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sexta-feira, 19 dezembro 2014 15:00

Rui Cernadas: saber, aprender, lembrar

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Cada vez mais ouço pessoas, cidadãos, a queixarem-se de tudo e de nada. Talvez com carradas de razões e sofrimentos vários.

As memórias mais recentes, como povo, não são as mais agradáveis e mesmo na história milenar que nos honra no mundo, não teremos tido muitos momentos como estes que temos vivido nos últimos anos.

O SNS, que celebra em 2014 os seus 35 anos de vida, tem um papel importante a cumprir e os seus profissionais, apesar dos seus problemas pessoais e organizacionais, precisam de saber lidar com a pressão e percepcionar os sinais do comportamento daqueles que servem ou devem servir.

Aprendemos a dizer que os cidadãos ou os utentes são o centro do sistema e do nosso interesse quando na realidade não o têm sido.

Quando um clínico recusa um atendimento porque não tem tempo ou não quer assumir qualquer excedente na actividade; quando um enfermeiro informa que o horário da vacinação “já passou” ou que se lhe esgotou o material esterilizado para aquele dia; quando um administrativo diz que o sistema já está desligado ou que “não há médico”, estão a afirmar a demissão da sua missão e a quebrar a confiança que neles foi depositada…

Temos de falar mais com os cidadãos; de lhes explicar melhor as nossas opções, decisões ou propostas preventivas, diagnósticas ou terapêuticas.

A confiança é isso mesmo.

Aprender é uma arte intuitiva, mas a intuição não chega para ser artista, dizia-me um antigo professor do meu antigo liceu, no Porto, o D. Manuel II.

O autismo é realmente um conjunto de distúrbios muito complexos, sabendo-se hoje que vai além das meras condicionantes genéticas.

Conhecem-se há já alguns anos, evidências entre alterações metabólicas maternas – em especial a partir da diabetes gestacional – e questões ligadas ao desenvolvimento neurológico em crianças.

São muitos os estudos que, nesta altura, sobretudo nos Estados Unidos, investigam a relação entre as alterações metabólicas maternas e o espectro do autismo. A inflamação e a resistência à insulina podem ser muito importantes nesse contexto e associação.

Mas há outras formas de “autismo”, algumas das quais e para mal dos nossos pecados, transmissíveis… Com foco de transmissão a surgir em instâncias como o Tribunal de Contas, por exemplo, e a propagar-se a profissionais e organizações dos cuidados primários.

Não parecem sinais de bom tempo, nem prometem grandes resultados.

Há que manter o bom senso e agir mais do que falar.

A começar, sublinhe-se uma vez mais, pela defesa do SNS.

A sustentabilidade na saúde não pode ser, por si só, um objectivo. Mas ajudaria a entender a multifactoriedade ligada à gestão da saúde, num cenário de envelhecimento demográfico muito acentuado, de quebras reais na natalidade e que condicionam o processo de substituição geracional a prazo, de sobrelotação nas escolas médicas e de enfermagem, de acelerada informatização… Mas de desarticulação frequente, de necessidade de definição concreta do mapa hospitalar nacional, de inovação tecnológica e científica, também ligada ao medicamento e aos dispositivos médicos, de gestão e financiamento da doença crónica, da formação e certificação profissional, entre muitas outras áreas!

Os actores na saúde não podem ser os decisores.

Mas há que decidir.

De facto, saber, aprender e lembrar são vectores essenciais para a cultura de um povo, para a riqueza duma sociedade, para a dignidade das suas gentes.

E a decisão precisa de tempo e de oportunidade.

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terça-feira, 25 novembro 2014 09:44

Rui Cernadas: questões para pensar

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Os Cuidados de Saúde Primários (CSP) precisam de se repensar numa perspectiva de seguir a evolução da sociedade que servem.

