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quarta-feira, 11 novembro 2015 12:00

Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Os “rankings”

Alguém me dizia, com propriedade, que os rankings valem pelo que valem e por norma, na verdade ajudam sempre a perder tempo. E dava como exemplo, na área profissional em que se movimentava – não clínica obviamente – que a empresa multinacional em que trabalhava estava muito confortável no respetivo ranking.

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sexta-feira, 09 outubro 2015 15:35

Rui Cernadas: desculpem mas eu li! O logro

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Os Portugueses consideram a saúde como um bem inestimável, valorizado como um princípio de cidadania reforçado pelo facto da universalidade do SNS ter tido efeitos marcadamente inclusivos e ser, na verdade, o principal exemplo entre nós da chamada coesão social.

É natural que, por outro lado, face à proximidade de tempos eleitorais, as pessoas se comportem livremente em função dos seus legítimos interesses, expectativas e alinhamentos político-partidários.

Uma das ideias mais escalpelizadas nos últimos anos respeita à reforma dos cuidados primários de saúde (CSP). O tema e a sua importância, de resto, justificam a insistência.

Pode dizer-se que faltou estratégia de longo prazo e que, porventura, os inúmeros e inesperados problemas com as dívidas do Estado em geral e as da saúde, em particular, terão “enterrado” outras preocupações ou hierarquizado os problemas de outra forma.

Tenho para mim que a seu tempo isso será entendido um pouco como o foi o investimento e a persistência de autarcas e das câmaras municipais com o foco no saneamento e na distribuição da água canalizada, hoje inquestionável no sucesso de alguns indicadores de saúde.

Por outro lado, a tutela da saúde manteve prolongado diálogo e negociação com as estruturas sindicais. Não terá - não digo esse fato em si - mas a castração para o debate com a participação de outros atores, como as ordens profissionais, a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar ou a ULS-AN, as associações de doentes, as instituições universitárias ligadas à saúde esvaziado ou afunilado, no mínimo, a reflexão e a abrangência em redor do processo de desenvolvimento dos CSP em Portugal?

Em que medida não nos perdemos em discussões de contornos ou natureza meramente laboral ou profissional no limite, sem qualquer impacto nos planos assistenciais, na promoção da saúde ou até na qualidade?

Basta atentar, por exemplo, no esforço para definir e criar incentivos à fixação dos profissionais da saúde nas chamadas zonas mais periféricas e ligadas a uma maior rarefação demográfica.

A rarefação demográfica não é, todavia, a única justificação para a carência de recursos qualificados… Afinal de contas, é no território em volta de Lisboa que a falta de médicos de família é mais acentuada

Ou um outro tema para reflexão.

Nos últimos tempos, tudo e todos reclamam o alargamento e aumento do número de camas na rede nacional de cuidados continuados. Isto sem sequer se ter iniciado uma articulação clínica ou aprofundado a relação técnica operacional entre os diversos níveis prestadores de cuidados…

Ou mesmo se equacionou a discussão séria que se impõe, quanto à alteração do paradigma assistencial marcado pelo aumento claro da procura no que se refere às doenças crónicas e degenerativas e uma diminuição da procura associada às doenças infetocontagiosas, num cenário global de envelhecimento óbvio?…

Os problemas da saúde não são simples nem fáceis de discutir.

E menos ainda de solucionar.

Na verdade, os médicos dizem muitas vezes que o importante é tratar doentes e não doenças, o que nunca deixa de ser uma alfinetada, justa e inquestionável, nos que pensam que a medicina é uma ciência exata.

Mas os problemas, na saúde, são assim mesmo, todos iguais, todos diferentes…

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[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

A Comissão Europeia, a OCDE, a DGS e as sociedades científicas portuguesas alertam continuamente para o gravíssimo problema da obesidade infantil em Portugal.

Os números são a cada novo estudo mais assustadores e as implicações para a saúde da população e para as finanças do país no futuro são incalculáveis.

As doenças crónicas e a mortalidade associada vão ser devastadoras.

Por isso, tudo o que se possa fazer para contrariar esse cenário – que é já presente – pode valer a pena.

Mas a ideia que dá o título a esta crónica não é esse exercício, o físico…

Foi apresentado há pouco tempo o “10º Relatório das Doenças Respiratórias em Portugal”, da responsabilidade do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias, relativo a 2013.

