“É fundamental valorizar convenientemente as queixas das mulheres”
DATA
06/05/2022 14:38:51
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Jornal Médico
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“É fundamental valorizar convenientemente as queixas das mulheres”

A saúde da mulher “evoluiu decisivamente” com a criação do SNS, destaca Vera Pires da Silva, da comissão coordenadora do Grupo de Estudos da Saúde da Mulher da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). Se áreas como o acesso gratuito a métodos contracetivos e a despenalização da interrupção voluntaria da gravidez foram “grandes marcos para a saúde das mulheres portuguesas”, a responsável considera, contudo, que “ainda existe um percurso a fazer, nomeadamente no que concerne à violência de género e à inclusão de mulheres em ensaios clínicos”. Leia a entrevista a Vera Pires da Silva, da comissão coordenadora do Grupo de Estudos da Saúde da Mulher da APMGF.

Jornal Médico (JM) | Ouve-se muito falar em “saúde materna” e muito menos em “saúde da mulher”. Ainda há quem pense que a saúde da mulher se limita aos problemas relacionados com a reprodução?

Vera Pires da Silva (VPS) | Talvez no passado a saúde da mulher tenha sido mais focada na saúde materna por ser um período especialmente vulnerável da mulher. Contudo, acredito que, com a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e da especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF), essa conceção tenha sido posta de lado, pois, como sabemos, a saúde da mulher é muito mais abrangente do que a saúde materna. Penso que, nos dias de hoje, a questão de limitar a saúde da mulher à sua fase reprodutiva já não acontece.

JM | Passados quase 43 anos da fundação do Serviço Nacional de Saúde, como olha para o panorama da saúde da mulher? Esta é mais respeitada e valorizada nas suas queixas?

VPS | Eu acredito que tem havido cada vez mais informação no sentido de valorizar as queixas das mulheres. Contudo, há dados que mostram, por exemplo, que nas mulheres os sintomas de doenças cardiovasculares tendem a ser mais frequentemente considerados erroneamente como "ataques de ansiedade" ou "ataques de pânico”. E o que verificamos é que as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortalidade entre as mulheres portuguesas. É, pois, fundamental valorizar convenientemente as queixas das mulheres, estar consciente e alertar para estes vieses, de forma a podermos combatê-los eficazmente.

JM | Quais são na sua opinião, as áreas da saúde da mulher que têm sofrido uma evolução mais positiva e quais as que têm sido mais negligenciadas e que precisam de ser impulsionadas?

VPS | Penso que as áreas dedicadas aos direitos das mulheres, como o acesso gratuito a métodos contraceptivos e despenalização da interrupção voluntaria da gravidez, foram grandes marcos para a saúde das mulheres portuguesas. Contudo, ainda existe um percurso a fazer no que concerne à violência de género e à inclusão de mulheres em ensaios clínicos ou à apresentação dos resultados por sexo, pois sabemos que os dados obtidos para os homens nem sempre podem ser generalizados para as mulheres devido as diferenças de farmacodinâmica e farmacocinética dos fármacos, entre outras.

JM | De que forma as diferenças relacionadas com o sexo e género influenciam a saúde das mulheres? Ou seja, ser mulher significa ter uma melhor ou pior saúde?

VPS | Existem diferenças relacionadas com o género que são comprovadas pelos dados. Por exemplo, sabemos que as mulheres são mais utilizadoras dos serviços de saúde e que vivem mais tempo em relação aos homens. Contudo, a qualidade de vida e bem-estar que experimentam muitas vezes não é satisfatória, isto é, referem uma pior qualidade de vida. Com efeito, embora as mulheres procurem serviços preventivos mais frequentemente e usem mais medicamentos do que os homens, isso nem sempre se traduz numa percepção de melhor qualidade de vida.

JM | Qual o papel que os médicos de família podem desempenhar na Saúde da Mulher, nas suas diferentes vertentes?

VPS | O médico de família acompanha a mulher ao longo de todo o seu percurso de vida, desde o nascimento até à terceira idade. Como tal, esta proximidade, que se prolonga no horizonte temporal, permite uma prestação de cuidados mais personalizada, que vai desde a saúde infantil e adolescência da mulher, passando pela fase reprodutiva com aconselhamento a nível planeamento familiar, gravidez caso esta se enquadre no projecto de vida da mulher, perimenopausa, menopausa e até ao fim da vida. Uma abordagem holística e centrada na mulher, com base na melhor evidência científica disponível, permite garantir melhores cuidados de saúde, adaptados às necessidades individuais de cada mulher.

JM | A pandemia Covid-19 veio quebrar com o ciclo dos rastreios. Como se encontram atualmente os rastreios ginecológicos e obstétricos nos cuidados de saúde primários?

VPS | Os rastreios ginecológicos e obstétricos nos cuidados de saúde primários já estão a ocorrer na sua normalidade e as mulheres estão a ser convocadas ou a realizar de forma oportunística quando procuram cuidados nos centros de saúde.

JM | Quais os problemas de saúde que mais afetam as mulheres portuguesas? 

VPS | Sabemos que os problemas de saúde que mais afetam as portuguesas são as doenças musculoesqueléticas (lombalgias e cervicalgia), enxaquecas, depressão e doenças da pele (principalmente acne, dermatite e psoríase). Já no que diz respeito às doenças que mais matam em Portugal, as doenças cérebro-cardiovasculares e o cancro são as que têm mais peso. De qualquer forma, saliento os vários desenvolvimentos no diagnóstico precoce, bem como as novas e melhores abordagens terapêuticas, pois estas têm um profundo impacto na saúde da mulher.

JM |Quais as iniciativas em curso do Grupo de Estudos da Saúde da Mulher e quais as iniciativas futuras?

VPS | O nosso Grupo de Estudos tem actividades que decorrem ao longo do ano. Umas são dedicadas à população em geral, nomeadamente o assinalar de algumas datas importantes relativas à saúde da mulher, como a Semana do Aleitamento e o Dia Internacional da Eliminação Contra a Violência, entre outras, de forma a aumentar a literacia da população e consciência para esses temas. Por outro lado, também realizamos iniciativas dedicadas aos médicos de família, como formações, publicações e cursos. No futuro, pretendemos continuar a apostar nestas duas vertentes, na educação da população para a saúde e na actualização científica dos nossos profissionais de saúde, até porque a saúda da mulher é a saúde de 52,4% da população portuguesa e, como tal, interessa a todos, tanto mulheres e homens, como população geral e profissionais de saúde.

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