Rui Costa: “É importante reforçar a vacinação contra a tosse convulsa nos doentes com DPOC”
DATA
30/04/2021 09:27:26
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Jornal Médico
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Rui Costa: “É importante reforçar a vacinação contra a tosse convulsa nos doentes com DPOC”

“Fazendo a prevenção é meio caminho para tentar darmos uma garantia acrescida a esse tipo de população de que pode ter uma longevidade e uma maior esperança de vida”. Quem o diz é o coordenador do Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias (GRESP) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Rui Costa, em entrevista ao Jornal Médico, a propósito do webinar “Tosse Convulsa em Pessoas com DPOC” organizado pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia, pelo GRESP e pela Associação RESPIRA, esta sexta-feira, 30 de abril.  

Jornal Médico | Por que motivo os médicos têm dificuldade em diagnosticar a tosse convulsa nos doentes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC)?

Rui Costa | Os médicos não têm dificuldade em diagnosticar a tosse convulsa. O que não se estava a fazer, porque não havia recomendações nesse sentido, era valorizar a prevenção com o reforço da vacinação nesta população, para que a mesma não venha a ter tosse convulsa e não venha a aumentar não só o risco de descompensação, como da doença pulmonar obstrutiva crónica de base ou aumentar o risco de hospitalização e mortalidade.

Basicamente, a importância está na prevenção, não está no diagnóstico; portanto, chegou-se à conclusão de que a população, em geral, e as pessoas que padecem de DPOC, em particular, estão mais suscetíveis a infeções, entre as quais a tosse convulsa. Como é uma doença que é prevenida pela vacinação, se for feito um reforço na vacinação nesta fase da vida vamos minimizar o risco de estas pessoas terem uma infeção por tosse convulsa e, como tal, haver uma mortalidade acrescida.

Se olharmos para Portugal, há um estudo que nos diz claramente que, na população com 65 ou mais anos, independentemente de ter DPOC ou não, a taxa de mortalidade quando padecem de uma infeção por tosse convulsa é de 7,4%. O que é que nós sabemos? Existem estudos que vieram confirmar que a DPOC acarreta um risco maior de sofrerem de tosse convulsa por comparação com o resto da população.  E, por isso, as recomendações mundiais foram alteradas.

JM | Qual a importância da prevenção da tosse convulsa nestes doentes?

RC | A prevenção nestes doentes é, no fundo, evitar que venham a ter uma agudização da doença pulmonar obstrutiva crónica por uma infeção por Bordetella pertussis [bactéria causadora da tosse convulsa], que, já de si, vai aumentar muito o risco de mortalidade destas pessoas. Isto não é só importante agora nesta população específica; por exemplo, chegou-se à conclusão de que é igualmente importante nas mulheres grávidas. Por isso, é que hoje em dia, no Plano Nacional de Vacinação (PNV) português, as mulheres grávidas também fazem uma administração desta vacina, para evitarem o risco acrescido.

JM | Quais as maiores complicações que estes doentes podem ter no caso de um diagnóstico tardio?

RC | A principal complicação que pode gerar nestes doentes é a broncopneumonia e a mortalidade que está associada, que é muito grande. Portanto, podemos dizer que esta taxa de mortalidade por tosse convulsa na população adulta é de 17,4%, no estudo de população adulta com mais de 65 anos.

O risco aqui, fundamentalmente, é o risco descompensação da doença de base: ao descompensar a doença de base, que é a DPOC, vai acelerar a perda da função pulmonar, vai levar à maior incapacidade dessas pessoas e, em última análise, pode levar à mortalidade. Portanto, a que essas pessoas deixem de privar uma vida como nós temos.

JM| Quais os benefícios que a vacinação contra a tosse convulsa pode trazer a estes doentes?  

RC | É, no fundo, prevenir que esta população que está mais frágil, mais vulnerável, venha a sofrer desta doença.

A vacinação é muito importante, cada vez mais é mais importante na população adulta, exatamente por esses motivos, por ser uma população que começa a ficar envelhecida e, como consequência, fica mais frágil e vulnerável a doenças infeciosas e são essas que na maior parte das vezes causam a mortalidade nesse tipo de população. Fazendo a prevenção é meio caminho para tentar darmos uma garantia acrescida a esse tipo de população de que pode ter uma longevidade e uma maior esperança de vida.

Nós sabemos que na DPOC a prevenção é importantíssima, porque a maior parte das agudizações da doença são provocadas por infeções respiratórias. Por isso, é que é importante fazer a prevenção da vacina antigripal, a prevenção como vacinação antipneumocócica.

Agora também veio este reforço através desta iniciativa global para o controlo da doença pulmonar obstrutiva crónica a nível mundial para se reforçar também a utilização desta vacinação nos doentes que têm DPOC e que não foram vacinados na adolescência. 

JM | Qual a prevalência da tosse convulsa (em geral)?

RC | Talvez cinco pessoas em 100. Não consigo dizer um número preciso. No fundo, o que nós sabemos é que, por exemplo, em todo o mundo, em média, pode representar 1% dos casos de infeções notificadas.

JM| Qual a incidência em doentes com DPOC?

RC | A incidência nesta população é claramente superior, porque esta população está mais vulnerável e tem um risco acrescido de vir a desenvolver tosse convulsa, relativamente à população que não tenha doença pulmonar obstrutiva crónica.

JM| Pelo facto de a vacina contra a tosse convulsa estar incluída no Plano Nacional de Vacinação, seria de esperar que o número de casos fosse mais baixo?

RC | Por isso mesmo é que ele é aparentemente baixo. Ao falar por exemplo em 1%, já é baixo. Contudo, de qualquer maneira, a taxa de mortalidade é elevada e nós sabemos que esta população está mais vulnerável, tem um risco maior; no fundo, vai acontecer com maior probabilidade esta infeção, como tal um desfecho negativo, com uma probabilidade também superior.

Esta é uma doença que, em termos mundiais, está controlada, porque na infância faz-se a vacinação da tosse convulsa e depois faz-se o reforço em todas as mulheres grávidas, isto em Portugal. E agora também se aconselha o reforço nesta população que tem doença pulmonar obstrutiva crónica, apesar de não ter uma elevada incidência, fruto da vacinação.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
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Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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