Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
DATA
05/08/2022 14:34:10
AUTOR
Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo. 

O modelo actual de avaliação curricular promove uma corrida por certificados que forneçam a evidência de que se atingiram os objectivos dos vários itens da grelha. Em alguns casos, esta corrida roça a obsessão porque a forma como funcionam os concursos de recrutamento de recém-especialistas, com abertura de poucas vagas, tem vindo a obrigar os Internos, que desejem permanecer no sector público, a lutar pelos 20 valores no seu exame final e, para o conseguir, também terão que ter 20 na avaliação curricular. No entanto, se observarmos bem a grelha, é extremamente difícil obter a pontuação máxima. Quantos internos conseguem fazer uma pós-graduação, mestrado ou doutoramento? E, se o conseguirem, foi à custa de quê? Claro que quem investe o esforço extra, deve ser reconhecido e recompensado, mas será o internato o momento certo para o fazer? 

É desejável que o currículo mínimo esteja bem definido, de forma clara e inequívoca. Assim como os colegas das especialidades cirúrgicas têm definidos os números mínimos dos diferentes tipos de cirurgia que têm que executar durante o seu internato, de forma a poderem ser especialistas, os Internos de Medicina Geral e Familiar (MGF) também deviam ter estes números definidos para os vários tipos de consultas e procedimentos como a colocação de implantes e dispositivos intra-uterinos, por exemplo. 

Os quatro anos de internato são uma boa oportunidade para, para além de adquirir as competências que caracterizam a nossa especialidade, treinar áreas de interesse pessoal, que idealmente contribuam para o trabalho em equipa, o desempenho da unidade de formação e as condições de saúde da comunidade que serve. Quando leio os documentos curriculares dos candidatos a exame final, procuro sempre elementos distintivos, o factor X, se assim quiserem chamar, mas também compreendo que para conseguirem fazerem tudo o que está descrito na grelha, dificilmente sobra tempo para isso.  

Em 2018, o EURACT (European Academy of Teachers in General Practice) publicou os requisitos europeus para a formação especializada em MGF. Recomendo, vivamente, a sua leitura, pois elenca a melhor forma de avaliar a aquisição das seis competências nucleares da nossa especialidade, de acordo com a definição Europeia de MGF, demonstrada pela árvore da WONCA (World Organization of National Colleges, Academies and Academic Associations of General Practitioners/Family Physicians).

A melhor forma será integrarmos a avaliação no próprio processo formativo, promovendo uma atitude reflexiva, com regularidade e ao longo do tempo. Assim, o Interno terá a possibilidade de aplicar o que vai aprendendo no seu desempenho futuro. Sem esta reflexão, dificilmente, haverá o desejado crescimento pessoal e profissional. 

Temos assistido a um ataque feroz ao nosso SNS (Serviço Nacional de Saúde), desmotivando os colegas, levando à saída da função pública e ao abandono da nossa especialidade. Se houver genuíno interesse em preservar o SNS, urge os nossos governantes manterem abertas todas as vagas disponíveis e a criarem condições equilibradas e equitativas para cativar e manter os especialistas de MGF, como o justo pagamento e a flexibilidade de horários, entre outros. Quando isto for possível, os Internos poderão concentrar-se no mais importante: aprender a fazer consulta, comunicando bem e oferecendo os melhores cuidados aos seus utentes.   

(artigo escrito pela ortografia prévia ao A.O. de 13 de Maio de 2009)

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.