Há dados que confirmam a tendência verificada em estudos anteriores, como a maior gravidade destas patologias, que nesta altura impõem internamento hospitalar. Essa gravidade corresponde a taxas de mortalidade superiores à da média dos doentes internados em serviços de medicina.

E fala-se de taxas de mortalidade consideráveis, como 6,3% na asma, 9,9% na DPOC e 21% nas pneumonias.

Pese embora o envelhecimento demográfico tão bem conhecido, a verdade é que os dados confirmam que, em 2012, morreram por causas do foro respiratório, 50 indivíduos por dia.

De resto, a DPOC, as pneumonias e os cancros do aparelho respiratório são as três principais causas de admissão hospitalar, ainda que em 2013 só a patologia oncológica tenha registado um aumento nesse indicador. Pesem os números, há uma realidade que sobressai nesta “contabilidade”: em termos absolutos, a doença oncológica deu origem a pouco mais de 6.300 internamentos, a DPOC a mais de 8.200 e as pneumonias a quase 42 mil!

Chegados aqui, surgem-nos de imediato um vasto conjunto de exercícios de análise interessantes de realizar. Desde a invocação dos números relativos à tuberculose e à gripe, ou gripes, para de modo conjugado avaliarmos o impacto pneumológico na mortalidade em Portugal, por exemplo… Ou a discussão sobre as taxas de DPOC em Portugal.

A generalidade dos estudos publicados aponta para taxas de prevalência na casa dos dois dígitos. Porém, nos cuidados de saúde primários, a maior base de dados clínicos do país, os registos a partir dos diagnósticos assumidos estão longe, muito longe, dessa perspectiva.

Na região norte não atinge sequer os 2%.

Dir-se-á que é uma questão de falta de registo… Muito bem. Mas a verdade é que os dados da diabetes ou os da hipertensão, que também são anualmente objeto de relatório por parte do “Observatório”, não obstante serem muito diferentes dos números “públicos”, são confirmados por várias vias.

Dir-me-ão que os indicadores para a diabetes alertaram e consciencializaram os médicos e os enfermeiros para um problema que é de saúde pública… Que seja. Ainda assim este exercício continua a valer a pena…

Acredito que o défice e as dificuldades habituais em sede de promoção da saúde e prevenção da doença, que marcaram anos de estratégias falhadas na educação para a saúde, possam inspirar uma nova estratégia que valorize os ganhos em saúde e permita perceber que, para os obter, há que definir prazos de média e longa duração alicerçados em planos, orçamentos e indicadores de monitorização equivalentes.

Não quero acreditar que a atividade médica e o consequente dever de garantir bons registos clínicos – hoje estreitamente associados à Medicina Familiar que, por definição, se propõe fazer o acompanhamento dos utentes e das suas famílias ao longo de todo o ciclo de vida – se limite ou conforme ao cumprimento de políticas de indicadores. Ou então alguns agoirentos terão mesmo razão…

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[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Parece incompreensível que numa época da história do homem em que a comunicação corre à velocidade de um clique ou que, um email ou “sms” revolucionam cidades, países e mundos, se sinta a necessidade de falar e apelar à comunicação.

Os exemplos recentes com manifestações, às vezes gigantescas, convocadas por estes meios ou o peso da internet na chamada “revolução” ou “revoluções” magrebinas, valorizam esta ideia.

Por isso, falar de comunicação e principalmente falar de comunicação em saúde, pode soar estranho… Entre os muitos profissionais que fazem dos serviços clínicos uma actividade complexa e multidisciplinar e entre aqueles e os doentes e seus cuidadores. Os que, bem vistas as coisas, estão verdadeiramente sempre e por definição em desvantagem física e psicológica… Muitas vezes em ambientes e cenários que lhes são absolutamente estranhos, desconhecidos, não simpáticos e quiçá, assustadores.

Não me convenço, diria até mais, não me conformo, com a ideia de que basta que cada profissional seja competente e cumpridor para que o sistema assistencial corresponda ao que dele deve a sociedade exigir.

A adopção de protocolos de actuação, diagnóstico ou terapêutica, a regulação por normas de orientação clínica, a existência de gabinetes de utentes ou de livros de reclamações, todos eles, não bastam para evitar ou suprir os imprevistos, as variáveis que nunca se controlam, as ânsias dos familiares e dos conviventes, os receios, as dúvidas ou os terrores dos doentes.