Esta reflexão deverá visar dois grandes objectivos:

1. Centrar interesses e visão no cidadão enquanto utente e indivíduo que paga ­­­– e bem – impostos e contribuições;

2. Reposicionar agora a qualidade num patamar já não exclusivamente organizativo, mas técnico e científico.

E obviamente terá que se nortear pelas verdadeiras discussões do que é, agora, a sociedade portuguesa. Em minha opinião, balizada por três vertentes estruturantes:

a) a conjuntura de um Estado que assumiu responsabilidades sociais cuja manutenção parece inviabilizada face às capacidades produtivas e financeiras de um país europeu, mas periférico, desenvolvido, mas pobre, com cerca de 10 milhões de almas… Maioritariamente envelhecidas ou reformadas;

b) a mudança do paradigma das necessidades em saúde, marcado pelo peso progressivamente maior da carga de doença crónica e suas complicações e evolução, a par com as exigências terapêuticas e aumento, a todos os níveis, do consumo de recursos;

c) a erradicação de atitudes corporativistas que constituem elementos conservadores e retrógrados e a eliminação de complexos burocráticos e administrativos que entorpecem as administrações e as oportunidades.

A avaliação poderá ser um acto de fé.

Mas deverá construir-se em torno dum ciclo claro que integra o diagnóstico, a intervenção, a análise e assim sucessivamente, em busca de uma melhoria contínua.

Com a vantagem de, a ser bem praticada, dever despir-se da procura da culpa, do dever de julgar e censurar, suportada que está no benefício de poder ajudar a corrigir ou ensinar.

Para além disso, este trabalho poderia entrar em linha de conta com a obrigação de, uma vez por todas, levar a sério muito do que já foi concluído e debatido, concretizando em definitivo estratégias e “livros brancos” ou “verdes”, já escurecidos pelo tempo e sobretudo pela falta de vontades…

Refiro-me em especial a dois aspectos:

- o alinhamento do Plano Nacional de Saúde, neste caso o de 2012 – 2016, com as metodologias de contratualização, quer nos CSP, quer nos hospitais (logicamente com todos os indicadores seleccionados e ainda com as normas de orientação clínica preconizadas e homologadas);

- a garantia efectiva da continuidade e integração de cuidados, poupando aos cidadãos deslocações desnecessárias e repetidas ou inúteis, esperas ou duplicações de actos injustificados, custos exponenciais e até perigosos no tocante à segurança do doente, o aumento do número de camas hospitalares em detrimento do benefício desejável da domiciliação precoce dos pacientes e, enfim, reciprocidade e proximidade entre as estruturas de cuidados primários, hospitalares e continuados.

Sabemos que estes processos são sempre marcados por dificuldades práticas que as explanações teóricas e conceptuais não conseguem prever. Mas os tempos e as circunstâncias obrigam a um novo e melhor aproveitamento do que existe e está disponível…

Que imagem terão os cidadãos dos profissionais de saúde, quando estes são os primeiros a apontar questões e problemas, verdadeiros ou falsos, empolados ou não, que afectam as unidades e a colocar em causa a qualidade da dispensa dos cuidados prestados?

Que evidência existe que permita relacionar a aplicação sistemática de indicadores – muitos deles cristalizados pelo tempo e pelo uso – e o padrão de qualidade dos actos técnicos assistenciais com os outcomes resultantes da sua implementação (contratualizada)?

Que consequências teve ou tem o facto de se ter atingido hoje um número recorde de profissionais médicos e enfermeiros no SNS?

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sábado, 08 novembro 2014 01:25

Rui Cernadas: e os farmacêuticos?

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

A Saúde é por toda a parte, em crise e em paz, mais do que nunca, uma actividade multidisciplinar que reúne saberes e experiências diversos, num espírito necessariamente colaborativo que, por força de razão, tem de colocar o doente e o indivíduo no centro do processo de dispensa de cuidados.

E estes cuidados, preventivos ou curativos ou paliativos, têm de ser vistos enquanto parte de um contínuo que, para além do respeito dos princípios éticos, deve obedecer ao estrito interesse do cidadão.

A discussão política e social em torno do tema é vasta e vai, em boa medida, passar pelas decisões e sobretudo pelas capacidades de financiamento e de sustentabilidade dos sistemas definido em cada país.

Mas, como quer que seja, o cruzamento dos profissionais no contexto assistencial é não só óbvia, como – diria mesmo – indispensável.

Também a Saúde, no geral, vive um período de naturais pressões sobre a despesa. Ou talvez mais do que sobre a despesa, sobre o seu crescimento!

