Nuno Jacinto: “A pandemia vai mudar o paradigma do funcionamento dos cuidados de saúde em Portugal”
DATA
21/09/2021 13:29:59
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Jornal Médico
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Nuno Jacinto: “A pandemia vai mudar o paradigma do funcionamento dos cuidados de saúde em Portugal”

“Quando falamos em telemedicina, temos de ter logo a noção de que não falamos só de uma mera chamada telefónica, de um mero email — falamos mesmo de consultas estruturadas com os seus critérios, com os seus protocolos (…)”. Quem o diz é Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), que partilhou com o Jornal Médico a sua visão sobre a temática das tecnologias ao serviço da saúde, numa conversa em que deu nota da importância da criação de parcerias entre quem idealiza a formação e as sociedades científicas ou grupos científicos idóneos.

Jornal Médico (JM) | Pelos motivos por todos conhecidos, o calendário formativo, quer em congressos quer em cursos, ficou suspenso. Esta necessidade de reatar a formação médica trouxe para cima da mesa o e-learning. Para que áreas da Medicina considera prioritários o retomar da formação junto da MGF através desta opção?

Nuno Jacinto (NJ) | Na realidade, a formação em e-learning e através de webinars tem decorrido ao longo da pandemia. Logo após aqueles meses iniciais de adaptação, houve necessidade de avançar pela via digital, dado que a formação não podia parar, quer para os internos, quer para os médicos especialistas, todos nós precisávamos de manter o ritmo formativo. Não há propriamente uma área específica em que a opção digital se adeque mais ou que seja mais necessária do que outra, todas as áreas da Medicina Geral e Familiar [MGF], desde a diabetes, hipertensão, DPOC [doença pulmonar obstrutiva crónica], doença renal, tudo o que esteja relacionado com saúde infantil, tudo é passível de ser feito em formato e-learning. Claro que com as devidas adaptações e, portanto, não havendo uma área prioritária em concreto, o que há é a necessidade de manter a formação para a MGF, neste caso, e tentar aproveitar ao máximo os recursos de que dispomos. Nesta fase, continua a haver muita formação à distância, em e-learning, através de soluções interativas. E começa, também já, a programar-se alguma formação presencial ou, pelo menos, em modo híbrido, acreditando eu que este será uma alternativa que irá fazer caminho nos próximos anos. E se alguma coisa a pandemia nos trouxe de bom foi, precisamente, o aprofundar destas tecnologias.

JM | Quais os planos que a APMGF tem em mente para o desenvolvimento e formação nesta área? E de que forma irão concretizá-los?

(NJ) | Vamos continuar a apostar neste formato; já o fizemos no Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família, que foi totalmente online, fizemo-lo para as Escolas de Primavera, vamos fazer para as Escolas de Outono; e, no Encontro Nacional, a partir do lema “O Reencontro”, apostamos num modelo híbrido, quer com os preletores, os moderadores, os apresentadores, mas também alguns colegas a assistir presencialmente. Com a vantagem de, por esta via, podermos ter colegas à distância a participar no encontro. Essa vai ser a nossa aposta, continuar a aproveitar estas tecnologias e fornecer aos sócios formação de qualidade, feita com o cunho da APMGF, por médicos de família para médicos de família com o apoio de colegas de outras especialidades, quando necessário. Mas, em qualquer circunstância, recorrendo às novas soluções que a tecnologia digital nos oferece, e a APMGF está aberta a um futuro bem presente, aliás, como estão todas as associações e não poderia ser de outra forma.

JM | As mais valias da formação médica contínua em formato e-learning só fazem sentido com a garantia de qualidade e certificação. Neste contexto, como comenta a iniciativa Primary Care Summit (PCS) Academy, da Tecnimede, na qual a APMGF participa?

(NJ) | É muito importante criar esta parceria entre quem idealiza a formação, neste caso, foi um laboratório farmacêutico e sociedades científicas ou grupos científicos idóneos. A Tecnimede fez essa aposta e convidou várias sociedades a participar neste seu evento formativo que vai decorrer em vários módulos. E a APMGF está sempre disponível para colaborar em formação que seja de qualidade e que tenha como destinatários os médicos de família. Por isso, é com muito bons olhos que vemos projetos deste género de que temos a garantia de serem cientificamente robustos, com solidez de conteúdos, e sempre com o nosso acompanhamento. Com base nestes pressupostos, estas iniciativas merecerem a colocação do nosso estilo e da nossa imagem associada. Por outro lado, gostaria de assinalar que este é um formato diferente do habitual porque, além da característica e-learning e dos vários módulos disponíveis, não é frequente agregarmos a colaboração de várias sociedades, cada qual com o seu próprio módulo. Isso é muito positivo, conferindo um privilégio às associações e às sociedades científicas, sinal evidente de que se acredita no seu valor e no seu envolvimento na formação, numa lógica de trabalho em parceria com a indústria. Indústria esta que, obviamente, também investiu na formação médica, em Portugal, e há muitos anos que o faz. E é assim que as coisas têm de funcionar, em parceria e não em concorrência uns com os outros.