A verdade é que a afirmação de que “o tempo”, que normalmente é apontado como responsável pelas situações de crítica ou de discussão na relação médico-doente ou, se preferirem, na relação profissional do interface saúde-doente constitui um falso argumento! Assim como não colhe a desculpa, tantas vezes repetida, de que os computadores e as obrigações múltiplas de registos impedem ou limitam o relacionamento com os doentes.

Por razões diversas, ligadas às minhas funções na ARS do Norte, tenho tido oportunidade de observar a chamada e a entrada – ou a saída – de doentes em gabinetes médicos hospitalares e nos centros de saúde. E o que constato é um processo onde não se vislumbra “ponta” de corrente afectiva; em que cada doente – ou utente – é apenas mais um ser vivo anónimo, individual, “ligado às máquinas”, sem que relativamente ao qual se vislumbre, por parte da instituição, cuidado de conforto e de dedicação que lhe são devidos. Poucos foram os casos em que pude observar o clínico a acolher o doente de mão estendida à porta do consultório. E raros os casos em que o profissional o acompanhava à saída do consultório no final da consulta.

Para onde quer que olhemos, vemos profissionais – de todas as áreas – agarrados aos telemóveis ou aos écrans de todos os tamanhos e cores, alheados de tudo o que os rodeia… Longe de todos e dali…

O problema é tanto mais grave quanto se sabe que o fenómeno da violência contra profissionais está claramente a aumentar e que os riscos e os perigos associados às falhas de comunicação são reais e dramáticos. Estão, aliás, relatados e identificados entre os factores de risco preveníveis de morte em ambiente hospitalar.

Não significa esta reflexão que todos tenhamos de alinhar um discurso ou modelo “piegas” ou formatado e ridículo “em choradinho” em nome da transmissão de humanidade. Para isso há actores e telenovelas.

Espero que não seja assim que se pense em relação a outras áreas e contextos.

O modo como cada área do saber da Saúde se deve pautar no relacionamento com os doentes e com os outros profissionais, deveria certamente constituir matéria da formação pré-graduada. Mais: estou convicto de que a diversidade que deve marcar o relacionamento e a comunicação com as outras pessoas em geral – e com os doentes em particular – garantirá a complementaridade e a abrangência que o serviço nacional de saúde está obrigado, por dever e obrigação ética, a disponibilizar ao país.

Os papéis e as funções dos profissionais, enquanto técnicos de saúde, podem ser sempre atribuídos. Já a capacidade e o desejo de comunicar, esses, podem ser solicitados e requeridos, mas dependem da vontade de se querer – e saber – ser um profissional de corpo e alma…

Nota: escrito na grafia anterior ao novo acordo ortográfico

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terça-feira, 23 junho 2015 17:00

Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Cenas e cenários

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O envelhecimento é hoje abordado com frequência numa perspectiva demográfica, de evolução da pirâmide etária, que é assustadora no nosso país. E assustadora a muitos títulos.

Como disse alguém, sendo o envelhecimento uma “bênção” civilizacional… Acarreta consequências muito complexas em termos de encargos sociais e financeiros para o Estado.

Os desafios colocados pelo envelhecimento passam, desde logo, por um aumento exponencial das doenças crónicas, neurodegenerativas e cardiovasculares, reumatológicas e oncológicas, num cenário marcado, entre outros, pelas co-morbilidades e pela iatrogenia.

Mas o problema, “a cena” como dizem agora os mais jovens, é que a questão não é apenas nacional.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, dentro de 10 anos, isto é, já em 2025, o mundo terá mais idosos do que crianças!

O Brasil, por exemplo, tido como um país jovem e pese embora a sua extraordinária dimensão sociogeográfica, poderá por essa altura estar a braços com a realidade de ser o 5º ou 6º país do mundo com maior número de idosos…

Entre nós vamos lidando, por enquanto, com as principais patologias que, em termos de saúde pública – diria face ao peso epidemiológico – nos vão “encharcando” consultas, procuras, custos e recursos. São elas a diabetes, a hipertensão arterial, a doença pulmonar obstrutiva crónica, as demências ou a insuficiência cardíaca, que obrigam a uma atenção redobrada, num cenário que, garantidamente, cursa com complicações e gravidade variável mas inquestionável.

A integração de cuidados vai-se tornando mais exigente e premente, num enquadramento que deverá exigir uma outra atitude por parte da gestão dos serviços de saúde. Esta exigência significa que está na altura de começar a discutir e a reflectir, a sério e em definitivo, sobre os modelos que o país pode assegurar na gestão clínica destas doenças e dos seus milhões de doentes. Mais a mais sabendo-se que na maioria das situações coexistirão co-morbilidades…

Não basta ficar pelas intenções ou dizer-se que os médicos de família poderão e deverão ser os gestores do doente. Os cuidados paliativos vão ganhando contornos próprios, com novas indicações técnicas e oferta de cuidados.