Porém nesta matéria são conhecidos os factores que directamente condicionam o vector da despesa: o aumento do rendimento, a inovação científica e tecnológica e o envelhecimento da população.

Em Portugal julgo que estes aspectos adquirem uma acuidade e actualidade notórias.

Quanto ao rendimento, nem perderei tempo com ele…

A inovação, qualquer inovação, parece entre nós chegar, ver e vencer e, mesmo num país que reconhece e identifica constrangimentos no plano das diversas literacias e formação, consegue resultados impressionantes no processo de adesão, como o demonstram as taxas de penetração nos mercados das tecnologias ligadas aos telemóveis e sucedâneos, ou aos computadores pessoais ou aos vários “simplex” criados dentro e fora da Administração Pública…

Por fim, o factor demográfico, verdadeiramente trágico para o país, com graves cenários no definhamento populacional a curto prazo.

É por isso que há que garantir o sucesso e a determinação das reformas organizativas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O acordo celebrado entre o Ministério da Saúde e as farmácias e os serviços que estas prestarão no “âmbito dos programas de Saúde Pública e do seu contributo para a evolução do incremento da dispensa de medicamentos genéricos” é um desses exemplos e caminho.

Na verdade, sendo unidades de comercialização, as farmácias são igualmente unidades prestadoras de cuidados de saúde.

Primeiro, porque em Portugal, as farmácias e os farmacêuticos são, culturalmente, elementos de proximidade e de confiança dos clientes e cidadãos. A procura de ajuda, de informação, de aconselhamento e de orientação é tradicional em qualquer farmácia, de áreas rurais ou urbanas.

Segundo, porque o papel de charneira no sistema, ligado não apenas à dispensa do medicamento mas sobretudo à informação relativamente a aspectos posológicos ou de utilização, é inquestionável.

E por fim – nesta abordagem meramente superficial –, porque a acessibilidade nos horários de funcionamento e na rede de estabelecimentos existente é extraordinária, mesmo tendo em conta as dificuldades financeiras que o sector atravessa depois de muitos anos de crescimentos anuais significativos.

O uso de medicamentos é um factor crítico na eficiência dos sistemas de saúde, mas é também a maior parcela na despesa gerada em saúde.

Ora, num contexto de gestão da doença e num cenário de mudança de paradigma entre doença aguda e doença crónica, se os visados quiserem, a transferência de tarefas dos médicos para outros profissionais, como farmacêuticos ou enfermeiros, parece constituir oportunidade.

Que tarefas?

Algumas são bem conhecidas e divulgadas, ligadas por exemplo aos programas de troca de seringas, ou ao papel na difusão de mensagens, ainda que associadas a campanhas comerciais, como a evicção tabágica, ou a substituição do sal ou a prevenção do cancro de pele ligada à exposição solar ou enfim, Os muitos rastreios: tensional, glicémico ou da osteoporose…

A gestão de medicação e sua revisão e observação de cumprimento posológico e aderência, o controlo da polimedicação, a monitorização dos efeitos adversos, a avaliação da automedicação, o apoio aos programas de gestão aplicada a cada doença crónica, algum tipo de visitação domiciliária, entre outras, seriam naturalmente outras áreas em que poderíamos reflectir numa perspectiva de garantia de continuidade e integração dos cuidados de saúde.

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quinta-feira, 06 novembro 2014 16:00

Rui Cernadas: uma nova ignorância e as ULS

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Recordo-me de que antes da Revolução de Abril de 74, numa das minhas primeiras saídas do país ainda como estudante (então autorizado por escrito por meu pai...) a Londres, me senti confrontado com o estigma de ser originário de um país atrasado e por pertencer a um povo visto como analfabeto!

A história europeia confirmava-nos como uma nação de altos e baixos, de heróis e de traidores, caracterizada por fortes vontades e más decisões, grandes paixões e fracos resultados...

Divididos na Península, crescemos para os mares e aí, outra vez, depois de tudo ter e de ao mundo novos mundos dar, tudo perdemos!

Naturalmente, senti então vergonha e raiva.

Vergonha porque muito daquilo era verdade e raiva por outro tanto ser mentira!

E os anos passaram.

Já lá vão quarenta sobre a Revolução.

