Javier Durán: “A chave da excelência em Medicina da Dor está na atenção primária”

Só com os cuidados de saúde primários “é que podemos melhorar o diagnóstico, acelerar o acesso a tratamentos mais diferenciados e melhorar os resultados terapêuticos” no âmbito da Medicina da Dor. São palavras do médico anestesista no Hospital Garcia de Orta e presidente da Associação para o Desenvolvimento da Terapia da Dor, Javier Durán, em entrevista ao Jornal Médico, no rescaldo de mais uma edição do Congresso ASTOR.

Jornal Médico (JM) | O que é que o congresso trouxe de novo para o desenvolvimento das terapêuticas da dor? 

Javier Durán (JD) | Este congresso é o produto de um novo desafio: reunir muitas das especialidades que lidam com doentes com dor crónica, para tirar o máximo partido de cada uma delas. Só ao falarmos todos a mesma língua poderemos encontrar as melhores respostas para os nossos doentes. Neste congresso, aprendemos todos, uns com os outros: neurocirurgião, enfermeiro, fisiatra, internista, anestesista ou psicólogo... Todos fazemos parte de uma solução conjunta.

JM | Considera que a pandemia transformou, de alguma forma, a aplicação das terapêuticas ou pode vir a transformar no futuro? 

JD | Sem dúvida que esta pandemia nos obrigou a mudar drasticamente a maneira de abordar os nossos doentes. As consultas telefónicas estão a ter um papel fundamental na atividade diária das unidades de dor, o que dista muito de dar uma adequada resposta às necessidades dos doentes. Mas, é provável que um número substancial das consultas no futuro, sobretudo as consultas de seguimento, venham a ser telefónicas, para facilitar a vida aos doentes, evitando deslocações desnecessárias, sempre mantendo a opção de solicitar uma consulta presencial quando for preciso uma reavaliação do exame físico. Em relação às terapêuticas específicas contra a dor, o que a pandemia trouxe foi uma travagem abrupta na evolução e no crescimento da Medicina da Dor. Todas as unidades sofreram uma limitação enorme dos recursos humanos, logísticos e técnicos.

JM | Na sua opinião, os cuidados de saúde primários têm conhecimento suficiente sobre os tratamentos disponíveis? 

JD | Claramente, a área da Medicina da Dor é uma autêntica desconhecida para uma parte muito significativa dos profissionais da área da saúde e isso não exclui os cuidados de saúde primários.  

JM | Há necessidade de formação em gestão da dor para os especialistas em Medicina Geral e Familiar?  

JD | De facto, estamos a promover essa formação constantemente e realizamos inúmeras formações, tanto fora, como dentro dos próprios centros de saúde. Queremos conseguir criar uma correta interligação entre estes e as unidades de dor. A chave da excelência em Medicina da Dor está na atenção primária. Só com eles é que podemos melhorar o diagnóstico, acelerar o acesso a tratamentos mais diferenciados e melhorar os resultados terapêuticos. 

JM | Como é que os doentes podem obter informação e aceder aos tratamentos da dor mais eficazmente? 

JD | Cada vez existe mais informação online sobre o tratamento da dor, a qual está acessível para todos. Mas, é importante que não se deixem enganar por falsos profetas, que aproveitam o desespero de quem sofre uma dor crónica. Nesse sentido, tanto a indústria farmacêutica como diversas sociedades científicas têm criado plataformas online para consulta de conceitos básicos dentro da área da Medicina da Dor. Nós próprios, no Centro Multidisciplinar da Dor do Hospital Garcia de Orta, facilitamos aos doentes conteúdos informativos, de forma a que sejam compreensíveis para todos, sem requerer formação prévia. 

JM | Com o desenvolvimento tecnológico, antecipa grandes inovações nas abordagens terapêuticas da dor? 

JD | Sim, sem dúvida. Mas, a grande limitação continua a ser económica. Alguns dos tratamentos mais inovadores são muito dispendiosos aos olhos dos doentes e das administrações. Quando falamos em procedimentos neuromoduladores, a nível medular ou de nervo periférico, cada implantação tem custos com cinco dígitos. Claro que o interessante é comparar esses valores com os custos gerados por um doente com dor neuropática severa por ano. 

JM | Quais são as diferenças mais importantes entre as terapêuticas para a dor aguda e para a dor crónica? 

JD | A dor aguda, geralmente, tem uma relação de proporcionalidade com a causa que a provocou: ao tratar a causa (reduzindo uma fratura, aliviando uma inflamação…) aliviamos a dor.  Em dor crónica, nada tem proporções lógicas e termina por provocar um sofrimento tão abrangente que consegue levar o individuo à extenuação, ficando sem capacidade de resposta, com uma catástrofe pessoal (familiar, laboral, económica, sexual) que faz com que a nossa atitude terapêutica seja completamente diferente. Para falar de tratamento da dor crónica temos de recorrer a palavras caras, como multidisciplinaridade (vários especialistas a trabalharem em conjunto), tratamentos multimodais (com recurso a múltiplas armas terapêuticas em simultâneo) e estratégias para trabalhar o aspeto bio-psico-social (através de terapias cognitivo-comportamentais, psicomotricidade, mindfulness) que, muitas vezes, acaba por ter mais relevo do que a própria região anatómica envolvida na dor. 

JM | Como vê a importância das terapêuticas alternativas em comparação com as terapêuticas que usam fármacos na gestão da dor? 

JD | Se nos referimos as terapêuticas não farmacológicas dentro da área da Medicina de Dor, só posso defendê-las e promovê-las como primeiro degrau no tratamento da dor crónica, o que, em muitos casos, evita ou minimiza o recurso a fármacos analgésicos. Estamos a falar de TENS, fisioterapia, exercício físico, diatermia, educação postural, ortóteses.

Se nos referimos a medicinas alternativas, então a minha opinião é muito firme. Não devemos oferecer tratamentos aos nossos doentes que não demonstraram ser seguros e eficazes, o que carateriza a todas as medicinas alternativas. 

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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