A chamada inovação, para além da farmacológica, inclui a dos dispositivos e equipamentos, cada vez mais sofisticados e deve suscitar novas discussões, incluindo a do reaproveitamento (reutilização) desse material.

O diagnóstico deve ser preciso e o mais precoce possível, quer porque o atraso na sua instituição, como por exemplo no caso da diabetes, pode representar prejuízo para o doente com o avanço preocupante da patologia e do seu não controlo, quer porque pode consubstanciar uma subestimativa que se traduz no não tratamento, com perda de qualidade de vida e custos de intercorrências consideráveis.

Novos problemas clínicos vão assumir particular relevância como o da adesão ao tratamento, definido pela Organização Mundial de Saúde como “o quanto o comportamento de uma pessoa corresponde às recomendações acordadas com um profissional de saúde”.

E aqui importa sublinhar que sendo o conhecimento e o aprofundamento da relação entre o médico e o doente fundamental – como sempre foi e será – está longe de ser a única ou mesmo a principal explicação para as questões que se colocam ao nível da adesão… Sendo certo que a falta de adesão é crescentemente causa de internamento hospitalar e de agravamento por descompensação das patologias de base.

O mundo médico está atento, ainda que parte importante da resposta não passe pelos serviços ou pela dispensa de cuidados de saúde. De facto, sendo questões ligadas à decisão técnica e clínica, também dependem da decisão política.

O SNS vai precisar de quem repense estas “cenas” e cenários; de quem proponha e adopte respostas, partilhadas e responsáveis, que comprometam as dimensões técnica, financeira e ética.

Em nome do futuro de todos nós.

Porque para os mais velhos, como eu, o futuro está bem mais próximo.

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quarta-feira, 03 junho 2015 17:01

Rui Cernadas: planear, errar, acreditar…

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Às vezes a razão tem argumentos que as razões ignoram.

Muito se tem falado da necessidade de planeamento na Saúde, no alargamento de horários de funcionamento nas unidades de saúde, no reforço dos quadros de profissionais da saúde e nos condicionalismos financeiros, como se de facto tudo na Saúde fosse planeável e controlável.

O mundo e a vida – de forma trágica e severa muitas vezes – mostram-nos continuamente como nada se consegue resolver de modo definitivo… À prova de falência ou falhanço.

Por uma única razão fundamental: o princípio da humanidade faz com que tudo seja individual, personalizado e imprevisível!

Aquilo que nós médicos dizemos, quando falamos de doentes e não de doenças…

Quem poderá garantir que se por hipótese o Senhor ministro da Saúde um dia decidisse oferecer a todos os utentes inscritos no SNS, mesmo que fosse somente aos que têm médico de família atribuído (que são já a esmagadora maioria dos portugueses), um “check-up” completo, do qual todos saíssem sem qualquer dúvida ou sombra de prognóstico, nenhum viesse a morrer no dia seguinte?

Os dogmas são sempre perigosos. E os cemitérios estão cheios de vivos na véspera.

Um deles é o da ideia de que enquanto a resposta dos cuidados de saúde primários não for a mais adequada e alargada, as urgências dos hospitais não estarão descongestionadas, sobretudo nos períodos mais difíceis, das gripes e infecções víricas sazonais.

O envelhecimento demográfico e a enormidade no contexto das patologias associadas acentuam um carácter de maior gravidade e perigosidade para os utentes do SNS, elevando, do lado da procura, a fasquia da diferenciação.

Foi por isso que, aliás, vimos no princípio deste ano como as triagens nos serviços de urgência se defrontaram com um aumento exponencial da proporção de doentes amarelos e laranjas, ou seja, exactamente dos que não podem nem devem ser orientados nos cuidados primários.

Outro dogma disparatado é o da alusão à falta de médicos no SNS.

Não no sentido mais lato, porque de facto faltam ainda médicos de família em algumas regiões ou concelhos.

Mas no sentido da justiça e do reconhecimento.

Repare-se que em termos de médicos de família, o país passou de 5.600 especialistas em 2012, para 5.900 em 2013 e mais de 6.000 em 2014 e em Abril deste ano, aproximar-se-à dos 6.300!

