Carina Gaspar: “Prevenção e rastreio são as melhores armas contra o cancro do pulmão”

Um conjunto de questões suscitadas pelo Dia Mundial do Cancro do Pulmão, que se assinalou a 1 de agosto, levou o Jornal Médico ao encontro de Carina Gaspar, pneumologista no Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPO Lisboa) e representante do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão (GECP). A especialista alertou para a importância de estar atento aos sinais, recorrendo atempadamente aos exames de diagnóstico e estadiamento logo que existam sintomas suspeitos. Entre outras notas que ressaltam desta conversa, está o tabagismo, que continua a ser “responsável pela esmagadora maioria de casos de cancro do pulmão no mundo: cerca de 90%”.

Jornal Médico (JM) | Dia Mundial do Cancro do Pulmão. Que importância atribui à data de 1 de agosto e ao conjunto de iniciativas que sempre daí resultam?

Carina Gaspar (CG) | O cancro do pulmão é o cancro que mais mata no mundo inteiro, o que, por si só, justifica a relevância de assinalar esta data. Acresce que, sendo a maioria dos casos de cancro do pulmão devidos a um fator de risco evitável, o fumo do tabaco, esta é uma oportunidade de sensibilizar o público em geral para o problema, e promover estilos de vida saudáveis.

JM | Um bom prognóstico passa por um diagnóstico atempado e pelo início precoce do tratamento. Quais são os desafios nesse sentido?

CG | O principal desafio é que, por norma, os sintomas da doença só se manifestam quando esta já se encontra em estádio avançado. Por outro lado, os sintomas são muito inespecíficos, e podem ser difíceis de distinguir de outras patologias, como, por exemplo, a doença pulmonar obstrutiva crónica [DPOC], que muitas vezes coexiste num doente fumador.

JM | Porque motivo esta doença só se deteta, na maior parte dos casos, demasiado tarde? Já houve algum tipo de ganho a nível de diagnóstico?

CG | Sim, de facto, pelos motivos que acabei de referir, cerca de 70% dos casos de cancro do pulmão é diagnosticado já em estádio IV, quando já existem metástases, e a doença é incurável. É muito importante melhorar este cenário, através de acesso atempado aos exames de diagnóstico e estadiamento assim que existem sintomas suspeitos, mas também através do rastreio de indivíduos de risco assintomáticos. O rastreio do cancro do pulmão já tem provas dadas na redução de mortalidade, e são vários os países onde está a ser implementado.

JM | Quais os principais fatores de risco responsáveis pelo cancro do pulmão? Quais as diferenças significativas entre uma pessoa fumadora e uma não fumadora?

CG | O fumo do tabaco continua a ser responsável pela esmagadora maioria de casos de cancro do pulmão no mundo: cerca de 90%. É preciso lembrar que, apesar de o consumo do tabaco estar finalmente a reduzir nos países ocidentais, fruto das medidas antitabágicas que foram sendo implementadas nos últimos anos, a nível global a tendência ainda é de aumento, à custa dos países em vias de desenvolvimento. A principal diferença que existe no cancro do pulmão entre uma pessoa fumadora e não fumadora é que, no último caso, há maior probabilidade de existir uma mutação driver. Estes são habitualmente doentes mais jovens, mais frequentemente mulheres, e existe uma tendência a melhor prognóstico neste grupo.

JM | Muitos fumadores estão tentados a alterar o seu consumo para produtos de tabaco aquecido. Há alguma evidência científica de que estas novas opções reduzem o risco de cancro do pulmão?

CG | Não há nenhuma evidência, no momento atual, que nos permita afirmar que esses produtos são mais seguros do que o tabaco convencional, nomeadamente no que respeita ao risco de cancro do pulmão. Tal como aconteceu com o tabaco, só ao fim de várias décadas serão conhecidas as verdadeiras consequências do seu consumo. Mas existe já evidência em modelos animais de que existem substâncias nestes produtos com potencial carcinogénico. Por estes motivos, as principais entidades científicas são unânimes em desaconselhar o seu uso.

JM | O que poderá originar cancro do pulmão numa pessoa que nunca tenha fumado? Que outros fatores de risco existem?

