António Morais: “É urgente libertar os médicos de família para situações mais complexas”
DATA
04/03/2022 09:45:59
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Jornal Médico
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António Morais: “É urgente libertar os médicos de família para situações mais complexas”

“A pandemia afetou claramente o diagnóstico atempado das doenças respiratórias”, lamenta o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), António Morais, em entrevista ao Jornal Médico. Segundo o dirigente, embora as situações de crise justifiquem a mobilização de recursos, “isso não significa que nos demitamos de melhorar este panorama”, defendendo que “as pessoas têm de continuar a ter acesso ao seu centro de saúde, evitando consequências muito sérias e graves”.

Jornal Médico (JM) | Apesar de a COVID-19 ser “o assunto” da ordem do dia e motivo de preocupação e atuação por parte das entidades governamentais, o mais recente relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR) revelou que as doenças respiratórias não COVID mataram 36 pessoas por dia em 2019. O que pode justificar estes números e como se pode inverter esta tendência?

António Morais (AM) | São números que vêm confirmar a tendência dos últimos anos, sendo que também já foram identificadas as principais causas subjacentes a esses números. De qualquer forma, realço que a pneumonia, o cancro do pulmão e a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) estão no Top Ten das causas por mortalidade e que, apesar de terem alguns aspetos em comum, têm outros aspetos específicos, merecendo, por isso, soluções também elas específicas.

JM | De que forma é que o contexto pandémico afetou os doentes com doença respiratória (sabemos que que estes doentes necessitam de cuidados regulares e continuados)? A SPP dispõe de alguns dados concretos sobre o assunto?

AM | É muito difícil as sociedades científicas conseguirem realizar estudos epidemiológicos, pois estes precisam de ser sustentados e com uma metodologia rigorosa. Na realidade, existem muitas barreiras, começando, desde logo, pelas autoridades, que não fornecem os números que necessitamos, para além dos constrangimentos em cada unidade hospitalar que constituem um obstáculo para um reconhecimento adequado do que pretendemos investigar. Exemplo disso foram os dados nacionais que surgiram relativamente aos doentes internados na primeira vaga da COVID-19 em que as doenças respiratórias crónicas e a sua gravidade não foram devidamente estratificadas. Quando o quisemos investigar, nunca nos foram fornecidos os dados pedidos, o que aliás aconteceu a várias instituições científicas e académicas. No entanto, têm sido publicadas várias notícias descrevendo uma diminuição significativa nos diagnósticos, nomeadamente no que concerne aos casos de cancro, o que é expectável. A mobilização de recursos humanos quer a nível dos cuidados de saúde primários (CSP) quer a nível hospitalar para a COVID-19 traduziu-se por uma maior dificuldade no acesso a esses mesmos cuidados por parte dos cidadãos, o que levou naturalmente a um atraso nos diagnósticos que foi, pela sua natureza, mais dramático nas doenças neoplásicas. Tal situação tem uma implicação significativa na terapêutica, podendo os doentes com atraso no diagnóstico de uma neoplasia pulmonar serem afastados da possibilidade de serem submetidos a terapêuticas potencialmente curativas, como a cirurgia, por apresentarem uma estadio avançado da sua doença.

JM | Entretanto, os doentes permanecem sem conseguir ter acesso aos cuidados de proximidade, pois sabemos que os CSP continuam com uma atividade muito reduzida...

AM | Sim, os CSP têm estado mobilizados no esforço de acompanhamento dos doentes infetados com COVID-19 e os contactos, como tal, continua a haver um déficit na abordagem à doença não COVID-19, sem que se veja uma solução à vista. O que tem sido feito é mitigar esta situação, nomeadamente com a redução da necessidade de isolamento e dos tempos de isolamento dos doentes COVID-19 e contactos. Sabemos que perante uma situação de crise precisamos de mobilizar os recursos para o combate à mesma, mas isso não pode significar que o nos demitamos de melhorar este panorama, nomeadamente numa situação de crise prolongada, pois as pessoas têm de continuar a ter acesso ao seu centro de saúde, evitando consequências muito sérias e graves.

