Manuel Branco Ferreira: A asma ainda não é percebida como uma doença crónica

Em entrevista ao Jornal Médico, a propósito do Dia Mundial da Asma, que se assinala esta terça-feira, 4 de maio, o presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), Manuel Branco Ferreira, dá conta de que a asma ainda é subdiagnosticada e desvalorizada enquanto doença crónica, subsistindo ideias erradas em relação à doença e ao respetivo tratamento.

Jornal Médico (JM) | Porque é que ainda é tão importante assinalar o Dia Mundial da Asma?

Manuel Branco Ferreira (MBF) | É importante assinalar este dia porque ainda existe um subdiagnóstico da patologia, apesar de ter uma prevalência relativamente importante, à volta de 7%. Por outro lado, é uma patologia em que, mesmo os casos que estão diagnosticados, muitas vezes não têm o controlo adequado, o que gera recursos ao serviço de urgência e gastos que poderiam ser evitados, bem como algumas mortes, que deveriam ser evitadas. Todos estes pontos justificam que se continue a assinalar o Dia Mundial da Asma para chamar a atenção para estes aspetos. Até há pouco tempo, o que estava registado em termos de consultas e de diagnósticos era à volta de 2,5% da população, quando nós temos 7% da população com asma; portanto, existe um subdiagnóstico que anda nos 30, 40%, que são os números de que a SPAIC já fala há muitos anos.

JM | Em que medida é que a prevalência em Portugal está alinhada com a média europeia?

MBF | Em Portugal, aponta-se para uma prevalência de 7%. Esses 7% foram determinados em 2012 num estudo que a SPAIC patrocinou, juntamente com a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) e com a Direção-Geral da Saúde (DGS), em que analisámos, numa amostra significativa e representativa por regiões e distritos, o número de doentes que referiam queixas compatíveis com o diagnóstico de asma, através de entrevistas por chamada telefónica. Neste estudo, que teve um trabalho estatístico exaustivo, chegou-se a uma prevalência de asma corrente, ou seja, asma atual, de 6,8% no continente, com algumas pequenas diferenças geográficas. Estamos mais ou menos a meio da tabela na Europa. Os países anglo saxónicos têm sempre prevalências superiores a 10%, como a Grã-Bretanha, Austrália, Estados Unidos. Na Europa, a maior parte dos países está situada naquela fasquia entre os 5 e os 10%, portanto estamos alinhados com a média europeia.

JM | Qual é o papel da SPAIC na sensibilização e promoção da informação sobre o tema?

MBF | A SPAIC é a principal sociedade científica nacional que se dedica à asma, e particularmente à asma alérgica que é a causa mais importante de asma. O papel da SPAIC é o papel de educação dos profissionais de saúde, alergologistas e outros, chamadas de atenção à população em geral, através de algumas ações, folhetos educativos, e por fim, a nossa presença nos media, para alertar para o tema. Às vezes fazemos alguma pressão em termos de entidades governamentais, em relação à disponibilização de medicamentos.

 

JM | E na formação a nível médico?

MBF | Como sociedade científica, a nossa ideia é uma informação médica pós-graduada, ou seja, na formação de internos de alergologia, na formação dos especialistas de alergologia e na formação de outros médicos com especialização noutras áreas. Também realizamos congressos que servem de atualização científica, sessões de formação dedicadas a um tema específico, dirigidas a médicos não especialistas, e também os cursos online que a SPAIC dispõe no seu site, sobre a asma grave, na vida real. Esses cursos são acessíveis a qualquer profissional de saúde que os queira fazer.

JM | O que é que origina os mitos/ conceitos errados a respeito da doença da asma?

MBF | Eu penso que acaba por ser a desinformação. Desde logo o seguinte: a asma é uma doença cíclica, tem fases em que a pessoa está muito bem e pensa que não tem a doença e depois tem fases em que a pessoa está pior e aí já se lembra. Para todos os efeitos, a asma ainda não entrou na cabeça das pessoas como uma doença crónica, que necessita de ser tratada cronicamente para evitar que progrida para fases mais irreversíveis. Há vários mitos: ninguém morre de asma. É mentira. Morrem 100 a 200 pessoas de asma por ano em Portugal. Também dizem que a asma é uma doença que vai desaparecer nas crianças, é mentira. Em mais de metade das crianças não desaparece. Há uma série de conceitos errados relativamente à benignidade, há uma excessiva confiança de que é uma doença benigna e que não tem problema nenhum e que vai desaparecer. E também há outra ideia errada em relação à corticoterapia inalada, que é muito perigosa, porque os corticoides fazem engordar, quando os corticoides inalados nas doses normais não têm efeitos secundários relevantes. Portanto, temos mitos em relação à doença, que é pouco grave, e mitos em relação a uma terapêutica que parece que é muito perigosa.

Tudo isto, conjugado, leva a que não se façam os tratamentos mais adequados, particularmente nas crianças, em que a intervenção atempada pode evitar que o pulmão fique “atrofiado”, ou seja, a inflamação que a asma provoca no pulmão da criança pode fazer com que o pulmão não atinja um desenvolvimento normal que uma criança sem asma teria. Uma criança com asma tratada pode ter um desenvolvimento tão normal como uma criança sem asma.