E trinta e cinco desde que o SNS foi criado e se tornou uma das mais claras e eficientes conquistas do regime democrático, admirado e surpreendente para muitos dos que nos observam além-fronteiras...

Mas nem o presente – e menos ainda o futuro – estão, quer seguros, quer risonhos.

Não falo da sustentabilidade que, em larga medida, se liga às grandes e necessárias opções que o país deve discutir, pensar e assumir no contexto do que serão as suas capacidades financeiras e sociais e as decisões estratégicas... Em sentido estritamente político.

Falo, isso sim, do que releva de um novo tipo de ignorância, já não no plano do analfabetismo, mas das novas oportunidades dadas ao facilitismo e à ligeireza perigosa que se geraram na sociedade portuguesa em volta de modelos organizacionais e de gestão importados...

Assistimos, hoje, à aprovação parlamentar de propostas de criação de ULS, sem a necessária planificação ou estudo prévio credíveis sobre as implicações clínicas, funcionais, estruturais ou financeiras do modelo!

Criam-se por “decisão política”!

O que significa... Decisão assustadora... Como a que conduziu ao lançamento, em Portugal, de uma rede de unidades de cuidados continuados que se afastou dos grandes centros, onde se concentram as maiores necessidades...

A ignorância de que falo é esta, que toma por bons ou boas, convicções ou suposições que estão longe de estar validadas onde quer que seja.

Das ULS a única coisa que se conhece são experiências de integração de gestão em áreas específicas, como as do aprovisionamento, aquisição e partilha de serviços, contratos e financiamento.

Mas sem qualquer ligação à organização da prestação de cuidados.

O que aconteceu em Portugal foi uma integração forçada de organizações e níveis de serviço. Sem racionalidade em alguns casos e, sobretudo, sem resultados.

Pensar numa solução para todo o país é estimularmos a tal noção de ignorância.

Desde logo porque, internamente, a figura da ULS não resolve o problema dos pretensos recursos insuficientes e não disfarça – pelo contrário, sublinha – a ausência de relacionamento e de integração de cuidados.

Mas pior do que isso, desmente a ideia de economias de escala e de sinergia de recursos, até porque apenas contribui para a perda de profissionais no sistema e para a complexidade assistencial.

Não existe qualquer evidência de melhores resultados em saúde em nenhuma experiência de integração de cuidados. Em Portugal, por exemplo, os planos locais de saúde não reflectem diferenças com significado estatístico ou clínico relativamente a outros modelos.

A ideia feudal não desapareceu antropologicamente.

O fim dos governos civis não aconteceu por exigência cultural ou civilizacional.

A noção de proximidade acentua mesmo voracidades, de géneros muito diversos.

A mal não é só nosso. Na verdade, se olharmos para o NHS britânico, do qual bebemos a matriz e nos serve a todo o momento de farol, veremos como o problema da integração também os preocupa.

Desde pelo menos 2008 que reflectem sobre os caminhos para novos modelos de gestão integrada de cuidados!

Com muitas dúvidas.

Poucas certezas!

Mas recordando que a integração, como sustenta a Organização Mundial de Saúde, deve compreender um sistema de tipo hexagonal de dimensões: clínica, funcional, normativa, organizacional, cultural e administrativa... E sublinhar a necessidade de ter razões certas e contexto local como pré-requisitos de integrações bem-sucedidas...

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sexta-feira, 17 outubro 2014 09:00

Rui Cernadas: segurança dos doentes

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas; Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O problema da segurança do doente em contexto de oferta de cuidados de saúde é um tema que ainda está relativamente longe de estar bem estudado… não obstante surgir na primeira linha das preocupações clínicas e organizacionais, sobretudo em meio hospitalar.

É verdade que, por todo o mundo, é objecto de atenção e pesquisa crescentes, a vários títulos:

- Como área temática de pura investigação científica;

- Como forte componente na melhoria contínua de cuidados e também por razões ligadas à chamada “accountability” ou prestação de contas;

- Como perspectiva ética inalienável;

- Como preocupação académica na gestão hospitalar ou em outras áreas médica ou de enfermagem;

- Como vector complementar e de continuidade na discussão da qualidade em saúde.

