Tiago Torres: “A revolução terapêutica na psoríase nos últimos 20 anos foi impressionante!”
DATA
22/05/2019 09:30:54
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Jornal Médico
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Tiago Torres: “A revolução terapêutica na psoríase nos últimos 20 anos foi impressionante!”

Apesar da descoberta de uma cura “estar ainda distante, o futuro do tratamento da psoríase parece ser promissor”. Quem o afirma é o dermatologista do Centro Hospitalar Universitário do Porto, Tiago Torres, explicando que o aparecimento das terapêuticas biológicas alterou por completo o paradigma da abordagem da doença moderada-a-grave. Assim, a psoríase, “anteriormente vista como uma doença de muito difícil tratamento, tornou-se na patologia inflamatória crónica mais eficazmente tratada”.

JORNAL MÉDICO (JM) | Qual o estado da arte da atualidade terapêutica no que diz respeito à psoríase?

TIAGO TORRES (TT) | A revolução terapêutica ocorrida na psoríase nos últimos 20 anos foi impressionante. O aparecimento das terapêuticas biológicas alterou por completo o paradigma da abordagem da doença moderada-a-grave. A psoríase, anteriormente vista como uma doença de muito difícil tratamento, tornou-se na patologia inflamatória crónica mais eficazmente tratada em toda a Medicina.

Atualmente, os dermatologistas, e por consequência os doentes, têm ao seu dispor inúmeras terapêuticas extremamente eficazes e seguras, com diferentes mecanismos de ação e com várias opções intraclasses, permitindo tratar mesmo os casos mais complexos e difíceis. No entanto, apesar deste desenvolvimento, ainda existem doentes que não respondem, deixam de responder ou desenvolvem efeitos secundários a estas novas terapêuticas, levando à sua descontinuação, pelo que ainda existe espaço para o aparecimento de novos fármacos.

Por outro lado, as formas ligeiras e moderadas, sem indicação formal para terapêutica biológica, são atualmente o principal desafio para os clínicos, pelo que o desenvolvimento de terapêuticas tópicas ou orais mais eficazes e economicamente sustentáveis são extremamente necessárias.

JM | Quais os principais alvos da investigação na psoríase e que novos desenvolvimentos se podem esperar nos próximos anos?

TT | Nos últimos anos, a investigação fisiopatológica na psoríase mostrou claramente que o eixo IL-23/IL-17 é a principal via patogénica responsável pela doença, o que permitiu o desenvolvimento de fármacos extremamente eficazes que bloqueiam a IL-17A (secukinumab e ixekizumab), o recetor da IL-17 (brodalumab), e mais recentemente a IL-23 (guselkumab e risankizumab).

Contudo, outros agentes biológicos promissores estão em desenvolvimento. Os anticorpos biespecíficos (que inibem duas citocinas simultaneamente) são uma área de investigação de grande interesse e que potencialmente se poderão associar a um melhor controlo da doença. O bimekizumab, um inibidor biespecífico da IL-17A e IL-17F demostrou resultados muito promissores nos ensaios clínicos de fase II na psoríase e artrite psoriática, o que motivou o avanço no seu programa de desenvolvimento.

Também nas pequenas moléculas se esperam novidades no futuro. Após alguma desilusão com o inibidor da PDE4 apremilast (não aprovado em Portugal) ou os inibidores da JAK 1/2/3, tofacitinib e baricitinib (não aprovados pela EMA para o tratamento da psoríase), a atenção vira-se atualmente para o BMS-986165, um inibidor seletivo da TYK-2, que permite o bloqueio intracelular da sinalização da IL-12 e IL-23. Esta pequena molécula demostrou no ensaio clínico de fase II uma eficácia semelhante ao ustekinumab e um bom perfil de segurança, podendo tornar-se numa agradável surpresa na terapêutica oral da psoríase.

JM | Quais serão os maiores benefícios para os doentes?

TT | Não existindo ainda uma cura para a doença, o objetivo do tratamento passa por diminuir a sua atividade, controlando os seus sinais e sintomas, devolvendo a qualidade de vida perdida pela e permitindo uma atividade profissional, social e familiar indistinguível da população geral.  

As novas terapêuticas, essencialmente os inibidores seletivos da IL-23, da IL-17A e do recetor da IL-17, demostraram que este objetivo é alcançável, com mais de 70% dos doentes a atingirem respostas de resolução completa ou quase completa da lesões cutâneas, sem se associarem a efeitos secundários clinicamente preocupantes, o que naturalmente se associa a melhor qualidade de vida.

Assim, apesar da descoberta de uma cura estar ainda distante, o futuro do tratamento da psoríase parece ser promissor.

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Editorial | Jornal Médico
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