Joaquim Ferreira: Parkinson, a doença começa antes do tremor
DATA
11/04/2022 11:00:53
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Jornal Médico
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Joaquim Ferreira: Parkinson, a doença começa antes do tremor

Assinala-se hoje, 11 de abril, o Dia Mundial da Doença de Parkinson.O Jornal Médico conversou com Joaquim Ferreira, neurologista especialista na área de Doenças do Movimento e Diretor Clínico do Campus Neurológico Sénior (CNS). O especialista valorizou a ação da Medicina Geral e Familiar (MGF) no diagnóstico destes doentes, devido às manifestações da doença menos conhecidas e que surgem antes do trermor.

Jornal Médico (JM) | A 11 de abril assinala-se o Dia Mundial da Doença de Parkinson. O que é importante saber sobre esta doença neurológica?

Joaquim Ferreira (JF) | O aspeto mais importante é que não é uma doença rara. É uma doença frequente, neurológica, primariamente cerebral que afeta muitas pessoas, e o fator de risco principal é a idade. Significa que a maior parte dos doentes tem, em geral, mais de 55 anos, e sabemos que à medida que a idade avança a probabilidade de se desenvolver a doença de Parkinson (DP) é maior. O outro elemento que sabemos é que, nos próximos anos, o número de pessoas com DP irá aumentar e todos os estudos epidemiológicos preveem que vá acontecer nas próximas três décadas. Devemos aproveitar o dia 11 de abril para meditarmos sobre a melhor forma de cuidarmos desta comunidade, dos familiares e dos cuidadores.

JM | Quais os sintomas motores e não motores que têm mais impacto na qualidade de vida do doente?

Joaquim Ferreira (JF) | A doença acaba por ser conhecida pelo tremor, e embora seja o elemento mais visível, não é o mais incapacitante. Os aspetos relacionados com a alteração da marcha, as alterações cognitivas, de comportamento, da voz, da deglutição e a perda de autonomia associada é o que mais contribui para a incapacidade. São estes fatores que mais contribuem para a perda de qualidade de vida dos doentes, e que mais sobrecarregam quem, nas fases mais avançadas, acaba por cuidar destes doentes.

JM | Quais os sinais a que os especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF) devem estar atentos no diagnóstico atempado e adequado destes doentes?

Joaquim Ferreira (JF) | No diagnóstico inicial, os médicos de MGF têm um papel fundamental porque são eles que seguem estes doentes. Os sintomas de alerta passam por uma lentificação motora, uma alteração da escrita (ao notarem que a letra diminui de tamanho), um tremor, a assimetria entre os lados do corpo, ou o doente referir que começou a arrastar uma perna ou que balanceia menos um braço.

Há um conjunto de sinais de alerta que não são tão fáceis de diagnosticar, mas, se presentes, devem ser valorizados porque dão um reforço adicional a esta hipótese, nomeadamente uma diminuição do olfato, a obstipação, sonhos vividos com conteúdos em geral muito agressivos, falarem durante a noite e, inclusive, comportamentos violentes com o(a) parceiro(a). Estes sintomas podem começar anos antes da lentificação motora e do tremor.

Se um médico de MGF reparar que o doente apresenta estes sinais, deve levar a que esta hipótese seja considerada, e se houver um fácil acesso a uma consulta de Neurologia são doentes que devem ser referenciados.

JM | Por norma, quantos anos demora a doença a manifestar-se?

Joaquim Ferreira (JF) | Se o doente já apresentar esta lentificação motora ou o tremor, já tem a doença. Pode não estar diagnosticado, mas a doença já existe.

Os sinais da obstipação, perda do olfato e os sonhos vividos não permitem por si só realizar o diagnóstico. O intervalo de tempo entre os sinais e o diagnóstico da doença pode ser de 30 a 40 anos. Isto prova que a doença não começa no momento em que o tremor aparece. É um conhecimento relativamente recente, mas podemos estar a falar de décadas e não de anos.

JM | Qual a preponderância genética na doença?

Joaquim Ferreira (JF) | A doença não é de transmissão genética, mas como em quase todas as doenças há exceções. Há um pequeno número de doentes [5%] em que é possível encontrar uma alteração genética, portanto existe um risco maior de desenvolver a doença nas famílias que têm essa alteração, mas é uma minoria.

Alguns medicamentos, ainda em fase experimental, estão a ser testados neste pequeno grupo de doentes com essa alteração genética, na esperança de, em caso de sucesso, poderem ser testados e, idealmente, serem eficazes nos outros doentes. É por isso que este grupo é tão importante.

JM | Qual o impacto da pandemia na referenciação dos doentes para os tratamentos?

Joaquim Ferreira (JF) | O impacto da pandemia foi a vários níveis. Primeiro os doentes deixaram de ter acesso às consultas regulares. A outra consequência foi a da imobilidade, ou seja, deixaram de sair de casa, deixaram de se mexer. Hoje sabemos que, cada vez mais, o componente da atividade física é importante e acaba por condicionar o agravamento das queixas.

Outro aspeto que também condicionou foi a diminuição do acesso aos outros profissionais de saúde, aos terapeutas [fisioterapia e terapia da fala], que têm uma grande importância no acompanhamento e tratamento destes doentes. Globalmente, a impressão dos médicos e dos profissionais de saúde que acompanham estes doentes é que houve um agravamento do estado de saúde.

Se falamos de uma limitação do acesso às consultas regulares, mais grave se sucedeu em relação às terapêuticas invasivas, como o tratamento de cirurgia de estimulação cerebral profunda, a levodopa intrajejunal, ou a apomorfina. Infelizmente, mesmo nesta fase em que estamos a suavizar todas estas limitações, o que está a acontecer é que as listas de espera para estes tratamentos aumentaram imenso. Se já era difícil colocar estes doentes a fazer este tipo de tratamentos, neste momento o acesso e os tempos até à sua concretização aumentaram muito.

No que diz respeito à cirurgia, os blocos operatórios foram encerrados. Todas as cirurgias não urgentes foram suspensas e, obviamente, o tratamento da DP não é uma terapia urgente, e nesse sentido foi passada para trás pelas razões óbvias.

JM | Qual o impacto económico desta doença para o Serviço Nacional de Saúde?

Joaquim Ferreira (JF) | Apesar de a DP ser uma doença frequente, os tratamentos que são disponibilizados não são particularmente onerosos quando comparados com outras doenças em que as terapêuticas disponibilizadas são bastante mais caras. O impacto económico da DP não é particularmente relevante quer comparado com outras doenças neurológicas que utilizam fármacos mais caros, quer com um conjunto de terapêuticas inovadoras que estão disponíveis em outras doenças que não nesta. Diria que o impacto económico da DP, comparativamente com outras patologias não é significativo. No entanto, a DP beneficiaria de um investimento bastante maior.

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Editorial | Jornal Médico
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