as tríades (pessoa com demência, seu familiar cuidador e mé[1]dico de família). Os nossos objetivos principais foram três. O primeiro deles foi descrever as experiências e perspetivas dos médicos de família (MF), das pessoas com demência e dos seus familiares sobre o papel dos MF, e as questões que o influenciam, na prestação de cuidados na demência; depois, quisemos explorar os cuidados na demência no contexto de consultas com tríades (i.e. consultas com pessoas com demência, seus familiares e MF); e, por fim, explorar as barreiras à implementação da Estratégia Portuguesa para a Demência nas equipas de CSP, na perspetiva dos utilizadores e profissionais

JM | Quais as principais conclusões encontradas? Quais as medidas propostas para melhorar o panorama da oferta de cuidados às pessoas com demência nos CSP?

CB | Os nossos resultados sugerem que as pessoas com demência e as suas famílias têm um acesso limitado aos cuidados que necessitam, na área da demência, nos CSP. Com efeito, as equipas de CSP não parecem estar preparadas para cumprir os requisitos da Estratégia Portuguesa para a Demência. Para mudar este panorama de oferta de cuidados às pessoas com demência nos cuidados primários, considero ser absolutamente necessário envolver diferentes profissionais dos CSP (e.g. enfermeiros) nos cuidados prestados na demência. Além disso, estes profissionais precisam ter mais competências na área da demência e precisam ter papéis mais bem definidos. Por fim, para os CSP poderem fazer melhor o seu papel, também são necessários mais recursos na comunidade específicos e dirigidos para a área da demência.

JM | Em que ponto se encontra a implementação da Estratégia Portuguesa para a Demência, proposta em 2018?

CB | A implementação da estratégia nacional na área das demências, aprovada há anos, foi infelizmente prejudicada pela COVID-19, o que fez com que o processo tenha ficado parado nestes últimos dois anos. De qualquer forma, recentemente foram aprovados os Planos Regionais de Demência elaborados por cada uma das cinco Administrações Regionais de Saúde e determinada a constituição da Comissão Executiva do Plano Nacional da Saúde para as Demências e as coordenações regionais para a implementação desses mesmos planos (Despacho n.º 12761/2021).

JM | Considera que a sua tese poderá ser mais um passo para uma mudança de paradigma e contribuir para uma intervenção mais rápida e assertiva por parte das entidades que podem promover a formação dos profissionais e dotar as equipas de mais meios específicos para a área da demência?

CB | Penso que os resultados do nosso estudo são apenas o primeiro passo para percebermos melhor o que se passa nos CSP em relação à demência. Na minha opinião, é fundamental desenvolver mais estudos nesta área e em outras zonas do país para termos uma noção mais abrangente. Ao reunir mais conhecimento ficaremos mais habilitados para desafiar os governos a integrar uma parte dos cuida[1]dos de demência nos cuidados primários, esta que é uma das principais causas de incapacidade entre as pessoas idosas em todo o mundo

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.