“O ACOMPANHAMENTO DOS CASOS COVID-19 PODE PERFEITAMENTE SER REALIZADO POR OUTROS PROFISSIONAIS DE SAÚDE”

JM | O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar defendeu recentemente que já está na altura de serem outros profissionais (que não médicos) a fazer o seguimento dos doentes COVID, que até estão muitas vezes assintomáticos e sem necessidade de contacto permanente. Concorda com Nuno Jacinto?

AM | Concordo, até porque um dos nossos grandes problemas é ao nível da organização. Somos o segundo país da Europa com mais médicos por habitante e estamos sempre a dizer que temos falta de médicos... há qualquer coisa que não bate certo e obviamente que se trata de uma questão de organização. Por isso, penso que o acompanhamento dos casos de COVID-19, nomeadamente nos assintomáticos ou com sintomas ligeiros, pode perfeitamente ser realizado por outros profissionais de saúde, libertando os médicos de família para situações mais complexas. É uma medida que me parece não só adequada como urgente.

JM | De acordo com o Relatório do ONDR, as taxas de mortalidade por pneumonia em Portugal são das mais elevadas dos países da OCDE. Contudo, os especialistas também referem que isso é resultado de uma notificação que difere entre países. Há mesmo mais mortalidade por pneumonia em Portugal, ou não?

AM | É ainda uma dúvida, que tem sido bastante discutida, pois a causa de morte notificada pode não corresponder exatamente à verdadeira causalidade do falecimento. A SPP também tem contribuído para a análise desta situação, nomeadamente com um estudo que realizámos e que foi publicado há cerca de dois anos, e que aponta como sendo o principal problema a idade avançada associada à presença de comorbilidades. Efetivamente, temos uma esperança de vida média que é das maiores a nível mundial, mas associadamente temos uma elevada carga de doença. Isto é, as pessoas atingem idades avançadas, mas tem muitas doenças crónicas. Nestes doentes, um evento de uma infeção respiratória, e eventualmente uma pneumonia, pode ser o evento terminal de uma situação já muito instável. Por outro lado, nem todos os locais de internamento hospitalar ou institucional cumprem as condições adequadas para evitar uma contaminação, e quando estes doentes são internados por descompensação das suas doenças crónicas, acabam por ser vítimas de infeções nosocomiais que podem colocar a sua vida em risco.

JM | Que medidas ou ações para contrariar esta realidade a SPP pensa propor, ou já propôs, às entidades oficiais?

AM | Todos os anos organizamos uma reunião sobre pneumonia, muitas vezes em conjunto com outras sociedades – em 2021 associamos a Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear – no sentido de formar as pessoas nesse prisma. Quanto às medidas, estas não são fáceis de implementar, uma vez que passam pela mudança de hábitos de vida, de forma a evitar que as pessoas não cheguem tão doentes às idades mais avançadas. Temos lutado pela divulgação da importância de prevenir os fatores de risco respiratório, como o tabagismo e também a poluição. Na verdade, tudo isso tem sido objeto de aconselhamento e de luta pelas várias sociedades científicas. Também a manutenção de boas condições físicas do internamento é um combate diário de todos os médicos e trabalhadores da saúde, pois existem situações em que os doentes vão para um local que em vez de os proteger, os coloca em situações de risco aumentado de infeção nosocomial. Felizmente, que atualmente todos os hospitais têm comissões de infeção que trabalham de forma a mitigar estas situações e, de facto, nos últimos anos há uma maior sensibilização e uma maior organização de forma a intervir nesse sentido. Por fim, trabalhamos igualmente na questão da sensibilização e formação do médico para a forma como certifica e cataloga as causas de mortalidade, de forma a evitar erros.