A Comissão Europeia tem sido, a este respeito, um dos agentes mais empenhados, quer no âmbito da divulgação dos contornos do problema e da avaliação da percepção dos europeus face à questão, quer através do Conselho da União Europeia, entidade emissora de recomendações específicas sobre a segurança dos doentes.

Os números avançados devem, de resto, merecer alguma reflexão:

- Entre 8% a 12% dos pacientes internados nos hospitais europeus irão sofrer eventos adversos nesse período;

- Desses, cerca de um quarto serão relacionadas com infecções de natureza hospitalar;

- Os restantes 75% sofrerão consequências de complicações diversas, expectáveis ou não, mas associadas às terapêuticas farmacológicas e a efeitos iatrogénicos, a actos cirúrgicos, a erros de diagnóstico ou da prática clínica e, ainda, a dispositivos ou tecnologias médicas várias.

Por outras palavras, e apenas quanto ao risco infeccioso hospitalar, as estimativas apontam para um montante em redor das 37 a 40 mil mortes por ano no conjunto dos hospitais europeus!

É por isso que alguns dos autores mais celebrados nesta matéria defendem que há que associar custos muito elevados às questões com a segurança dos doentes como forma de – em todos os sentidos – os profissionais de saúde e as respectivas instituições, públicas, privadas ou do sector social, lhes atribuírem a devida importância estratégica e clínica.

Nessa linha, exige-se às organizações de saúde um modelo estrutural normativo que coloque a segurança e a qualidade num figurino de partilha e complementaridade responsável e patamar de preocupação elevado.

A própria Organização Mundial de Saúde destaca igualmente o tema e integra-o no que designa de necessidade de cultura de segurança das organizações de saúde, envolvendo também o papel das lideranças, do trabalho em equipa, da tomada de decisão, do stress e da fadiga e do ambiente do trabalho.

Em Portugal há também muito por fazer e muito do que foi já produzido, apresentado ou estabelecido, deriva mais da voluntariedade do que de um planeamento estratégico abrangente e coerente… Sendo certo que nos últimos meses – talvez ano e meio – tenhamos assistido a uma clara insistência na análise do problema, na oferta de actividades formativas ou de sensibilização e no reforço da vertente da luta contra a infecção hospitalar.

A gestão da saúde pode e deve interpretar e assumir, até, que a iliteracia dos doentes, como de muita da comunicação social generalista que se dedica à saúde, põe em causa a segurança da população e cria dificuldades acrescidas à promoção da saúde e defesa da saúde pública.

A opção por ambientes seguros na linha da prestação de cuidados médicos deve pugnar por eliminar os comportamentos de risco e aceitar que não existem “profissionais perfeitos” ou “risco zero”… Uma realidade que também seria bom recordar, amiúde, às entidades com responsabilidades formativas, ordens profissionais, entre outras.

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quinta-feira, 18 setembro 2014 11:35

Rui Cernadas: SNS 35 anos

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) traduz um inegável avanço civilizacional, tendo os cuidados dispensados aos portugueses uma qualidade e modernidade que não teme comparações com os sistemas de países mais ricos e desenvolvidos.

O país tem orgulho no seu SNS. Além disso, tem do SNS a perfeita noção de uma capacidade de resposta que, sublinha a confiança na sua actividade e as esperança nos seus resultados.

Assim se justifica a aparente universalidade na congregação de esforços e de vontades sempre que, a algum título ou necessidade óbvia, se mexe ou tem de mexer na manta ou na rede e tipologia de serviços e de instituições.

Mas os desafios, as carências e a evolução global do país – seja em telecomunicações, em estradas, sistemas de informação ou edifícios – impõem ao SNS o dever de reestruturação estrutural obrigatória. Aos hospitais, por exemplo, que não por acaso representaram em 2011, em Portugal, 3,4% do PIB e mais de 50% da despesa do SNS.A sua importância socioeconómica fica assim desde logo muito bem definida.Com relevância para questionar se o investimento do país e a escolha efectuada, entre curar e prevenir, está estabelecida e se valerá, como nos fogos florestais todos os anos, pagar combate a incêndios e aviões ou prevenir numa limpeza atempada das matas e na construção de acessos e zonas de alternância.

