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Vasco Antunes Pereira: “Elevada maturidade tecnológica” permite aumento de qualidade e de segurança no Hospital de Cascais
DATA
28/02/2019 12:20:11
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Jornal Médico
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Vasco Antunes Pereira: “Elevada maturidade tecnológica” permite aumento de qualidade e de segurança no Hospital de Cascais

O Hospital de Cascais, que é gerido em regime de parceria público-privada (PPP) pelo Estado e pelo grupo Lusíadas Saúde, estará em destaque hoje num debate sobre Saúde, a decorrer no Reino Unido. O CEO do Grupo Lusíadas Saúde, Vasco Antunes Pereira, participará, no primeiro dia dos trabalhos – organizados pelo Nuffield Trust, um think tank britânico independente –, onde irá partilhar os fatores que contribuíram para que o Hospital de Cascais seja visto como um case study na área da tecnologia ao serviço do doente. Em entrevista ao Jornal Médico, o responsável explica a importância de estar presente na Health Policy Summit

JORNAL MÉDICO (JM) | Em que consiste a certificação tecnológica do HIMSS Analytics e o que representa este "selo de segurança" no contexto do Hospital de Cascais, do grupo Lusíadas Saúde e do sistema de saúde português?

VASCO ANTUNES PEREIRA (VAP) | O HIMSS é uma sociedade sem fins lucrativos norte-americana que se dedica à promoção da melhoria dos cuidados de saúde através do uso de tecnologia e de sistemas de informação. Ou seja, o objetivo do HIMSS é que toda a informação sobre um doente seja tratada de forma a potenciar a melhoria da qualidade na prestação de cuidados a esse doente.

Três dos nossos hospitais – nomeadamente, o Hospital Lusíadas Cascais, Lusíadas Lisboa e Lusíadas Porto – são reconhecidos pelo HIMSS Analytics como tendo elevado grau de maturidade tecnológica.

Enquanto os hospitais Lusíadas Porto e Lusíadas Lisboa estão no nível 6 – o segundo nível mais elevado, a par com outros 29 hospitais da Europa –, o Hospital de Cascais está no nível máximo a par com outros dois hospitais europeus. Portanto, são níveis que demonstram a maximização de utilização da informação em prol dos cuidados de saúde. Isto representa, quer para o Grupo Lusíadas, quer para a Saúde em Portugal, uma garantia de que os cuidados que são prestados passam por um conjunto de avaliações qualitativas e quantitativas que garantem a minimização do erro humano e garantem a otimização dos cuidados. Penso que para nós, Grupo Lusíadas, e também para o sistema nacional de saúde é um reconhecimento importante, hoje, Portugal estar na vanguarda dos melhores cuidados e da maior utilização de tecnologia. Somos um país com elevadíssimas capacidades, saliento que todo este processo de maturidade tecnológica foi feito com parcerias locais, ou seja, nós não fomos adquirir sistemas estrangeiros, fomos desenvolver os sistemas que existem em Portugal e que estão ao serviço de toda a comunidade portuguesa. Construímos o conhecimento em Portugal, o que tem sido para nós um grande orgulho.

 

JM | Quais os parâmetros que foram avaliados neste processo de certificação?

VAP | O processo de certificação consiste em 117 requisitos qualitativos que passam, essencialmente, por garantir a uniformidade e longevidade da informação e a correta troca da mesma entre os diversos players, sempre com o doente no centro, com uma lógica de empowerment do doente e de redução de iliteracia em saúde, através da utilização de tecnologia. Estes requisitos traduzem-se na menor duplicação possível, quer de exames, quer de diagnósticos. Maximizamos a informação pessoal que o utente nos fornece e que consta, hoje em dia, de bases de dados como a plataforma de dados de saúde que é uma plataforma do Estado.

JM | Em que se reflete esta certificação no trabalho dos profissionais de saúde da instituição e que mais-valias pode trazer tanto para estes profissionais, como para os utentes?

VAP | Vamos estar no Health Policy Summit, em Londres, para apresentar o percurso de maturidade a nível tecnológico do Hospital de Cascais, com um conjunto de pensadores e opinion makers do sistema nacional de saúde britânico (NHS), que é o sistema “pai”/modelo do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS). Vamos também demonstrar em casos reais, práticos, aquilo em que se traduz e pode traduzir a utilização da tecnologia.

