Lèlita Santos: “A aproximação entre a Medicina Interna e a MGF é muito importante, em benefício do trabalho de ambas as especialidades e do próprio doente”
DATA
14/01/2022 09:48:14
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Jornal Médico
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Lèlita Santos: “A aproximação entre a Medicina Interna e a MGF é muito importante, em benefício do trabalho de ambas as especialidades e do próprio doente”

“Os especialistas de medicina interna e os de MGF já colaboram entre si e isso explica-se de uma forma muito simples, ou seja, de uma maneira geral os doentes são os mesmos”. Palavras de Lèlita Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que em entrevista ao Jornal Médico, falou sobre a relação entre a Medicina Interna e a Medicina Geral e Familiar.

Jornal Médico (JM) | Qual o retrato que faz da medicina interna em Portugal? Quais são os principais desafios que se avizinham nesta especialidade médica?

Lèlita Santos (LS) | A especialidade de Medicina Interna é uma especialidade em franca ascensão e cada vez mais reconhecida e necessária. A capacidade de visão integradora e global do internista é única entre as especialidades hospitalares. Isso permite que o especialista de Medicina Interna seja versátil e consiga gerir o percurso do doente em todas as vertentes, desde o Serviço de Urgência, ao Internamento em Enfermaria ou Unidades de Cuidados Intermédios ou mesmo Intensivos, em Consultadoria e Cogestão com outras especialidades, nas Consultas e no ambulatório na Hospitalização Domiciliária ou nos Cuidados Paliativos. Ninguém consegue imaginar um hospital sem Internistas.

O aspeto mais complicado para a Medicina Interna é, como em muitas outras especialidades, a falta de Recursos Humanos. Sendo a Medicina Interna uma especialidade tão abrangente e nuclear, é chamada para múltiplas tarefas assistenciais e de gestão que consomem os clínicos. Há necessidade de mais internistas se quisermos boa qualidade em saúde e um SNS sustentável. O futuro da realidade hospitalar é um desafio para o qual a Medicina Interna irá contribuir e passará pela existência de unidades geridas pela Medicina Interna, que trabalhará em conjunto com as restantes especialidades. Vai ser preciso saber gerir a eventual dispersão dos Internistas nas suas variadas atividades e, também, manter a sua principal característica do médico que escuta o doente, que faz um exame clínico minucioso, que junta o puzzle e diagnostica desde as patologias mais simples às mais complexas e difíceis.

JM | Considera que a união entre a Medicina Interna e a Medicina Geral e Familiar (MGF) é fundamental para a prestação de cuidados com qualidade?

LS | Na verdade, a aproximação entre a Medicina Interna e a MGF é muito importante, em benefício do trabalho de ambas as especialidades e do próprio doente, no qual devem estar centrados os cuidados de proximidade.

Fazendo jus à responsabilidade que detém a nível da integração e da proximidade, a SPMI iniciou, já em mandatos anteriores, um trabalho de articulação com a Medicina Geral e Familiar. No caso do doente com doença aguda, foi definido por ambos que a primeira abordagem de um doente deveria ser feita pelo médico de família ou, conforme a situação, em serviços de atendimento permanente em Cuidados de Saúde Primários. No caso do doente crónico, deveria existir uma gestão conjunta entre o médico de família e o médico hospitalar. Estes procedimentos já estão definidos em documento conjunto, no entanto, é preciso passar à prática, mas para isso, terá de haver envolvimento da tutela.

JM | De que modo deve ser feita a ligação entre os especialistas de medicina interna e os de MGF?