JM | Como é que pode existir uma melhoria relativamente à adesão da terapêutica?

MBF | Há várias estratégias: uma é a toma única diária, ou seja, diminuir a frequência das administrações, outra é a consciencialização do doente da gravidade da situação, e isto passa por uma consciencialização social de que a doença pode ser grave e há que ter algum cuidado, e uma outra é a consciencialização individual, que tem de ir sendo conseguida na relação médico-doente e no decurso do acompanhamento do doente. Também existe a discussão com o doente, quais são os seus objetivos. Por exemplo, num rendimento desportivo com o doente tratado VS com ele não tratado, é importante que ele perceba o impacto do tratamento numa coisa palpável do dia a dia e não só na prevenção, ou seja, mostrar que as metas estabelecidas são atingidas com a terapêutica. Atualmente, também existem as apps que dão reminders ou registam quando a pessoa toma a medicação. Também há estas tecnologias para crianças e adolescentes: a inclusão do ato médico num jogo. Por outro lado, os sistemas informáticos de prescrição eletrónica médica que permitem ver quando é que o doente comprou a última dose.

JM | Quais os principais desafios para as áreas da alergologia e imunologia clínica?

MBF | O primeiro desafio é o aumento da doença alérgica, da tendência errada do sistema imunitário para responder de uma forma alérgica a cada vez mais estímulos do meio ambiente. Outro desafio é o facto de a alergologia se poder pronunciar sobre os impactos climáticos em termos das doenças alérgicas, e lidar com o problema das alterações climáticas a nível das alergias. As épocas dos pólenes têm vindo a ter mais picos e a demorar mais tempo, portanto temos mais alergénios no ar. As casas têm, cada vez mais, ácaros e humidade. Em relação ao meio ambiente, além da questão da poluição, que irrita as vias aéreas respiratórias e que pode proporcionar alergias, existe o efeito das alterações climáticas nas exposições alergénicas, portanto é um desafio saber lidar com estes fatores. Depois, temos o desafio de tentar mudar esta forma de o organismo responder, e isso conseguimos fazer muitas vezes através das vacinas, tornando um doente que era alérgico e tinha sintomas no seu dia a dia num doente que continua a ser alérgico, mas com uma intensidade muito menor e que pode tolerar as exposições normais.

Outro desafio é que, desde 2011, as vacinas não são comparticipadas, enquanto antigamente eram em 50%. O desafio é explicar ao doente as vantagens e perceber se pode haver, ou não, capacidade económica para este tipo de tratamento. Esta seria uma prescrição que faríamos a muitos doentes, se fosse gratuita. Além disso, coloca-se o enorme conhecimento imunológico sempre em expansão, que é um desafio para o médico. E, por fim, é um desafio perceber como vamos fazer a integração dos novos fármacos que vêm surgindo. Tivemos até há quatro anos um biológico, que era o anticorpo Anti-IgE, principal mediador da doença alérgica, mas agora temos uma série deles e perspetivam-se nos próximos anos vários medicamentos biológicos com o target nesta área da imunologia.

JM | Qual é o papel da Medicina Geral e Familiar na identificação da doença e na gestão da mesma?

MBF | É um papel central. Absolutamente essencial. E a SPAIC reconhece essa centralidade inquestionável ao tentar capacitar ao máximo ou desenvolver as capacidades dos colegas de MGF em identificarem claramente esses doentes e fazerem a gestão dos doentes com formas ligeiras ou mais simples, mas que tem de ser identificados para depois serem tratados.

JM | Os especialistas em MGF estão capacitados para apoiar um doente com asma?

MBF | Na maior parte dos casos, sim. Para apoiar os doentes que têm formas ligeiras ou moderadas. Estas gerações novas estão muito capazes de tentar identificar e lidar com o problema, de uma forma geral.

JM | Qual o impacto da pandemia na prestação de cuidados aos doentes com asma?

MBF | Eu diria que temos impactos positivos e negativos. Positivos: doentes a cumprirem muito mais a terapêutica. Os doentes ouviram e aceitaram o conceito de que tínhamos de ter um doente com uma asma supercontrolada para que, caso contraísse a Covid-19, não corresse pior do que uma pessoa sem asma. Os doentes interiorizaram por receio. Outro aspeto foi a possibilidade de implementação de teleconsultas em vários casos de asmas controladas e estáveis, o que, provavelmente, nos ensinou que, em alguns casos, sem substituir a necessidade de termos de vez em quando algum contacto com o doente, a consulta não presencial poderá servir. Tínhamos também vários biológicos de administração subcutânea na parte abdominal e percebemos que podem ser aplicados no domicílio dos doentes. A pandemia veio abrir a porta para a autoadministração no domicílio para vários fármacos.

Em relação aos aspetos negativos, alguns doentes pioraram porque não foram vistos. Também houve o grande problema dos exames funcionais respiratórios, que praticamente deixaram de ser efetuados, e deixámos de ter a capacidade de contar com exames complementares que nos ajudassem. E agora, com a vacinação, as pessoas pensaram que era muito arriscado fazer a vacina, quando na realidade não existe um maior risco para os doentes com asma.

 

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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