João Filipe Raposo: “Os cuidados de saúde primários são os mais importantes na gestão da diabetes”
DATA
07/05/2021 10:09:03
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Jornal Médico
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João Filipe Raposo: “Os cuidados de saúde primários são os mais importantes na gestão da diabetes”

Em entrevista ao Jornal Médico, no âmbito do 17.º Congresso Português de Diabetes, que decorreu em março, em formato virtual, o presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), João Filipe Raposo, abordou o atual panorama da diabetes em Portugal, falou das novas terapêuticas, que mudaram o paradigma de evolução para muitas complicações, do papel cuidados de saúde primários na gestão da diabetes e da diabetes em tempos de pandemia. No ano em que se assinala o centenário da insulina, sustentou que o caminho é o da personalização das terapêuticas, mas também do combate às determinantes sociais da doença.

Jornal Médico (JM) | Qual o papel da Sociedade Portuguesa de Diabetologia na partilha de conhecimento e disseminação de informação sobre a diabetes?

João Filipe Raposo | A Sociedade Portuguesa de Diabetologia tem estatutariamente uma função de promover o conhecimento e como é que isto se faz? Através da formação e a formação está associada à realização do congresso; também pensámos, e estava no nosso programa, realizar ações de formação específicas para grupos mais pequenos e temáticas e esperamos, neste ano 2021, já conseguirmos fazer uma Escola de Verão para profissionais mais novos nesta área, para que que possam, exatamente, tirar o benefício desta sociedade, deste ambiente multidisciplinar.

A sociedade está envolvida também na promoção de materiais educativos, em colaboração com os grupos de estudo, no desenvolvimento do site, no desenvolvimento de conhecimento através das redes sociais; portanto, temos aqui uma visão de conhecimento para profissionais, uma visão do conhecimento para a sociedade em geral, em que estão incluídas as pessoas com diabetes. Esta área é aquela que nós queremos desenvolver muito nestes três anos sociais, porque também pensamos que, cada vez mais, numa sociedade que quer dar maior poder aos cidadãos na sua gestão de saúde e doença, o conhecimento é fundamental e tem de ser transmitido. A SPD assume esse mesmo papel da transmissão do conhecimento, através do que hoje é mais fácil, nomeadamente os meios de comunicação tradicionais, mas também destes novos meios de comunicação.

A SPD tem também uma revista com uma longa tradição, que continua a receber artigos que refletem um pouco de tudo isto que a sociedade é.

Há uma outra área que a sociedade tem que é um exemplo praticamente único no país e provavelmente no mundo, que é o Observatório Nacional da Diabetes, que elabora um relatório sobre a diabetes, factos e números, um instrumento de trabalho valioso para as decisões de políticas de saúde em diabetes em Portugal.

JM | Sente que a área do conhecimento em diabetes tem sofrido um crescimento?

JFR | Isso acontece em muitas áreas da medicina, nas áreas da diabetes, claramente sim. Este crescimento é assimétrico, porque a diabetes representa um conjunto de doentes, tipicamente falamos em diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2, mas há muitos tipos da diabetes tipo 2 e, portanto, estaríamos a conhecer cada vez mais coisas em todo este processo, desde mecanismos da doença, mecanismo das complicações, introdução de big data na análise da evolução para as complicações e na caracterização de clusters dentro da diabetes, novas cascatas que permitem novos pontos para terapêuticas, a introdução da tecnologia em todos os níveis da terapêutica. Tem sido, realmente, algo fantástico de verificar. Como eu disse, isso significa um desafio imenso para toda a sociedade; por alguma razão, a diabetes é considerada uma pandemia e uma ameaça ao desenvolvimento económico e aos sistemas de saúde, porque, quando falamos de tudo isso, estamos a falar de custos maiores para uma elevada prevalência da doença, estamos a falar de muitas pessoas com tratamentos. Temos de dar os melhores tratamentos às pessoas e, provavelmente, as sociedades não vão ter recursos para tal, daí faltar a tal aposta na prevenção para tentar evitar este crescimento dos números. Todos nós percebemos, na pandemia [de Covid-19], quão importante é travar o crescimento dos números para poder tratar melhor quem fica doente. E é isto que ainda precisamos de desenvolver em Portugal.

JM | Sabemos que a pandemia tem perturbado o acompanhamento das pessoas com diabetes. A que nível?

JFR | Pensando nós que a maior parte das pessoas com diabetes é acompanhada em cuidados de saúde primários e uma parte menor nos cuidados hospitalares, e sabendo que houve uma perturbação no acesso às consultas físicas e que muitas delas foram transformadas, felizmente, de uma maneira que consideramos até com bastante sucesso, em consultas à distância, diria, portanto, que muitas pessoas conseguiram manter-se acompanhadas. E também se viu como é fundamental o reforço do papel da educação na diabetes, porque são pessoas que estão deviamente capacitadas para gerir a sua doença e conseguem fazê-lo neste tipo de ambiente. Na verdade, de uma maneira geral, ficámos satisfeitos com os resultados do apoio à maior parte das pessoas com diabetes, porque mesmo à distância com consultas telefónicas, com ou sem a utilização de tecnologia, conseguimos dar um apoio entre satisfatório e bom.

