Dor Neuropática Localizada: porquê um tratamento tópico?
DATA
30/07/2021 09:24:17
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Jornal Médico
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Dor Neuropática Localizada: porquê um tratamento tópico?

O especialista em Medicina Geral e Familiar, na USF de S. João do Porto, médico na Clínica Geridoc, na Maia e especialista em Geriatria Clínica, Hugo Cordeiro, sinaliza notas relevantes do seu conhecimento sobre a dor neuropática localizada e da respetiva abordagem terapêutica. Releva, ainda, os sintomas típicos associados a esta patologia.

Jornal Médico (JM) | A dor neuropática localizada (DNL) é uma condição comum, mas frequentemente sub-diagnosticada na prática clínica. Que motivos poderão justificar o sub-diagnóstico?

Hugo Cordeiro (HC) | A DNL é altamente prevalente, representando cerca de 40% dos casos de dor neuropática, mas subsistem várias barreiras ao seu diagnóstico. Desde logo, da parte do doente, há dificuldade em perceber a dor neuropática como uma dor e uma doença em si, com necessidade e possibilidade de tratamento. Com efeito, os variadíssimos descritores usados para a sua caracterização evidenciam uma panóplia de apresentações e perceções que, por si, constituem uma barreira à sua valorização e diagnóstico. Acrescem a isso fatores culturais como uma certa vivência da dolência da doença, a inevitabilidade da dor com o avançar da idade e o medo e desconhecimento quanto ao seu tratamento. Também da parte dos profissionais de saúde, fruto de défices formativos ou de constrangimentos de tempo e organização de consultas, nem sempre é possível explorar e caracterizar detalhadamente a dor neuropática, o que contribui para o seu sub-diagnóstico, sub-tratamento e desnecessária perpetuação.

JM | Qual o impacto da DNL na qualidade de vida e funcionalidade dos doentes?

HC | Uma DNL, tal como outro tipo de dor sub-tratada, pode condicionar a pessoa, desde logo, no sono, repercutindo-se esse défice de descanso na sua saúde mental e física global. A pessoa com DNL sub-tratada está igualmente limitada na sua atividade profissional, na sua saúde sexual, nas atividades de lazer e até no tipo de vestuário que consegue usar. Está demonstrado que o sub-tratamento da dor acarreta enormíssimos custos sociais e económicos porque impede a pessoa de se desenvolver e viver no pleno das suas capacidades, desencadeando e exacerbando por causa disso várias outras queixas somáticas, sintomas depressivos e baixa produtividade laboral.

JM | Quais são os sinais e sintomas típicos aos quais deve o médico estar atento?

HC | Desde logo, a presença de um doente com certas comorbilidades ou em risco de as desenvolver, como sejam situações de imunossupressão, diabetes com vários anos de evolução, quimioterapia ou radioterapia, antecedentes de zona, história prévia de traumatismos ou cirurgias, deve alertar o clínico para a possibilidade de presença de dor neuropática. Aquando da identificação de fatores de risco para dor neuropática ou na sua suspeita, o clínico deve fazer uso de figuras, escalas e descritores que ajudem a pessoa a explicar o que sente, tais como “picadelas”, “formigueiros”, “choque”, “adormecimento”, “entorpecimento”, etc. Na presença de respostas positivas às questões referidas deve, de seguida, fazer-se uma caracterização rigorosa dos dermátomos envolvidos, eventualmente até para possível correção etiológica, e uma cuidada delimitação da área dolorosa envolvida. Importa, neste particular, salientar que o tratamento é tão mais eficaz quanto mais precocemente for instituído após o surgimento do problema de base que lhe deu origem, em especial, nas situações pós-cirúrgicas, nem sempre valorizadas.

JM | Na sua prática clínica, quais os desafios que encontra no diagnóstico e tratamento da DNL?

HC | Devo destacar, à partida, um significativo período de latência entre o surgimento do problema e o seu diagnóstico o que só por si, não inviabilizando, compromete algum do sucesso terapêutico. Depois, a dificuldade na adesão a medidas de estilo de vida e na compreensão da necessidade de adesão a um tratamento crónico e prolongado, cujo sucesso depende do cumprimento terapêutico e da gestão das suas expetativas. De igual modo, nem sempre é fácil garantir uma continuidade de cuidados, e a frequência de múltiplas consultas de diferentes especialidades contactando clínicos com formações e áreas de especialização diversas pode também constituir uma barreira a um racional de tratamento continuado.

JM | Que abordagem terapêutica poderá ser considerada neste tipo de dor com característica localizada?

HC | É importante explicar ao doente a causa da sua dor e as medidas não farmacológicas que deverá cumprir para o seu tratamento, salientando-se, neste aspeto, bom controlo metabólico e ponderal, práticas alimentares, de exercício físico, higiene, vestuário e cuidados cutâneos saudáveis, por forma a manter a melhor funcionalidade e qualidade de vida possíveis. Depois, é recomendável fazer uma gestão de expetativas, explicando ao doente que o tratamento de uma dor crónica é, também ele, crónico, com efeitos tão mais percetíveis quanto maior a adesão e o tempo decorrido desde o seu início. No sentido de evitar sobre-medicação e visando reduzir o risco de interações medicamentosas, particularmente em doentes não raras vezes polimedicados e sob fármacos de ação central, o tratamento de uma DNL deve ser preferencialmente feito, com terapêuticas tópicas. Temos ao dispor, em ambulatório, o emplastro medicamentoso de lidocaína — aprovado para a nevralgia pós-herpética — facilmente adaptável à área dolorosa e de ação prolongada, com elevada comodidade posológica ao permitir uma aplicação de apenas 12h/dia, por exemplo durante o sono do doente. Além de conferir uma sensação imediatamente agradável pelo caráter refrescante do hidrogel, existente na sua composição, quando usado de forma continuada a médio-longo prazo, contribui para um alívio significativo da dor. Em situações mais complexas, refratárias, está igualmente disponível, a nível hospitalar e sob supervisão, aplicação periódica de adesivos cutâneos de capsaicina, também eles úteis na modulação da perceção da DNL. Importa salientar que o tratamento tópico pode, em situações que assim o requeiram, ser complementado com fármacos sistémicos, com ação sinérgica.

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Editorial | Carlos Mestre
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