JM | Que áreas de formação considera importantes incluir para a MGF?

(NJ) | Considero importante também apostar em áreas não clínicas e a APMGF tem isso em agenda, ou seja, formação para a liderança, para os coordenadores, para as chefias intermédias a nível dos ACES [Agrupamentos de Centros de Saúde], a nível das ARS [Administrações Regionais de Saúde]. A ideia é falarmos sobre a contratualização, falarmos destes aspetos mais socioprofissionais em que a APMGF também tem um peso, falar da gestão do tempo da consulta, da lista de utentes e de como é que nos podemos adaptar, nesta altura de pandemia, não só a nível da nossa prática enquanto médicos de família individual, mas também enquanto unidades funcionais, USF [Unidades de Saúde Familiar] e UCSP [Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados] e de que modo é que se podem adaptar a este contexto pandémico. Há, na minha avaliação, uma área importante que não é tão falada, mas que tem de o ser: a gestão da prática com qualidade e segurança, fundamental nesta fase de transformação que vivemos e para a qual antevejo um papel central.

JM | No Primary Care Summit 2021, que debateu a “Tecnologia ao serviço da saúde”, foi abordado o desempenho dos profissionais de saúde na adaptação às novas modalidades de comunicação entre médico e doente. Quais as suas considerações sobre este desempenho?

(NJ) | Esta adaptação trouxe enormes desafios, a telemedicina não era algo que estivesse muito desenvolvido em Portugal como seria desejável, muito menos nos cuidados de saúde primários (CSP). Sucede que tivemos de fazer esta transição quase abrupta, deixando de ver os utentes no nosso gabinete, à nossa frente, e passámos a ter de os contactar de uma forma distinta, não presencial. Quando falamos em telemedicina, temos de ter logo a noção de que não falamos só de uma mera chamada telefónica, de um mero email — falamos mesmo de consultas estruturadas com os seus critérios, com os seus protocolos. Para isso, estamos neste esforço constante, em que a formação também nos dá um apoio para perceber como é que podemos fazer estas consultas, quando é que esta é a solução adequada. Esse conceito também é importante que passe no plano das ações formativas. Vejamos: a telemedicina não substitui nem de perto, nem de longe, a consulta presencial, a relação médico/doente, a consulta fisicamente presente. Dito isto, importa perceber quando é que podemos aplicar estas novas ferramentas, a partir do momento em que tenhamos os recursos necessários. E essa é outra grande limitação que ainda existe hoje em dia nos CSP, pois para fazermos telemedicina precisamos de equipamento adequado, quer nós, quer os próprios utentes. Se isso não existir nas unidades, ficamos muito limitados naquilo que é a nossa capacidade de atuação a este nível.

JM | A telemedicina foi considerada por muitos o garante do funcionamento do sistema para os doentes não-COVID. E as suas vantagens têm sido sublinhadas para os casos de monitorização, por exemplo. Considera que é este o ponto charneira da Medicina do futuro próximo? Que tipo de relação entre médico e doente se está a formar?

(NJ) | Pode efetivamente ser um ponto de viragem, isto era algo que já se tinha vindo a desenvolver, mas agora foi necessário dar-lhe novo impulso e acredito que a pandemia vai mudar o paradigma do funcionamento dos cuidados de saúde em Portugal. Lá está, não é um processo imediato, não é uma mudança que se faça de um momento para o outro. Vamos ter de definir bem, sobretudo nos doentes crónicos que precisam de vigilância, quando é que faz sentido a consulta à distância, mas uma verdadeira consulta, na plenitude da aplicação da telemedicina, e quando é que é necessário termos a sua presença física. Obviamente, essas duas realidades vão ter de coexistir, não podemos pensar que vamos só acompanhar os doentes à distância. Sejamos prudentes quando pensamos que, agora com a telemedicina, vamos acompanhar os doentes com maior frequência – não é isso. Nós temos de acompanhar os doentes e vigiá-los nas alturas certas e quando é necessário. E, com base nesse pressuposto, então sim – as novas ferramentas vão poder ajudar-nos.

JM | Em que ponto de situação se encontra a aplicação dos processos de telemedicina nos cuidados de saúde primários?

