INSPIRO2 promove a recuperação respiratória dos doentes com sequelas pós-COVID-19
DATA
20/09/2021 09:34:49
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Jornal Médico
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INSPIRO2 promove a recuperação respiratória dos doentes com sequelas pós-COVID-19

A Associação INSPIRO2 nasceu em abril deste ano com o objetivo de recuperar as pessoas que ficaram com sequelas da COVID-19, através de um programa de fisioterapia cardiorrespiratória completamente gratuito, online. O Jornal Médico falou com o seu mentor, Miguel Toscano Rico, especialista em Medicina Interna com competência em Geriatria, que espera ter já no final do ano dados científicos sobre os resultados deste projeto inovador em Portugal.

“O nosso país está ainda a concentrar os seus esforços na luta contra a pandemia. Mas é igualmente urgente atender, de forma célere, aos milhares de pessoas que necessitam de uma intervenção terapêutica pós-COVID, ajustada e acompanhada”, começa por contextualizar Miguel Toscano Rico, que lembra que “muitas delas permanecem com falta de ar e cansaço e algumas limitações funcionais, pois o vírus afetou as vias respiratórias e pode deixar sequelas duradouras”. 

Foi no seio desta necessidade que Miguel Toscano Rico teve a ideia de criar a INSPIRO2, uma Associação que faz a ponte entre as pessoas que necessitam de reabilitação respiratória pós-COVID-19 e as escolas de fisioterapia, que ministram online e de forma gratuita um programa definido por fisioterapeutas em sessões de duas a três vezes por semana, com cerca de uma hora cada, para grupos de quatro a seis pessoas, durante oito semanas. “Toda a intervenção é desenhada, avaliada e realizada por fisioterapeutas da área de intervenção cardiorrespiratória, em colaboração com estudantes finalistas de Cursos de Licenciatura em Fisioterapia, sempre supervisionados por tutores”, observa. 

Mas, como “nada nasce sozinho”, a ideia de Miguel Toscano Rico só foi possível de concretizar, como conta, “graças ao apoio incansável da gestora Mariana Carreira, bem como de Patrícia Luz, educadora social, que em conjunto fundaram a INSPIRO2”.

“Doentes precisavam de praticar e doentes de reabilitar”

Assim, foi em fevereiro deste ano, no auge da terceira vaga da pandemia e em pleno confinamento, que o projeto começou a ser maturado, tendo sido formalizado mais tarde, em abril.  “Percebemos que se perspetivava um número grande de doentes a precisarem de fazer reabilitação e que não haveria locais presenciais onde pudessem recorrer devido ao confinamento. Por isso, considerámos importante aliar esta necessidade - e dar-lhes uma oportunidade de reabilitação online – à dos alunos dos cursos de fisioterapia, que também estavam confinados, sem conseguir ‘por as mãos’ nos doentes. Ou seja, uns precisavam de praticar e os outros de serem reabilitados. O que fez a Associação foi colmatar estas duas carências através da telerreabilitação”, explica o também assistente de Medicina Interna/Geriatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e coordenador da Clínica de Atendimento Pós-Covid e da Hospitalização Domiciliária do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central.

A Escola de Fisioterapia de Setúbal (Escola Superior de Ciências de Saúde – Instituto Politécnico de Setúbal) foi a primeira a aderir a este modelo de intervenção, que já conta atualmente com a participação de 11 das 19 escolas de fisioterapia do país. “Foi possível conseguir, entre as escolas, um encontro e um quórum de avaliações e de intervenções, de forma a tentar criar um modelo o mais homogéneo possível, até porque no final, com a autorização dos doentes, queremos publicar os resultados das intervenções”, adianta Miguel Toscano Rico, que não esconde o seu orgulho: “Melhoramos a saúde dos doentes, permitimos que os alunos das escolas aprendam e queremos produzir ciência numa doença que ainda temos tando para aprender.”

Paralelamente, juntaram-se também ao projeto algumas ONG na área da saúde e empresas para ajudar pro bono nas questões mais burocráticas, como consultoria, advocacia ou auditoria das contas. A Associação conta igualmente com o “importante” apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian.

Para participar, doentes precisam apenas de se inscrever na plataforma inspiro.pt

Os doentes interessados em participar no programa de reabilitação respiratória precisam apenas de se inscrever na plataforma inspiro.pt. Estes são posteriormente contactados para a uma avaliação inicial, que se prende essencialmente com o estado funcional e da doença para tentar discernir em que grupo faz sentido estarem incorporados, sendo também avaliados a meio e no final da intervenção. “Os doentes ficarão a perceber não apenas como é que se sentem, mas também, de uma forma quantificável, o quanto melhoraram”, sublinha Miguel Toscano Rico, que estende o convite aos médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) “no sentido de esta ser mais uma forma de encaminhar os seus doentes que precisem de reabilitação e de continuarem os esforços que têm tido no seu tratamento”.

“Não pretendemos substituir o modelo de relação face a face entre doente e terapeuta, mas sim colmatar as falhas que existem no acompanhamento destas pessoas que ficam com sequelas da COVID-19. E, de facto, este modelo de telerreabilitação tem sido, além de eficaz, relativamente simples de poderem aceder, pois é online, em grupo e de forma gratuita”, reforça o médico.

Até ao momento já participaram no programa cerca de 60 doentes, mas como conta o especialista em Medicina Interna, “temos uma bolsa grande de doentes também prestes a serem admitidos e o ‘boom’ acontecerá a partir do início de setembro”.

O feedback dos doentes que já terminaram o programa “tem sido muito positivo”, notando o responsável que, “apesar de este ser um modelo relativamente longo, são poucos os doentes que o abandonam”, até porque “além dos benefícios físicos, a fisioterapia respiratória permite também que os pacientes aliviem sintomas emocionais – como o medo, a ansiedade, a insónia e a solidão – que eventualmente terão surgido no âmbito da sua experiência de isolamento”.

O parecer positivo dos professores e alunos das escolas de fisioterapia é também “muito motivador” para continuar, observando Miguel Toscano Rico que “alguns ficaram surpreendidos com a gravidade de sintomas que muitos doentes apresentam apesar de terem tido infeções por COVID-19 consideradas ligeiras”.

Quanto à publicação de resultados científicos, o responsável adianta que é ambição “conseguir ter, no final do ano, uma publicação com os resultados desta intervenção com base num número robusto de doentes (cerca de 200)”. 

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