Para o utilizador – pensemos num médico no serviço de urgência – a tecnologia é, por exemplo, a forma de reduzir o tempo que medeia entre a entrada no hospital de um doente com uma fratura do colo do fémur e o bloco operatório. Esta é um indicador de qualidade-padrão (atualmente este tempo máximo situa-se, em média, nas 48 horas e no Hospital de Cascais situa-se nas 36 horas) em que a utilização de tecnologia pode fazer a diferença.

Naturalmente que para o médico que está na urgência de um hospital, ter todo um sistema que acelera e maximiza a identificação do diagnóstico precoce, a chamada do anestesiologista, a correta identificação da terapêutica, com auxílio de ferramentas de apoio à decisão clínica e terapêutica traduz-se numa maior qualidade na prestação dos cuidados.

 

JM | De onde partiu o convite para estar presente, enquanto administrador de uma PPP portuguesa, no Health Policy Summit?

VAP | O NHS concluiu recentemente que o grau de maturidade tecnológica no sistema era baixo e que isso se traduzia em maus resultados de saúde. A partir desta constatação criaram os Global Digital Exemplar em alguns dos seus subsistemas de saúde, afirmando que estes deviam ser o exemplo para o resto do sistema nacional de saúde. No âmbito das tarefas que lhe foram dadas, pediram que se encontrasse um exemplo internacional da introdução de um alto nível de tecnologia num hospital.

O Hospital de Cascais foi um dos escolhidos para ser esse exemplo internacional a seguir. Tanto o Hospital de Cascais como o SNS têm recebido algum reconhecimento por parte do NHS e pediram-nos para apresentar aquele que tem sido o nosso percurso para nos tornarmos este exemplo digital e como é que ele se traduz em benefícios reais para o doente. É este o nosso posicionamento no Nuffield Trust e é lógico que servirá para demonstrar a qualidade das decisões tomadas ao nível governamental e em termos de política pública, que permitiram que o Hospital de Cascais e o SNS sejam um exemplo tão diferenciador a funcionar em Portugal.

JM | O que pretende partilhar com os colegas britânicos e o que pode o NHS, no seu entender, importar do vosso exemplo de PPP?  

VAP | Eu penso que há um alinhamento muito concreto entre aquilo que é o operador do hospital e o SNS, portanto o que se fez quando se criou a PPP – e o que é relevante demonstrar – é que independentemente do modelo de gestão, o que foi definido foram os indicadores de gestão dados ao Hospital de Cascais para medir a sua performance, que motivaram a instituição a realizar uma pesquisa incessante pela qualidade e pela segurança. No âmbito desta procura, naturalmente olhou-se para o uso da tecnologia para reduzir a variabilidade e aumentar qualidade. Se este raciocínio for replicado, independentemente do modelo de gestão, se é público ou privado, noutros hospitais, garantidamente vamos ter uma maior procura pela maturidade do modelo organizativo e funcional.

A tecnologia aqui é uma ferramenta. É um meio e não é o fim. A finalidade é a qualidade e a segurança, portanto o que importa é demonstrar o que para nós foram fatores críticos do processo para atingir este resultado, na medida em que suscita a melhoria contínua.

JM | Que outros temas de relevo serão discutidos no evento e o que pensa que poderá trazer desta experiência para o desempenho da sua função e para o desenvolvimento da instituição que representa?

VAP | Garantidamente que vamos estar a discutir o fundamento da política pública de saúde, quais os grandes drivers e quais os grandes desafios que as organizações de saúde enfrentam hoje em dia e como é que de um ponto de vista de gestão sistémica se podem melhor enfrentar esses mesmos desafios.

Não tenho dúvida que o tema da tecnologia estará muito claro e identificado. Neste âmbito, não pretendemos saber tudo, mas sim aprender e partilhar experiências, pois pensamos que é por aí que se evolui. É claramente a partilhar sucessos e insucessos que retiramos lições, mas também a trabalhar muito na área da qualidade, ou seja, aquilo que nós hoje temos cada vez mais é informação que nos permite reduzir os outcomes indesejáveis em saúde e isso é promoção da qualidade.

Queremos perceber e aprender com o NHS que tipologias de iniciativas estão a implementar no sentido de aumentarem a qualidade e reduzirem a variabilidade. Pretendemos depois traduzir esta lição para aquilo que fazemos e partilhá-la com outros hospitais do nosso SNS, para que este ganho não seja apenas do Hospital de Cascais, mas sim de todo o serviço nacional de saúde.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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