CIGARROS ELETRÓNICOS: “ACHO CHOCANTE QUE O ESTADO PERMITA PUBLICITAR ESTE ENGANO GRAVE PARA A SAÚDE DAS PESSOAS”

JM | Uma das missões da SPP é “a intervenção pública na prevenção das doenças respiratórias, nomeadamente numa atitude intransigente contra o tabagismo, como um dos maiores causadores de doença nas sociedades modernas e na defesa de cuidados de saúde adequados quer no diagnóstico quer na terapêutica das doenças respiratórias”. Como tem corrido esta missão?

AM | Esta é uma tarefa hercúlea, mas é fundamental prosseguir de forma persistente, pois é crucial continuar a sensibilizar para o facto de o tabagismo ser a maior causa de doença e de mortalidade no mundo desenvolvido e, na área respiratória, ser causa de quase todas as doenças, da sua progressão e agudização. Em Portugal, apesar de termos tido uma diminuição no número de fumadores, observamos um reforço das formas alternativas, nomeadamente do tabaco aquecido e do cigarro eletrónico, que são publicitadas de forma massiva, vendendo a ilusão de que são alternativas saudáveis ao tabaco, o que é profundamente um erro. Existe um princípio muito simples que é a de que o pulmão está preparado para respirar ar puro e tudo o que for para além disso vai causar lesão. Adicionalmente existem relatos recorrentes e de evidência estabelecida de lesão pulmonar grave induzida por estas formas alternativas com base em nicotina. Acho chocante que o Estado não tenha atenção a esta situação, e que permita que este “engano” grave para a saúde das pessoas seja publicitado desta forma tão grotesca.

JM | Como avalia o papel dos especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) na referenciação, gestão e acompanhamento das doenças respiratórias e como tem sido a colaboração entre estes especialistas e a SPP?

AM | A colaboração entre os médicos de MGF e a SPP tem sido um dos objetivos mais importantes desta direção, pois considero que não conseguimos diagnosticar, tratar ou monitorizar bem as doenças respiratórias se não tivermos uma grande proximidade com a MGF. Contudo, e apesar de ter havido boas vontades e de se ter trabalhado em conjunto, esta colaboração neste momento não é claramente suficiente para tornar aquele objetivo uma realidade, pelo que desejamos manter e aprofundar um trabalho de proximidade e estreita colaboração em vários domínios das doenças respiratórias com a APMGF.

JM | E porque é que essa relação não é tão próxima quanto o desejável?

AM | Penso que se deve, essencialmente, a uma questão geográfica, ao facto de não trabalharem no mesmo espaço físico. A MGF está nos centros de saúde e as especialidades nos hospitais. Por isso, defendo que devem ser promovidas estratégias de proximidade, nomeadamente na mesma região geográfica, entre os médicos de MGF e os especialistas de cada área, tal é absolutamente crucial. Sem isso não é possível trabalhar de uma forma adequada. Há um grande trabalho em equipa que tem de ser feito, porque sabemos que estas duas abordagens se complementam e que para isso é necessário haver uma relação muito próxima e de colaboração permanente.

JM | Que projetos a SPP destaca em termos de formação e de investigação?

AM | Além da reunião magna da SPP, o Congresso Nacional, e dos vários eventos e formações sobre as várias áreas respiratórias que realizamos ao longo do ano, também estamos empenhados em chegar à população. Por isso, lançámos a campanha “DPO… quê?”, que chama a atenção para a DPOC, uma das doenças com maior mortalidade, mas que é desconhecida das pessoas. Esse é claramente um objetivo, que passa também por uma investigação epidemiológica ao nível nacional pois não sabemos ao certo qual a percentagem de doentes com DPOC – fazemos uma aproximação com a Europa – e, nomeadamente, quais são as diferenças regionais em termos da sua prevalência. Por fim, estamos igualmente comprometidos em informar a população dos perigos da poluição como um importante fator de risco para as doenças respiratórias e continuar a nossa intervenção nos países de língua portuguesa, no sentido de fomentar o apoio à formação e à promoção da saúde respiratória nesses países.

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Editorial | Jornal Médico
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