E quanto aos médicos hospitalares, em 2013 eram 20.600 e nesta altura são mais de 21.000!

Destes números, ressalta claramente uma flagrante verdade.

Uma tal desproporção entre profissionais médicos hospitalares e de família não torna impossível alterar o paradigma assistencial do SNS?

Como interpretar depois os resultados do lado da produção, isto é, cerca de 25 milhões de consultas ao ano dos centros de saúde contra 15 milhões dos hospitais, sendo que destas, um terço (mais de 5 milhões!) são urgências?

Não valerá a pena estimar os níveis de produtividade?

Não será legítimo compreender a razão desta procura invertida?

Não será tempo de calcular os verdadeiros ganhos em Saúde, ou não, que daí resultem?

Não será altura de dizer basta ao discurso demagógico, não sustentado e ridículo de que tudo está mal e o problema é economicista?

Quem quer planeamento da Saúde, quer mesmo?

Que autarquias, que partidos políticos, que universidades, que sindicatos, que ordens profissionais, que hospitais,  que institutos públicos, que comunicação social, que eleitorado quer mesmo discutir, avaliar, decidir e mudar?

Mas mudar mesmo, a sério, de forma coerente, integrada e monitorizada?

Já Edmund Burke escrevia que “é um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentarem-se a favor do público sejam os mais preocupados com o seu bem-estar”.

E apesar deste escritor genial irlandês ter morrido no final do século XVIII (julgo que em 1797), a verdade é que o mundo, as pessoas e os políticos não mudaram assim tanto desde então.

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quarta-feira, 20 maio 2015 16:45

Rui Cernadas: é uma questão de tempo… Pouco!

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Sabe-se como a construção do SNS em Portugal se inspirou e embebeu no figurino inglês do NHS. É conhecido algum paralelismo e, lá e cá, reclamam-se algumas originalidades que, de facto, podem fazer grandes diferenças.

A verdade é que qualquer sistema, incluindo os públicos, carece de monitorização e de avaliação no tempo.

No NHS, por exemplo, discute-se hoje, mais do que o papel, a extensão da intervenção dos farmacêuticos, enquanto recursos qualificados e de proximidade, nos processos assistenciais em cuidados de saúde primários.

E a palavra essencial nessa ideia em desenvolvimento é confiança: confiança dos utentes na figura do farmacêutico, na sua acessibilidade e na identificação do discurso.

O plano, em síntese, é claro e radica no entendimento de que as farmácias, para além da vertente da comercialização, podem e devem ser autênticas unidades de saúde dispersas e com uma rede de cobertura nacional do território.

Ou seja, o trabalho aponta para a procura e definição de novos modelos para a farmácia e, se quiserem, de futuros modelos de dispensa de cuidados.

Partindo do princípio aceite de que a farmácia comunitária vai alterar o seu cenário de actuação – do medicamento para o doente e para os resultados em saúde – que a componente da sua intervenção implicaria… Vamos, portanto, e num prazo muito breve passar a ouvir falar da prestação da consulta farmacêutica.

Habituemo-nos.

Entretanto se é verdade que o paradigma da procura de cuidados se alterou, agora com uma crescente tendência do aumento das doenças crónicas e respectivas exacerbações ou complicações, em detrimento das situações agudas, é igualmente verdade que o envelhecimento populacional que se regista por toda a Europa Ocidental se associa a uma maior pressão sobre as necessidades e a despesa.

Porém diferentes doentes apresentam diferentes necessidades de saúde. E diferentes necessidades geram ou obrigam a diferentes carteiras de serviços.

Se os CSP não assimilarem este movimento, haverá maior espaço para a inovação fora deles e nas farmácias, nomeadamente.

Uma hipótese, por exemplo, seria a de se desenvolverem projectos de aplicação de protocolos específicos e de monitorização de parâmetros e/ou problema de saúde com estadiamento prévio dos utentes e acompanhamento farmacoterapêutico complementar pelas farmácias comunitárias.

Sempre numa intenção e perspectiva multidisciplinar e dinâmica, na qual efectivamente o doente seja mesmo o foco de atenção.

Os sistemas criam, normalmente, espaços não ocupados. No relacionamento longitudinal com as famílias e os utentes, há que suportar e transferir informação apropriada, em continuidade e integração de cuidados e, obviamente, respostas pontuais adequadas à gestão dos seus perfis, enquanto utentes e doentes. Respostas a questões como a adesão e o aconselhamento, a utilização dos cada vez mais variados “devices”, os efeitos adversos e as interacções medicamentosas, a polimedicação, os riscos da auto-medicação, os abandonos terapêuticos ou até a vigilância de parâmetros vitais ou biológicos, são caminhos que provavelmente se irão trilhar.