CG | Existem, na realidade, outros fatores de risco para além de fumar, como a exposição passiva ao fumo do tabaco, exposição a amianto e radão, poluição atmosférica, radioterapia torácica prévia, o envelhecimento e fatores genéticos, entre outros.

JM | Que alimentação pode ajudar na contenção do risco e tratamento desta doença oncológica?

CG | A relação entre a alimentação e o risco de cancro do pulmão não está tão bem estabelecida, como, por exemplo, para o cancro do cólon. Sabe-se que dietas ricas em gorduras saturadas e alimentos processados, a obesidade e o sedentarismo aumentam o risco de cancro no geral. Por outro lado, uma dieta equilibrada e rica em vegetais e fruta, como é o caso da dieta mediterrânea, parece reduzir o risco. A alimentação durante o tratamento do cancro do pulmão suscita habitualmente muita preocupação entre os nossos doentes e as suas famílias. Antes de mais, é necessário clarificar que não há nenhuma evidência que determinado alimento ou suplemento vá alterar o prognóstico ou conduzir à cura, desde logo por estarmos numa área, como bem sabemos, onde existe muita desinformação. Recomendamos manter uma dieta equilibrada, rica em vegetais e proteínas, de forma a assegurar um peso adequado. Em muitos casos, o emagrecimento e a sarcopénia são um desafio, pelo que o seguimento por nutricionista é essencial.

JM| Qual o impacto da poluição ambiental no cancro do pulmão?

CG | Só recentemente a poluição ambiental foi reconhecida como causa de cancro do pulmão. O risco deve-se à existência de partículas nocivas no ar que derivam maioritariamente da combustão de combustíveis fósseis nos veículos motorizados e na indústria, e que se depositam nas vias aéreas, lesando o DNA celular. O impacto deste fator de risco é maior em países em vias de desenvolvimento, onde existe uma forte industrialização e cidades com elevados índices de poluição do ar, mas também é relevante na Europa. No Reino Unido, por exemplo, estima-se que seja responsável por um em cada dez casos de cancro do pulmão. Garantirmos a qualidade do ar das nossas cidades é, por isso, fundamental.

JM| Existem profissões mais expostas a esta patologia? E que fatores de risco estão identificados nesse universo?

CG | Profissões que envolvem exposição a amianto, radão, sílica, arsénio, entre outros produtos nocivos, podem envolver risco acrescido de cancro do pulmão. Alguns exemplos de grupos profissionais mais propensos são mineiros, trabalhadores da indústria naval, da construção civil, ou soldadores, mas a lista é bastante extensa. Também a exposição passiva ao fumo do tabaco em ambiente profissional, como no caso dos bartenders, acarreta risco. Felizmente, a legislação para proteger os trabalhadores tem vindo a melhorar.

JM | Refletindo sobre o futuro, qual é o seu prognóstico? Há esperança de vir a encontrar-se uma cura ou considera que este tipo de cancro tem tendência a aumentar?

CG | Apesar dos incríveis avanços terapêuticos a que temos assistido nos últimos anos neste e noutros tipos de doença oncológica, falar de “cura do cancro”, de uma forma genérica, ainda parece algo utópico. Isso deve-se à enorme capacidade de as células malignas se adaptarem e adquirirem resistência às diversas terapêuticas. Mas as inovações recentes neste domínio [terapêutico] têm nos permitido obter resultados, que há uma década eram inimagináveis, como por exemplo um doente em estádio IV ter uma resposta completa há já vários anos. Enquanto não podemos falar da cura da forma como gostaríamos, prevenção e rastreio são as melhores armas contra esta doença.

JM | Existe algum cancro do pulmão que seja curável?

CG | Os cancros do pulmão em estádios iniciais (I e II) são, na maior parte dos casos, candidatos a cirurgia, com boa possibilidade de cura. No estádio III, a cura também é possível num número significativo de casos, e a recente introdução da imunoterapia após quimioradioterapia neste estádio veio aumentar essa probabilidade.

JM | À parte da pandemia, houve algum tipo de avanço no diagnóstico precoce?