O que é que pode ter ficado com pior cobertura? Eventualmente, pessoas que vivem em maior isolamento, com maiores dificuldades no acompanhamento telefónico, pessoas que estão tradicionalmente pior compensadas, que fogem um bocadinho ao controlo tradicional e que podem não estar tão disponíveis para este apoio à distância, pessoas sem acesso à tecnologia. Portanto, temos de fazer um esforço nesta revisão do que vai ser a medicina no futuro, com apoio das teleconsultas, para ter a certeza de que não deixamos ninguém para trás. E há uma área que não conseguimos fazer à distância, que tem a ver com o rastreio das complicações da diabetes. Esse rastreio passa por uma avaliação global das pessoas em múltiplas dimensões, mas também pelo rastreio da retinopatia diabética, pela avaliação do pé e pela realização periódica de algumas análises ao sangue. Temos a noção de que, neste ano de pandemia, muitos desses exames de rastreio não foram realizados e, em consequência, ou temos um plano rápido de recuperação, ou poderemos ter daqui a algum tempo custos associados ao aparecimento de complicações. E quando falamos de custos, falamos de custos pessoais, dos custos familiares e dos custos para a sociedade.

JM | Quais são os principais desafios que se avizinham?

JFR | O principal desafio é o esforço de fazer o levantamento de quem, eventualmente, ficou para trás neste acompanhamento ao longo de um ano, no apoio de rotina. Retomar o mais rapidamente possível e intensificar o programa de rastreio das complicações e o consequente acompanhamento das complicações. E, finalmente, introduzir um programa de diagnóstico, que também sabemos que dos 60 mil casos que tradicionalmente eram diagnosticados, provavelmente teremos este ano de pandemia menos casos, porque houve menos pessoas a recorrer aos serviços de saúde e a fazer análises de rotina e teremos um número de diagnósticos mais baixo, o que significa que deixámos atrasar o diagnóstico de muitas pessoas.

JM | Novas terapêuticas têm sido progressivamente introduzidas no tratamento das pessoas com diabetes. Quais os ganhos em saúde associados?

JFR | As novas terapêuticas permitem, em primeiro lugar, pontos diferentes de ação em relação aos mecanismos conhecidos da doença. Há 100 anos, tivemos a insulina e sabemos bem o que representou na história da humanidade, depois tivemos o aparecimento dos antidiabéticos orais e também percebemos como isso contribuiu para uma melhoria significativa. Hoje em dia, temos mais classes terapêuticas, desde a absorção intestinal, às hormonas importadas pelo tubo digestivo, aquelas que atuam diretamente no pâncreas, no fígado, no rim, no sistema nervoso central. Este cenário permite caminhar para aquilo que nós gostaríamos de fazer, que são as terapêuticas individualizadas e personalizadas, ou seja, perceber melhor que mecanismos é que estão em causa em cada uma das pessoas que estão à nossa frente e adequar a terapêutica de modo a que seja mais segura, com menos riscos. Na realidade, é muito isto que as novas terapêuticas têm trazido. As novas terapêuticas, na verdade, não substituem as terapêuticas antigas, mas há lugar para todas. E acreditamos que, em Portugal, ainda venham mais novas terapêuticas. Temos terapêuticas que têm demonstrado fantásticos resultados de saúde na diminuição de mortalidade e de complicações cardíacas e renais, na diminuição do risco de hipoglicemias. Tem sido um sem fim de novidades que têm contribuído para que o país vá ter, a curto e a médio prazo, novos resultados naquilo que são os resultados de saúde em diabetes, nomeadamente nas complicações que levam à incapacidade ou à morte precoce das pessoas com diabetes.

JM | Os doentes portugueses têm acesso a estas novas terapêuticas?

JFR | Temos acesso a quase todas as terapêuticas e tecnologias, mas, muitas vezes com atrasos, que são mais ou menos significativos. É para essa situação que, enquanto sociedade científica, vamos chamando à atenção. Por exemplo, quando se está no congresso e quando falamos das novas terapêuticas é exatamente para demonstrar quais são as mais-valias e em que ponto é que estarão essas terapêuticas, na tentativa de ajudar as autoridades a perceberem que os profissionais são responsáveis e sabem utilizar as terapêuticas da forma adequada.

JM | Que papel desempenham os cuidados de saúde primários na gestão da diabetes?

JFR | Podemos dizer que são os mais importantes. Foi a organização de consultas do pé diabético, nos cuidados de saúde primários, que, provavelmente, mais contribuiu para a diminuição de amputações em Portugal. E a organização de espaços próprios da diabetes nos cuidados de saúde primários, com momentos próprios para o atendimento às pessoas com diabetes, permitiu um melhor processo de ensino dos doentes. São importantes na introdução da insulina, na promoção da atividade física e hoje são muitos os programas de promoção da atividade física que estão na alçada dos cuidados de saúde primários. Há um esforço de organização dos cuidados de saúde primários, que também é complementado com os cuidados hospitalares.

JM | Como encara o atual panorama na área da diabetes em Portugal? Estamos em linha com a realidade europeia?

JFR | Dentro da Europa, Portugal tem uma das maiores prevalências de diabetes e, portanto, aí não estamos claramente bem, porque precisamos de ter um programa específico para esta realidade. Na prestação de cuidados, estaremos provavelmente dentro da média europeia, teremos esta ferramenta do relatório da diabetes, que é um bom exemplo de como se pode monitorizar os resultados de saúde e que ser usado para muitos países e, portanto, temos modelos de prestação de cuidados que têm sido utilizados como modelo. Temos dos programas de diabetes mais antigos da Europa. Portanto, temos algumas coisas em que estamos melhor e outras em que estamos pior e é esse diagnóstico que é preciso ser feito. E a sociedade científica tem também o papel de apontar possíveis orientações estratégicas para que as autoridades competentes tomem decisões e nós cá estaremos para as acompanhar, criticar ou sugerir alternativas.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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