(NJ) | Esse é o ponto mais difícil. Na esmagadora maioria dos sítios não temos ainda o equipamento necessário, do mesmo modo que a maioria dos colegas também não terá tido formação nesta área. Acresce que para os utentes, estamos perante uma realidade ainda um pouco desconhecida, e muitos são os que, em todo o País, nem sempre têm o acesso facilitado à internet, a estas novas ferramentas, a equipamentos que permitam esta comunicação. Insisto neste ponto, não chega fazer um telefonema ou enviar um email; precisamos daquele contacto, de equipamento, de câmaras, de colunas, de monitores, precisamos de tudo isto; e depois, carecemos de plataformas fiáveis, de redes que suportem todo este tráfego de dados. Tudo isso tem de existir nas unidades, tem de estar disponível para os utentes. Esse, creio bem, será o grande desafio. Porque se vamos apostar efetivamente nesta área, há que capacitar profissionais, capacitar utentes e adquirir os meios necessários para que tal se torne realidade.

JM | Voltando agora o assunto para a temática da inteligência artificial (IA) aplicada à saúde. Em que áreas ou procedimentos da Medicina está mais expectante e/ou otimista quanto aos benefícios que a tecnologia possa trazer?

(NJ) | Identifico, à partida, duas grandes áreas. Na tal vigilância dos doentes crónicos, na sua monitorização à distância, temos a transmissão de dados biométricos para ir vigiando estes utentes de uma forma diferente, não já naquele formato tão rígido, na data e na hora específicas, pelo que considero a flexibilidade um ganho muito relevante. Depois, também, muito do que são os temas de apoio à decisão e de sistemas de informação médicos. E refiro-me a questões fundamentais, quando, tantas vezes, temos sistemas informáticos sem interligação, o que, convenhamos, não permite apoiar a decisão médica. Sobre os avanços proporcionados pela IA, é bom ter presente que os novos sistemas informáticos não vão substituir o médico – não vamos ter um robô a fazer a consulta… O ponto não é esse. A IA, na minha leitura, perfila-se como importante aliado no nosso desempenho, numa lógica de minimização do erro e da incerteza sempre inerente à medicina. Aí, sim. E Portugal tem de apanhar o comboio desse desenvolvimento tecnológico. Junto com o acesso a base de dados fidedignas, ter estes sistemas de apoio à decisão seria algo que certamente iria revolucionar a nossa medicina e, sobretudo, a MGF.

JM | Qual foi o impacto pandémico nos diagnósticos e processos de triagem nos cuidados primários?

(NJ) | O impacto é muito grande porque durante todos estes meses os CSP têm estado substancialmente ligados a tarefas relacionadas com a COVID-19. Resulta daí menos tempo para consultas presenciais e mais dificuldade em estar com os nossos utentes. Considero que a proporção e as consequências reais desse impacto só se vão perceber nos próximos anos; o que sabemos, até agora, é que há menos rastreios e menos diagnósticos efetuados em relação aos tempos pré-pandemia. É possível que venhamos a ter mais doentes descompensados e com complicações a médio prazo, vamos ter de analisar muito bem, estar preparados para tudo isso e para as implicações desses atrasos. Retomando o início da resposta, não conseguimos ainda ter números exatos do impacto, sendo certo também que temos muito menos consultas presenciais e muito mais contacto indireto. Só o tempo poderá clarificar as perdas e os ganhos em saúde, mas até lá, uma coisa é certa: esta pandemia ainda não terminou.

JM | Para concluir, ao nível dos recursos tecnológicos e humanos, como avalia as forças e as fraquezas da rede nacional de cuidados de saúde primários para uma melhor utilização das tecnologias em saúde?

(NJ) | Bem, forças da rede de cuidados de saúde primários a nível dos recursos humanos são óbvias, temos profissionais altamente dedicados, que colocam os utentes sempre em primeiro lugar, muito à frente daquilo que são os seus interesses pessoais com enorme sacrifício, têm acompanhado os utentes durante todo este tempo e, realmente, só não se consegue fazer mais porque somos todos humanos, com naturais limitações físicas e de horário que não nos permitem ter dias com 48 horas, nem estar em dois sítios ao mesmo tempo. Mas, sem qualquer dúvida, a enorme capacidade de superação é a força dos CSP. Relativamente às fraquezas, aí, curiosamente uma delas é a carência de recursos humanos porque, apesar de muito dedicados, acabamos por ser poucos. Depois, nas nossas unidades, temos as faltas de material, bem visíveis quando não temos impressoras suficientes para imprimir, quando não temos toner, quando não temos telefones a funcionar… É quase utópico pensar em telemedicina neste cenário. Tudo somado, há um caminho muito longo a percorrer. O que temos pela frente passa por resolver estas fraquezas, conseguir recursos – humanos, físicos, tecnológicos – para dar resposta também a este desafio da telemedicina e da aplicação de sistemas de informação mais evoluídos para os nossos cuidados aos doentes.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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