CG | O rastreio de indivíduos assintomáticos com fatores de risco é o avanço mais relevante na área do diagnóstico precoce. E são vários os países que estão neste momento a implementar programas de rastreio. Contudo, os desafios ainda são muitos, mesmo fora de um contexto de pandemia. A nível nacional, enquanto não tivermos um programa de rastreio, deve dar-se a maior celeridade possível ao processo de diagnóstico e referenciação perante um doente suspeito. Surgiram, nesse âmbito, alguns projetos de “via verde” do cancro do pulmão que se mostraram eficazes em diminuir esses tempos.

JM | Existem mutações moleculares ao nível do cancro do pulmão já identificadas e para as quais existe tratamento farmacológico. Da sua experiência, que desenvolvimentos gostaria de destacar neste capítulo?

CG | O campo das terapêuticas alvo dirigidas a mutações moleculares é uma área em que estão a ocorrer grandes avanços no cancro do pulmão. Até recentemente, eram quatro as mutações para as quais dispúnhamos de terapêuticas aprovadas: EGFR, que ocorre em cerca de 20% dos adenocarcinomas; ALK, em 3-5%; ROS e BRAF, em apenas cerca de 1% cada. Mas este cenário está rapidamente a alterar-se e há aprovações muito recentes noutros países para outras mutações, bem como numerosos ensaios clínicos a decorrer. Uma mutação de particular interesse é a do KRAS, que ocorre em cerca de 35% dos casos, e para a qual começam a surgir opções de terapêuticas alvo.

JM | O padrão do doente com cancro alterou-se?

CG | Sim, temos assistido a algumas mudanças de padrão ao longo dos anos. Uma delas é a maior proporção do tipo histológico adenocarcinoma, face ao escamoso e ao pequenas células, o que se deve à mudança da composição dos cigarros. Também temos maior proporção de mulheres, o que se deve à mudança de hábitos.

JM | Existe a “via verde” para doentes oncológicos. Como é que funciona atualmente, em tempos de COVID-19?

CG | A “via verde” consiste na definição de períodos de tempo considerados ideais entre os vários fluxos que os doentes têm de percorrer, e na articulação dos vários meios envolvidos, para garantir que esses tempos não são ultrapassados. A pandemia veio, como todos sabemos, trazer muitos constrangimentos ao diagnóstico atempado das doenças oncológicas, mas numa fase inicial. Nesta altura, tanto quanto sei, a maioria dos centros que trata cancro do pulmão já se reorganizou e estará a dar uma boa resposta.

JM |Graças à evolução do tratamento oncológico, hoje temos uma maior taxa de sobreviventes oncológicos. Qual o papel da Medicina Geral e Familiar no necessário acompanhamento e quais as sequelas mais desafiantes na gestão destes doentes?

CG | Esse é um ponto muito pertinente. De facto, os doentes com cancro do pulmão vivem cada vez mais tempo, e novos desafios se colocam por esse motivo. As novas terapêuticas têm efeitos adversos totalmente diferentes do que estávamos habituados a ver quando apenas tínhamos a quimioterapia ao nosso dispor; e, cada vez mais, iremos utilizar combinações, o que implica toxicidade acrescida. Faz todo o sentido que o médico de família — que também acompanha estes doentes — esteja informado das possíveis complicações destes novos fármacos, bem como das interações com outros medicamentos. Por outro lado, essa maior sobrevida implica que seja essencial que os doentes continuem a realizar todos os rastreios que são habitualmente realizados pelo médico de família, como por exemplo do cancro da mama ou da próstata, bem como o acompanhamento de doenças crónicas. Trabalharmos mais próximo dos cuidados de saúde primários é, mais do que nunca, uma necessidade.

Investir na Saúde é também investir na Formação
Editorial | Carlos Mestre
Investir na Saúde é também investir na Formação

Em março de 2021 existia em Portugal continental um total de 898.240 pessoas sem Médico de Família (MF) atribuído, ou seja, 8,7% da população não tem um acompanhamento regular com todas as medidas preventivas e curativas inerentes ao papel do especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF).

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