O acesso dos doentes à informação educativa e aos sistemas de informação em geral – plataforma dos dados em saúde (PDS) incluída – vai criar novas procuras e exigências.

Os médicos e os médicos de família em particular vão sofrer duramente essa pressão num contexto de oferta algo burocratizada, de índole nacional e universal, com constrangimentos relativos aos contratos programa, aos tempos de consulta e à organização de serviços.

As coisas mudaram depressa e mudam mesmo que achemos que não.

Sobretudo desde que a saúde passou a ser assumida como um bem de consumo, com enquadramentos idênticos aos de outras actividades, com livros de reclamações, com entidades reguladoras, agendas electrónicas e outras modernices que, afinal, não deram ainda pelo dever de contar com a individualidade de cada doente, com a compreensão de que cada doente não é apenas a sua doença!

Os farmacêuticos e as farmácias comunitárias, como os enfermeiros aliás já o são, poderão ser agentes relevantes na resposta global aos doentes dos serviços públicos e do SNS.

Vai ser inevitavelmente uma questão de tempo… Pouco!

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terça-feira, 05 maio 2015 17:00

Rui Cernadas: inquietudes

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Em momento algum da sua história, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi capaz de resolver a falta de médicos, especialmente, nos cuidados de saúde primários (CSP).

Vejam-se os SAP ou SASU (entre muitas outras designações utilizadas), criados e mantidos em muitos locais como forma de oferecer algum tipo de assistência aos milhões de contribuintes que então não podiam, mesmo, dispor de médicos de família!

O problema é que a memória é curta e são muitos os que por dá-cá-aquela-palha se apressam a opinar na primeira oportunidade, baralhando, como se todos quantos os rodeiam andassem distraídos.

Por exemplo, em zonas nas quais a garantia de médico de família está assegurada, como acontece, entre outros, em ACES totalmente reconfigurados em USF, nos quais todos os utentes têm o seu médico de família, excepto se por opção própria o não desejarem, a hipótese de encerramento do SAP ou similar, ou até a simples redução do horário de funcionamento, desencadeia de imediato uma tempestade de reclamações e protestos! Como se tal modelo de atendimento tivesse sido criado para outra coisa que não a da tentativa de dar resposta em clínica geral, avulsa e pontualmente, sem sequência, incoerente e sem continuidade.

A saída de profissionais médicos, designadamente da Medicina Geral e Familiar, resultou da conjugação de factores circunstanciais, embora expectáveis em função dos tempos.

O envelhecimento demográfico do país e das gerações mais antigas de médicos que verdadeiramente asseguraram ao país o serviço médico à periferia e por isso, em tempo, optaram livre e apaixonadamente por integrar a carreira médica de clínica geral e arrancar com os primeiros centros de saúde “a sério”, atingiram o limite de idade.

Outros, perto disso, optaram pelo pedido de antecipação da aposentação. Todos eles, como todos os portugueses, cansados de uma situação social, económica e financeira que conduziu o país e o seu povo a apertos de vária ordem.

Mesmo o recurso a soluções excepcionais no âmbito da Administração Pública, quanto à possibilidade de os médicos poderem prolongar a sua prestação no SNS para além do início da aposentação, tem tido alguma aderência por parte dos clínicos, mas provavelmente só a partir de agora – com condições mais atractivas e tempo parcial – poderemos perceber o impacto.

Tem sido recorrente um discurso catastrofista em relação ao SNS.

Não parece, ainda assim, que esse seja o cenário real ou sequer que seja o que a generalidade dos cidadãos vê.

A resposta pronta face ao surto de legionella, no final de 2014; o alargamento da isenção de taxas moderadoras a milhões de cidadãos e agora a todos os indivíduos em idade pediátrica (até aos 18 anos de idade); a resolução da questão em torno dos medicamentos inovadores para a hepatite C, ou para o tratamento da paramiloidose há algum tempo atrás, são alguns exemplos de como, ainda assim, o sistema está vivo e procura soluções.

Em todo o caso, como profissionais de saúde e cidadãos responsáveis, precisamos de estar particularmente atentos para não deixar escapar o momento em que se passa do fisiológico para o patológico… Mesmo que por vezes essa evolução seja muito insidiosa.

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You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade

No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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