Serve também para realçar um segundo traço de dificuldade gestionária: o de que não é fácil para estas empresas públicas – os hospitais – poderem funcionar com regras restritivas da Administração Pública. A dimensão desta questão torna-se fulcral num estado burocratizado e centralizado, no qual a tradição confirma a atribuição de funções e competências de planeamento a institutos nacionais que ignoram e desconhecem as realidades regionais e locais e ainda se assumem em oposição frequente às propostas fundamentadas e avisadas que lhe são apresentadas…

Há tradição de crer que as administrações, pelo facto de terem sido nomeadas politicamente, perdem eficiência na gestão. Mas, não se vê discutida sequer a avaliação do que é que poderia acontecer em alternativa…

Lugares, funções e competências de carreira? E isso bastaria, bem ao jeito do “yes minister” da conhecida BBC? E qual seria o interesse do sentido democrático subjacente à ideia do voto popular e das decisões que dele irrompem?

Na verdade, a criação e o trabalho da CRESAP pode melhorar este ponto, mas o problema prévio, sejamos claros, é no caso de no SNS ser indispensável alguma estabilidade e visão estratégica a prazo que, só por alargados consensos parlamentares, poderá afiançar aos cidadãos um SNS com futuro.

Uma avaliação séria das direcções nos serviços públicos em geral e do SNS em particular – seja nos hospitais, seja em outras instituições ou institutos públicos – ficaria muito prejudicada no actual modelo de responsabilidade diluída e/ou fraccionada entre a tutela e os seus mecanismos de gestão e controlo.

Se quisermos, por outras palavras, não existe uma autonomia real associada à correspondente responsabilização…

Não perceber nem aceitar que a realidade nacional ajudou a criar novos figurinos e constrangimentos, no plano da relação com as Finanças, é descabido. Mas a criação do sector empresarial do Estado é ilusória, quando no caso dos hospitais ou das ARS (estas até I.P.), há limites ou falta de liberdade na cobrança dos serviços prestados.

Ou pior, quando se lhes impõem preços (em valores de GDH) que, em muitos casos, não cobrem os custos de produção face aos cuidados prestados e materiais utilizados. Nem vou discutir aqui e agora o contexto do custo na hospitalização privada, para não ter de enveredar por outros aspectos menos lisonjeiros para o Estado.

Acredito que a sustentabilidade do SNS no médio e longo prazo são desideratos de natureza imprescindível. Porém, não acredito no modelo actual organizativo em que a tutela, por órgãos de administração directa do Estado retarda, altera, perturba ou não sanciona decisões de gestão que dependem de prazos, de oportunidades, de vectores estruturados ou de análises sustentadas.

O desenvolvimento das instituições e do país obrigam a eficiência permanente, num ambiente de confiança e visão estratégica, em que a responsabilização tem de ser efectiva e não demagógica.

Os 35 anos do SNS poderiam ser um argumento forte para essa reflexão e transformação!

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ruicernadas
O vice-presidente da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-N) disse hoje à Lusa que a partir de 2016 haverá na região situações de desemprego entre os médicos de família.

Rui Cernadas explicou que a situação vai ocorrer, porque os 850 especialistas em Medicina Familiar que estão a ser formados nas universidades do norte do país são em número superior às necessidades.

"Não lhe falo em perspectivas, falo-lhe do que vai acontecer", acentuou.

Falando em Penafiel à margem das comemorações dos 35 anos do Serviço Nacional de Saúde, organizadas hoje pelo Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, o representantes da ARS-N recordou que a região norte tem actualmente mais 300 médicos do que no final de 2011.

Por isso, observou, todas as necessidades da região, onde ainda há sete por cento de doentes sem médico de família, ficarão totalmente satisfeitas com os novos profissionais.

Rui Cernadas previu também que o excesso de médicos especializados em Medicina Familiar passará também a afectar o resto do país, a partir de 2018, incluindo o Algarve, que disse ser a região com mais carências.

O vice-presidente da ARS-N recordou que já há agrupamentos de centros de saúde na região norte onde não há carências, como o de Gondomar e o da Póvoa de Varzim/Vila do Conde.

Questionado sobre as carências que ainda existem no interior do distrito do Porto (no Baixo Tâmega 25% dos utentes não têm medico), afirmou que a situação deverá ficar resolvida com os novos especialistas que sairão das faculdades em 2016.

