DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
DATA
17/06/2020 14:40:44
AUTOR
Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

Estamos a conseguir superar, até agora, a agressividade do vírus atrevido, cruel e teimoso que assolou Portugal, a Europa e mundo. Com o apoio baseado em equipas de saúde de proximidade e com medidas de segurança e proteção social foi possível fazer o seguimento dos doentes Covid-19 e vencer a pandemia com consequências aparentemente mínimas. Para ajudar a resolver o problema e a limitar a evolução da epidemia foi determinante, sem dúvida, a atitude responsável da comunidade ao aceitar o confinamento domiciliário e a seguir as orientações das autoridades de saúde.

A relação que mantemos com os nossos doentes e o conhecimento que temos da sua história clínica, assim como a personalização e continuidade de cuidados, têm permitido disponibilizar o melhor apoio no seguimento de mais de 90% dos doentes Covid-19. A relação médico-doente tem sido, mais uma vez, uma mais valia do médico de família e afirma-se inequivocamente como património da humanidade. Este património que é de todos terá que ser reconhecido com a devida justiça.

A emergência social e as vastas consequências da pandemia exigem um “DESconfinamento” com inovação e visão. Depois de um abril de emergência e um maio de calamidade poderemos evoluir para um verão de criação de um novo paradigma e recriar o centro de saúde. É necessário aproveitar o contexto para acertar novos conceitos e fazer evoluir a prestação de cuidados de saúde e o Serviço Nacional de Saúde. Parece ser necessário procurar uma visão nova que, fundamentada em novas tecnologias e em novos métodos de trabalho, possa fazer evoluções criteriosas. Nada vai ficar como dantes! Com todas as aprendizagens e disponibilidades dos últimos meses e com as estruturas criadas nos últimos anos poderemos evitar o “DISconfinamento”.

Com quase três meses de prática clínica em contexto diferente assumimos novos métodos de trabalho e tivemos oportunidade de superar dificuldades, ver as ineficiências e entender as insuficiências. Temos obrigação de acolher as inovações e as aprendizagens deste período. Está na hora de promover a partilha de boas práticas e avaliar resultados, assumindo a responsabilidade de fazer evoluir o nível de prestação de cuidados de saúde globais, de continuidade, personalizados e acessíveis. Os cuidados de saúde prestados pelo médico de famíla são centrados na pessoa, com todas as suas envolvências, assumindo-se a centralidade numa doença como episódica e transitória. Parece ser necessário “DESconfinar” o centro de saúde e voltarmos a centrar a nossa atenção na pessoa. Mas é absolutamente necessário evitar o “DISconfinamento”!

O “simplex na saúde”, em boa hora iniciado pelo ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes, é uma oportunidade para concretizar um novo paradigma na prática do dia a dia das nossas unidades de saúde. Poderemos pensar em novos circuitos, novas ferramentas, novos apoios, novas atitudes, novas necessidades. Talvez tenhamos que começar de baixo para cima, isto é, pensarmos nos atos desnecessários, contraditórios, ineficientes, prejudiciais, desatualizados, duvidosos – os “atos zero”. Está na hora de aproveitar o contexto e “arrumar a casa”. Será possível reportar os “atos zero” ao Gabinete esperando que cada um tenha uma resposta justificada e calendarizada?

Existem áreas importantes e prioritárias onde é necessário aumentar a capacidade de intervenção e a resolutividade: ações sem a presença do doente; resposta à doença aguda; cuidados de saúde dirigidos ao doente crónico; intervenções de rastreio nos vários formatos; e gestão da prática clínica. O desenvolvimento profissional contínuo e a partilha de conhecimento são áreas cada vez mais facilitadas pelo uso de dispositivos digitais e tecnologias de comunicação em boa hora disponibilizados pelo Ministério da Saúde nos ultimos anos. Juntos saberemos encontrar as melhores soluções e reinventar o centro de saúde em toda a sua plenitude e ligação comunitária, regressando à normalidade da vida quotidiana.

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas

Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

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