André Correia: “Há efetivamente muitos médicos que já incluem a tecnologia existente nas suas atividades”
DATA
08/11/2019 10:56:18
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Jornal Médico
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André Correia: “Há efetivamente muitos médicos que já incluem a tecnologia existente nas suas atividades”

A INOFARMA quer gerar uma discussão saudável sobre as oportunidades estratégicas e tecnológicas para posicionar Portugal como centro de excelência europeu, na área da saúde – o evento acontecerá no dia 14 de novembro, no Knowledge Center da NOVA School of Business and Economics. O Jornal Médico falou com um dos organizadores do evento e autor de Strategic Impact of IT Trends in the Pharmaceutical Industry, André Correia, sobre como preparar os médicos para a transformação tecnológica na saúde e para uma nova era digital.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Estão os médicos portugueses preparados para lidar com a tecnologia diariamente?

ANDRÉ CORREIA (AC) | Há efetivamente muitos médicos que já incluem a tecnologia existente nas suas atividades, e outros que ainda não. Lembre-se que a própria tecnologia, aquela que revolucionará a saúde como a conhecemos hoje, está também numa fase muito inicial, e requer não só literacia mas também uma mudança de atitude e agilidade.

É importante referir que, se adotada corretamente, a tecnologia trará ao médico ganhos, sobretudo a nível de precisão de diagnóstico e de produtividade. Atualmente, numa consulta, o médico recebe o paciente, analisa relatórios clínicos e toma decisões clínicas, ficando pouco tempo para a interação com o doente (ou, alternativamente, gera atrasos nas consultas subsequentes). Num cenário em que os resultados são analisados e relatórios produzidos em microssegundos por ferramentas de inteligência artificial (que aprendem com cada interação), permite ao médico ter melhor informação e passar mais tempo a interagir com o doente, tornando a consulta mais efetiva.

 

JM | Como se preparam os profissionais de saúde para isto?

AC | Esta é uma das perguntas fundamentais que levaremos a debate na conferência INOFARMA, quando se discutir a preparação dos profissionais de saúde para uma nova era digital.

As escolas e universidades têm um papel crítico e terão que abordar mais a parte tecnológica na formação base, mostrando os benefícios que traz para profissionais e para o cidadão. Igualmente, têm um grande impacto na oferta contínua de ensino que, por natureza da sua atividade, estes profissionais já procuram durante as suas carreiras.

As organizações e o local de trabalho influenciam também esta preparação. A informação a que agora terão de aceder é muito diferente e pode, por vezes, estar fora da sua zona de conforto. Para se prepararem para um futuro digital, os profissionais de saúde terão que aprender e interagir não só com outros profissionais de saúde, mas também com outras categorias profissionais como cientistas de dados, programadores, etc.

JM | A tecnologia em saúde não deveria ser mais abertamente trabalhada na formação médica para um resultado superior?

AC | Acredito que sim. A melhor forma de formar profissionais é rodeá-los de um ambiente que já por si é digital. De certa forma, já está a ser feito e terá que se intensificar no futuro. A Universidade de Medicina do Minho, da qual teremos a marcar presença Nuno Sousa, é um bom exemplo. É um polo de inovação por excelência integrado num meio de formação. Não só permite alavancar a tecnologia, mas como desperta curiosidade e desenvolve literacia digital logo na raiz da formação.

JM | Comparativamente com os outros países da Europa, como podemos caracterizar o desenvolvimento tecnológico de Portugal aplicado à área da saúde?

AC | Portugal está bastante avançado tecnologicamente, nomeadamente, ao nível de cobertura móvel e de banda larga de Internet, que é um aspecto crítico quando se fala de “saúde digital”. Por outro lado, é um país reconhecido pela qualidade de educação e profissionalismo que temos, e a sua dimensão é propícia para “testar” soluções inovadoras num ambiente relativamente controlado antes de as “exportar” para a Europa.

Há uma série de fatores críticos de sucesso que já existem, mas faltam, no entanto, mecanismos e incentivos que ponham Portugal na frente da Europa. E não pensamos apenas em subsídios, mas também na utilização de meios já existentes, como por exemplo a canalização de fundos de pensões, para áreas de inovação na saúde.

De referir também a necessidade de um maior alinhamento entre as entidades reguladoras e as diferente organizações que atuam neste setor. A inovação pode ser bloqueada pela rigidez da legislação em vigor que, em alguns casos, tem urgentemente de ser revista.

É precisamente este o foco do debate proposto no painel “Como tornar Portugal um Centro de Excelência Europeu na área de Digital Health?”.

 

JM | Como é que a INOFARMA pretende contribuir para que Portugal se transforme num Centro de Excelência Europeu na área do Digital Health?

AC | Portugal ainda tem um caminho a percorrer, mas tem potencial para ser um centro de excelência europeu em determinadas áreas.

A INOFARMA pretende contribuir promovendo um diálogo aberto entre os diversos stakeholders do setor, pois acreditamos que o sucesso coletivo está muito dependente da estratégia individual de cada um.  A INOFARMA pretende, através da conferência, criar um espaço de pensamento e debate sobre como chegar a este objetivo e, através do white paper, materializar as conclusões para que possam ser usadas neste alinhamento estratégico. Finalmente, ambicionamos estabelecer pontes para que a estratégia seja implementada.

Gostávamos que o white paper se tornasse um manifesto para colocar Portugal na área de digital health.

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