Peritos alertam para a crescente sobremedicação da morte e pedem mais compaixão no fim de vida
DATA
01/02/2022 12:15:27
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Jornal Médico
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Peritos alertam para a crescente sobremedicação da morte e pedem mais compaixão no fim de vida

Os sistemas sociais e de saúde em todo o mundo “estão a falhar” ao não oferecer cuidados adequados e com maior compaixão às pessoas que estão a morrer e às suas famílias, indicou uma investigação publicada na revista Lancet.

Os peritos que conduziram este trabalho dizem que a atual ênfase excessiva em tratamentos agressivos para prolongar a vida, as vastas desigualdades globais no acesso a cuidados paliativos e os altos custos médicos no final da vida “levaram milhões de pessoas a sofrer desnecessariamente no fim da vida”.

Pedem, por isso, um maior equilíbrio nas atitudes públicas relativamente à morte e ao ato de morrer, longe da abordagem estreitamente medicalizada e em direção a um modelo comunitário com maior compaixão, “onde comunidades e famílias trabalhem com serviços de saúde e assistência social para cuidar das pessoas que estão a morrer”.

A comissão, que juntou especialistas em saúde e assistência social, ciências sociais, economia, filosofia, ciência política, teologia e trabalho comunitário, bem como doentes, analisou a forma como as sociedades de todo o mundo gerem a morte e os cuidados de pessoas que morrem, elaborando recomendações aos formuladores de políticas, governos, sociedade civil e sistemas de saúde e assistência social.

“A pandemia de COVID-19 viu muitas pessoas morrerem numa morte medicalizada, muitas vezes sozinhas, apenas na presença de funcionários protegidos por máscaras em hospitais e unidades de cuidados intensivos, incapazes de comunicarem com as suas famílias, exceto digitalmente”, adiantou a especialista em medicina paliativa e copresidente da comissão de peritos, Libby Sallnow.

Segundo o estudo publicado, a esperança de vida “aumentou de forma constante de 66,8 anos em 2000 para 73,4 anos em 2019. Contudo, as pessoas também vivem mais tempo com problemas de saúde, tendo igualmente aumentado de 8,6 (em 2000) para 10 (em 2019) o número de anos que se vive com doença”.

Lembra ainda que, antes da década de 1950, as mortes eram predominantemente resultado de uma doença ou lesão aguda, com baixo envolvimento de médicos ou da tecnologia. Hoje, “a maioria das mortes são por doenças crónicas, com alto nível de envolvimento dos médicos e da tecnologia”, sublinham os investigadores.

Defendem também que, à medida que a saúde passou para o centro da questão, “famílias e comunidades foram cada vez mais alienadas”, reconhecendo que embora os cuidados paliativos tenham ganhado atenção como especialidade, “mais de metade de todas as mortes acontecem sem cuidados paliativos ou alívio da dor e as desigualdades sociais e de saúde persistem na morte”.

Frisaram ainda que as intervenções médicas geralmente continuam “até os últimos dias com atenção mínima ao sofrimento” e que a cultura médica, o medo de litígios e os incentivos financeiros “também contribuem para o tratamento excessivo no final da vida, alimentando ainda mais as mortes institucionais e a sensação de que são os profissionais [de saúde] que devem gerir a morte”.

Nos países mais ricos, entre 8% e 11,2% do gasto anual em saúde para toda a população foi aplicado nos menos de 1% que morreram naquele ano. “Os cuidados no último mês de vida são dispendiosos e, em países sem cobertura universal de saúde, podem ser uma causa de as famílias caírem na pobreza”, alude a investigação.

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.