LS | Os especialistas de medicina interna e os de MGF já colaboram entre si e isso explica-se de uma forma muito simples, ou seja, de uma maneira geral os doentes são os mesmos. A diferença é apenas que o médico de MGF segue o doente crónico, inserido na sua comunidade e na sua família e conhece bem estes contextos. O médico de Medicina Interna tem o doente em situação de descompensação ou agudização da sua doença crónica em cenários complexos e pode também diagnosticar e tratar doenças agudas que surjam. O ideal seria que pudesse haver tempo e vias de comunicação mais facilitadas que permitissem a troca de informação e a discussão dos diagnósticos, da evolução clínica e dos tratamentos para ambulatório. Também a elaboração de projetos comuns poderia ser uma mais-valia na troca de experiências e na prática das competências de cada especialidade.

JM | Que importância assumem as parcerias da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna com outras sociedades, nomeadamente com a APMGF?

LS | As parcerias da SPMI com outras sociedades tem interesses comuns, permitindo reforçar sinergias em prol do melhor tratamento do doente. Quaisquer tipos de colaboração são importantes para facilitar a comunicação e os cuidados aos doentes. Seria de interesse mútuo e, sobretudo do doente que, por exemplo, os internos de MGF fizessem estágios hospitalares de Medicina Interna durante a sua formação. Isso sucedia antigamente e muitas sinergias se desenvolveram baseadas no relacionamento em equipa durante esses estágios, o que facilitava a proximidade entre as duas especialidades para o futuro, com grande benefício para as práticas médicas, os doentes e a comunidade. Por outro lado, a integração de internos de Medicina Interna na realidade da MGF também poderia ser interessante e enriquecedora.

A discussão de procedimentos para a transferência e a continuidade de cuidados entre as especialidades é, também, de toda a importância para um SNS mais ágil e modernizado.

JM | Quais são as atuais bandeiras da SPMI? Como tem agido junto da sociedade? Quais as iniciativas?

LS | A atual direção da SPMI tem o objetivo principal de continuar a desenvolver a sociedade e, em simultâneo, conseguir cada vez mais o reconhecimento da Medicina Interna como a especialidade hospitalar nuclear. Entre os principais desígnios, é de destacar a criação ou adaptação de recomendações clínicas para a população e para a própria especialidade, a criação de registos das patologias ou entidades clínicas mais frequentes em Medicina Interna, conhecer os diferentes serviços ou unidades, nacionais e internacionais, que garantam uma formação de qualidade em determinadas áreas específicas, sobretudo no interesse dos nossos Internos, o reforço da colaboração com outras sociedades científicas e associações, bem como com as associações de doentes.

Também é de grande interesse a proximidade com as instituições académicas através do nosso Centro de Ensino e Investigação em MI, pois consideramos que devem ser internistas os principais responsáveis pelas disciplinas abrangentes nas áreas da semiologia, do diagnóstico e das multimorbilidades nas Escolas Médicas, dado ser nesta especialidade e na de MGF que deve basear-se o ensino da Medicina. Igualmente, será importante a aposta na investigação clínica e translacional em Medicina Interna. Pondo em prática os nossos principais desígnios, nomeadamente, o reconhecimento da Medicina Interna, têm sido realizadas iniciativas de divulgação junto da população com a colaboração dos núcleos de estudo da SPMI, consistindo na a divulgação de orientações gerais, na realização de programas e filmes de esclarecimento sobre determinadas patologias ou assuntos em discussão na área da saúde, entre outras. Estas ações têm culminado na realização anual da Festa da Saúde que tem tido uma excelente adesão por parte da população e o reconhecimento da versatilidade da nossa especialidade.

JM | Enquanto presidente da SPMI, que cunho pessoal imprime nesta missão?

LS | A atual direção da SPMI é ambiciosa. Queremos uma Medicina Interna versátil, reconhecida como a especialidade nuclear no SNS e no hospital do futuro. Queremos ter um papel cada vez mais ativo e decisivo na realidade da saúde em Portugal. Para tal propomos formas de gestão hospitalar organizadas e centradas no doente com a Medicina Interna como o “maestro” do seu percurso num ambiente multidisciplinar. O nosso foco é o avanço para um sistema de saúde ágil e moderno. Esta é a marca da nossa missão.

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