“Os colegas da MGF são a grande força da 1.ª linha do combate às doenças endócrinas”

“Há um défice de informação, quer na população em geral, quer no meio médico sobre as doenças da tiroide”, o que se traduz num subdiagnóstico ou diagnóstico tardio destas patologias, lamenta João Jácome de Castro, major-general diretor de Saúde Militar e endocrinologista no Hospital das Forças Armadas. Em entrevista ao Jornal Médico, o especialista defende uma maior colaboração entre as especialidades e a “criação de equipas hospitalares de Endocrinologia”.

Jornal Médico (JM) | Quais as principais disfunções da tiroide encontradas nas mulheres portuguesas? 

João Jácome de Castro (JJC) | As doenças da tiroide dividem-se em dois grandes grupos, de alte ração da forma, como os gânglios ou os nódulos da tiroide, e da alteração na função da tiroide, como é o caso do hipotiroidismo, que é, de longe, a disfunção mais frequente nas mulheres portuguesas.  Além disso, existem estudos, embora não nacionais, que estimam que cerca de 15% das pessoas com hipotiroidismo possam estar mal diagnosticadas ou subdiagnosticadas.  

JM | Quando pensamos na saúde da mulher e a sua relação com a tiroide, o que é essencial ter em conta? 

JJC | Existem três aspetos que devemos considerar deste logo: o hipotiroidismo, a tiroide e gravidez e a tiroide e iodo. Relativamente ao hipotiroidismo, começo por salientar que este é francamente mais frequente na mulher (7-8 vezes mais presente no sexo feminino do que no masculino). Além disso, é bom ter presente que a prevalência do hipotiroidismo declarado clínico ronda os cerca de 2% na mulher, mas na mulher após a menopausa pode ir até aos 10-15%. Como tal, o hipotiroidismo é uma doença muito comum na população em geral, especialmente nas mulheres e especialmente depois da menopausa. Felizmente que é uma doença fácil de tratar, em remédio, que é a hormona da tiroide pura, que é barato e é fácil de administrar. Costumo dizer que se tivesse de escolher uma doença para as minhas filhas, escolhia o hipotiroidismo autoimune.

JM | Para o hipotiroidismo ser tratado é preciso que, primeiro, seja diagnosticado. Qual o panorama do seu diagnóstico em Portugal? 

JJC | Há uma diversidade muito grande de órgãos e sistemas do organismo que são afetados pelas hormonas tiroideias e, como tal, o hipotiroidismo pode ter um conjunto muito diversificado de queixas, que muitas vezes levam a que pessoa ande de médico em médico sem saber o que tem. Muitas vezes, a pessoa vai ao dermatologista porque tem pele seca e queda de cabelo, vai ao ginecologista porque tem alterações menstruais, ao cardiologista porque tem bradicardia, ao psiquiatra porque tem depressão, ao gastrenterologista porque tem obstipação… enfim. Quando, afinal, se trata de um simples hipotiroidismo. 

Em Portugal, para um diagnóstico mais precoce e mais assertivo penso que é fundamental apostar na formação pós-graduada, pois apesar de as doenças da tiroide serem muito frequentes, a formação nesta área não é muito divulgada - até mesmo nas escolas médicas. Depois, considero essencial dar mais formação, por um lado aos médicos de Medici na Geral e Familiar (MGF) e, por outro lado, promover a literacia na população, para que esta consiga identificar determinado tipo de queixas que justifiquem uma consulta médica. Até porque, como já dito, o tratamento é eficaz, é fácil, e o diagnóstico também é muito fácil de fazer, desde que suspeite.  

JM | Considera, então, que existe um défice de informação e que as mulheres portuguesas estão pouco familiarizadas com a sua tiroide e funções? 

JJC | Claramente! Na minha perspetiva há um défice de informação, quer na população em geral, quer no meio médico sobre as doenças da tiroide. A verdade é que estas são patologias muito frequentes, geralmente muito fáceis de diagnosticar, de tratar e de acompanhar, e que podem acarretar prejuízos para a saúde, principalmente nas pessoas mais idosas, com o risco da descompensação, nomeada mente da função cardíaca no caso do hipotiroidismo e hipertiroidismo. Mesmo nos casos de nódulos da tiroide, que também são mais frequentes nas mulheres, é fundamental fazer o adequado acompanhamento para assegurar que não estamos perante doença maligna. A verdade é que a taxa de sucesso na cura do cancro da tiroide ronda os 95%, o que demonstra que vale a pena investir no diagnóstico. 

