João Carlos Ribeiro: É “urgente a informatização da gestão da formação médica”
DATA
21/01/2022 09:40:56
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Jornal Médico
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João Carlos Ribeiro: É “urgente a informatização da gestão da formação médica”

Em entrevista ao Jornal Médico, João Carlos Ribeiro, presidente do Conselho Nacional do Internato Médico (CNIM), diz lamentar que a informatização da gestão da formação médica “esteja dependente da decisão política para avançar”, mostrando-se também preocupado, entre outros assuntos, com a “falta de condições estruturais que impedem uma melhor a formação e, mesmo, a abertura de novos locais”.

Jornal Médico (JM) | Como tem evoluído a qualidade da formação do Internato Médico de Medicina Geral e Familiar (MGF) ao longo dos últimos anos e qual tem sido o contributo do CNIM?

João Carlos Ribeiro (JCR) | Sem dúvida, que o percurso do Internato Médico em MGF tem tido uma espiral crescente de qualidade. A ligação entre o CNIM, os coordenadores de Internato de MGF e o Colégio da Especialidade de MGF da Ordem dos Médicos (OM) tem sido fantástica, o que tem permitido a implementação célere de algumas melhorias formativas importantes, como por exemplo a prova final teórica por exame nacional escrito. Todos os anos temos novas iniciativas que têm sido prontamente colocadas em prática. Entre os últimos projetos nacionais, que têm sido aplicados no internato de MGF, incluem-se, por exemplo, o novo programa de formação, publicado há dois anos, os critérios para atribuição de idoneidade formativa das instituições, os critérios para se poder ser considerado orientador de formação e responsável de estágio, ou a formação de formadores médicos, cujo impulso e disseminação nacional foi dada no retiro do CNIM, que se realizou a 23 e 24 de setembro passado, no Porto.

JM | Considera que existe alguma área formativa que deveria estar contemplada neste programa de MGF?

JCR | A proposta sobre quais os estágios que devem constar do programa de formação em MGF é da responsabilidade do Colégio de Especialidade de MGF e este Colégio é um dos mais atualizados e participativos. De qualquer forma, consideramos que existem várias áreas que poderiam estar contemplados no atual programa e que devido ao facto de este ter apenas quatro anos, não o estão. Por isso, ou se propõe aumentar o tempo formativo ou se retiram umas áreas para incluir estas novas áreas. Contudo, pensamos que programa é muito equilibrado, sem grande margem para reduzir, pelo que provavelmente a solução poderá passar por aumentar o tempo formativo e, assim, incorporar estas valências tão importantes para a formação de um médico de família.

O CNIM APOIA E TEM INCENTIVADO AO LONGO DOS ANOS A FORMAÇÃO DE COMUNIDADES FORMATIVAS

JM | Como olha o CNIM para a questão das comunidades formativas?

JCR | O CNIM apoia e tem incentivado ao longo dos anos a formação de comunidades formativas. Esse é um modelo aplicado desde há muitos anos em outras especialidades médicas e as vantagens educativas e formativas parecem-nos ser muito superiores às desvantagens. Aliás, algumas instituições de cuidados de saúde primários já o concretizam com grande sucesso. Por isso, neste momento, pensamos estarem reunidas as condições para essa mudança de paradigma na formação em MGF.

JM | O CNIM considera que existe alguma mudança necessária, importante ou urgente a implementar na atual formação especializada de MGF?

JCR | A atual formação especializada em MGF é muito bem cotada e comparável ao nível internacional. Mas penso que podemos sempre melhorar, quer no conteúdo, quer na gestão. Uma mudança urgente passa pela informatização da gestão da formação médica. Infelizmente, e apesar de se encontrar plasmada na lei, essa mudança não foi ainda concretizada. O CNIM realizou estudos piloto independentes, em vários locais do país, com resultados fantásticos, mas estamos dependentes do impulso e decisão política para avançar. A verdade é que, de uma forma muito clara, se o decisor político assim o decidir - e já estamos muito atrasados – é possível, em muito pouco tempo, melhorar muito a qualidade e aproveitar ao máximo a capacidade formativa do país (com mais e melhores médicos especialistas, incluindo médicos de família).

JM | Em geral, que medidas poderiam favorecer ainda mais a qualidade da formação médica em MGF?

JCR | Recuperando a ideia da urgente da necessidade de informatização do sistema, considero que essa é uma mudança que nos irá permitir ganhos de qualidade e quantidade muito importantes na formação médica e da MGF em geral. Parece um “Ovo de Colombo”, de tão óbvio que é. Na realidade, a informatização do sistema permitirá milhares de horas de trabalho poupadas, maior número de oportunidades de aprendizagem, melhor visão geral e local do SNS e maior número de médicos em formação. O senhor Secretário de Estado Adjunto e da Saúde tem sido um ativo impulsionador da medida que já está legislada e é consensual. Mas até ao momento o sistema não está concretizado…

JM | E como avalia o CNIM as condições estruturais para a formação dos internos de MGF?

JCR | Embora consideremos que as condições estruturais estão a melhorar com o surgimento das novas USF, desde há dois anos que temos denunciado fatores que limitam a abertura de determinadas vagas em MGF, como faltas de secretariado, computadores ou gabinetes de consulta. Estes são aspetos práticos estruturais que a serem resolvidos permitiriam obviamente melhorar a formação e, mesmo, abrir novos locais. Mas, infelizmente, são poucos os casos onde esses problemas foram resolvidos. Por exemplo, se um gabinete de trabalho tem espaço no máximo para três cadeiras, e há um especialista, um interno e o utente na sala, onde podemos colocar mais um médico interno? De facto, as estruturas físicas não estão suficientemente bem-adaptadas e limitam muito a capacidade. Por outro lado, se só existe um computador (muitas vezes antigo e desatualizado), só um médico pode prescrever ou tomar notas clínicas… São todos aspetos que limitam muito a capacidade formativa e mesmo assistencial da unidade de saúde. Adicionalmente, são várias as unidades de cuidados de saúde primários que não têm gabinetes para médicos internos. Isso significa que estes médicos autónomos só podem observar doentes no gabinete do seu orientador. Como podemos então ter três médicos internos por orientador quando as limitações físicas são óbvias?

Pensamos ser também fundamental conseguir manter os médicos de família formados no SNS, nomeadamente na região de Lisboa e Vale do Tejo. A pensar nisso, o CNIM já propôs iniciativas legislativas, baseadas no nosso conhecimento técnico, para contornar essa situação, mas até ao momento estas não avançaram. Na nossa opinião, é também fundamental a consolidação do Regulamento de Internato Médico (RIM), pois o atual parece uma manta de retalhos após ter sofrido várias atualizações ao longo dos anos. Felizmente, neste caso, o poder político deu-nos luz verde para avançarmos com um novo RIM, mais atual e consolidado, que permitirá melhorar a qualidade e quantidade de especialistas. O envolvimento da OM neste assunto é vital e acredito que as excelentes relações que todos partilhamos certamente irão facilitar esta medida com frutos proveitosos para a formação médica e para a população em última instância.

Por fim, pensamos que o Estado português necessita de promover uma estrutura de formação de formadores para os seus médicos. Todos reconhecemos que se formarmos melhor os nossos formadores, se lhes dermos condições de trabalho, teremos um Internato Médico e especialistas ainda com melhor qualidade e em mais quantidade. Posso adiantar que o CNIM já avançou com a montagem desse programa de formação de formadores, contribuindo para uma espiral positiva de conhecimento e aprendizagem, esperando que o mesmo possa ser estendido a muito breve prazo a todo o país.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.