Apesar disso, avisou Rui Cernadas, 2015 vai ainda ser um ano "muito difícil", porque vão aposentar-se dezenas de médicos de família, que se fixaram nos anos 70 e 80, deixando a descoberto vários concelhos do interior da região norte.

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quarta-feira, 02 julho 2014 12:06

Rui Cernadas: antiaging medicine

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O mundo tem mudado rapidamente e em todos os aspectos ligados à vida humana.

Não é tempo nem propósito discutir sequer se para melhor ou para pior. Apenas se quer sublinhar a importância e a dimensão múltipla dessa mudança.

Uma das principais características releva para a maior longevidade das pessoas e para os problemas que, por exemplo na prestação de cuidados de saúde, isso implica.

Desperta por todo o mundo científico o alarme da necessidade de estudar o fenómeno na sua globalidade, cujas consequências sociais e económicas, estou certo, determinarão um novo figurino e modelo organizativo assistencial e quiçá, um outro tipo de Estado Social.

Os números falam por si e pelo mundo ocidental os escalões etários que mais aceleradamente crescem são os que se situam acima dos sessenta anos e, em particular, acima dos oitenta anos.

Em 1999, a Organização Mundial de Saúde estimava em cerca de cento e cinquenta mil os indivíduos com mais de 100 anos de idade, os “centenários”…

Para 2050, as projecções da mesma organização apontam para mais de dois milhões de “centenários”!

Ao nível da linguagem, a questão ganha novos termos e expressões e os americanos, por exemplo, felizes nas expressões à custa da língua inglesa, fundiram nas palavras antiaging medicine muitos dos conceitos e das linhas de abordagem usadas entretanto em torno da saúde no envelhecimento e/ou do envelhecer saudavelmente…

Chama agora de antiaging medicine ao que antes e em separado designavam como medicina para a longevidade ou envelhecer com sucesso ou optimizar o envelhecimento, ou a quarta ou quinta idades ou envelhecer bem!

A indústria já despertou para o tema há mais tempo e é hoje um enorme filão de negócio em vertentes que vão desde a cosmética aos ginásios seniores, dos suplementos alimentares ditos específicos, à comercialização de quanto sirva ao fim em promoção da necessidade e do desejo!

A Medicina ainda, como exercício profissional, um pouco por todo o lado trata a questão como tratou no início e no passado os bebés e a pediatria, uma espécie de medicina adaptada aos mais pequenos e de menor peso…

O reconhecimento de uma especialidade ainda dá os seus passos.

O processo biológico do envelhecimento ou, pelo menos sobre os mecanismos de controlo do antienvelhecimento, precisa de ser o fulcro da investigação até porque, independentemente dos avanços bioquímicos, farmacológicos e tecnológicos poderem tratar mais e melhor, as pessoas todas vão vivem mais anos.

Pode parecer algo especulativo, mas há cento ou cento e cinquenta anos atrás, quem pensava que iríamos poder utilizar a hormona do crescimento como aplicação terapêutica?

E será ilegítimo admitir que os projectos da engenharia genética ou na área das células estaminais possam evoluir no sentido, se quiserem, da intervenção sobre as mais variadas e infindas disfunções fisiológicas do envelhecimento humano?

É verdade que, no princípio do século XX, as pessoas morreriam em termos médios antes dos cinquenta anos, por causas infecciosas, como as pneumonias, as diarreias ou a tuberculose. Ou que no princípio deste século, terão uma expectativa média de vida até cerca dos setenta e cinco anos de idade, morrendo já não do que as poderia matar cem anos antes, mas agora de doenças vasculares ou de cancro!

Mas as previsões para 2050 são complexas e algo assustadoras.

Um país como Portugal, por essa altura poderá perder num cenário possível mas mais pessimista, até 40% da sua população, quer por envelhecimento quer por falta de nascimentos…

Ao mesmo tempo, trágica e paradoxalmente, a esperança média de vida poderá estabilizar nos oitenta anos…

Aí está um ponto sobre o qual, mais uma vez, Portugal precisa de consensos alargados e de estratégias sérias e coerentes.

E políticas estruturadas que tenham em vista também o consumo e a procura dos cuidados de saúde e quem são ou serão os cuidadores…

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You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade

No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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