JM | Qual pode ser o papel do médico de família para o diagnóstico destas patologias? JJC | Os colegas da MGF são a grande força da primeira linha do combate às grandes doenças endócrinas, como é o caso da diabetes e da tiroide. Como tal, é fundamental estarmos de braço dado. Aliás, os médicos de família sabem que podem contar com os endocrinologistas, com a SPEDM, a bem das doenças da tiroide, de Portugal e dos portugueses.  

“SE O HIPOTIROIDISMO NÃO FOR TRATADO, ESTE PODE SER CAUSA DE INFERTILIDADE” 

JM | Falou há pouco da gravidez… Como pode o hipotiroidismo afetar a mulher em idade fértil e a pensar em engravidar? 

JJC | É importante salientar que se o hipotiroidismo não for tratado, este pode ser causa de infertilidade e, por outro lado, que se este estiver presente durante a gravidez pode também aumentar o insucesso da gravidez. E, por isso, é fundamental o ajuste das doses. Ou seja, quem tem hipotiroidismo não tem nenhum problema em engravidar, desde que seja acompanhado pelo endocrinologista e pelo obstetra e adequadamente monitorizado, fazendo os ajustes de terapêutica necessários. Aliás, durante a gravidez as necessidades em hormona tiroide são maiores, e portanto, quem não tem tiroide ou se esta não funciona bem, é fundamental ter o cuida do de ir ajustando e de ir aumentando essas doses, para não prejudicar nem a mãe nem o bebé. 

JM | E relativamente ao iodo, qual o seu papel? JJC | O iodo é fundamental, principalmente na mulher grávida. Como se sabe, este é o principal combustível para a produção das hormonas tiroideias, e quando a mulher engravida é essencial que esta tenha uma adequada suplementação de iodo, pois sabemos que as necessidades de hormonas tiroideias vão estar aumentadas nessa fase. A esse propósito, há uns anos que a SPEDM, em colaboração com outras entidades, realizou um estudo que verificou que as grávidas portuguesas tinham uma grande carência de iodo. Como resultado, e de braço dado com a Direção-Geral da Saúde, foi criada uma orientação para que na pré-gravidez, na gravidez e no aleitamento fosse feita a suplementação com iodeto de potássio. 

JM | Quais as mais recentes evoluções terapêuticas no campo das disfunções da tiroide? JJC | A grande evolução no tratamento do hipotiroidismo tem sido a preocupação em administrar as doses rigorosas. Ou seja, quando comecei a ser endocrinologista, há 30 anos, só tínhamos uma dose de 100 microgramas que tínhamos de adaptar conforme os casos, dar dia si dia não, dar toda, só um quarto, metade…. Agora, temos 11 doses diferentes com comprimidos repartíveis. Por isso, a nossa preocupação é sobretudo no sentido do rigor, pois sabemos como é importante tratar com rigor e garantir que os doentes estão devidamente compensados.  

JM | O que melhorou no âmbito do diagnóstico e tratamento das doenças da tiroide e o que ainda falta fazer?  

JJC | Acho que é uma área em que existem melhorias. Atualmente, há mais conhecimento, mais divulgação e tem havido mais diferenciação em Endocrinologia nas doenças da tiroide. Essa é, aliás, uma preocupação da SPEDM, partilhar conhecimentos na área da tiroide com os seus colegas da Medicina In terna, MGF e de outras especialidades. Temos tido uma preocupação enorme em divulgar as doenças da tiroide também junto da população e das autoridades de saúde, no sentido de promover o reconhecimento da endocrinologia como uma especialidade que é fundamental nos hospitais. A verdade é que as doenças endócrinas incluem desde as doenças mais raras, da hipófise, da suprarrenal, a três grandes grupos de doenças muito frequentes que são a obesidade, a diabetes e as doenças da tiroide. E, portanto, defendo que um dos investimentos que deve ser feito é a criação de equipas hospitalares de Endocrinologia. Depois, é uma área em que a investigação também é apaixonante e com um espaço brutal para fazer investigação clínica.  

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Editorial | Jornal Médico
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