Crónicas de uma pandemia anunciada
DATA
05/04/2021 09:17:22
AUTOR
Jornal Médico
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Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

Na primeira vaga, falou-se no “milagre português”. Agora, a esta distância, diria que a diferença não foi obra divina, mas competência e esforço dos profissionais de saúde, cheios da adrenalina, própria de situações que nos colocam em perigo, ao mesmo tempo que encontrámos uma população que confinou, com medo das imagens que chegavam da tragédia em Espanha e Itália. Os cuidados de saúde primários tiveram um papel fundamental na gestão dos cerca de 85% dos casos de doença ligeira ou assintomática, desafogando os hospitais para as situações mais graves.

O problema é que esta não era uma corrida de velocidade, mas sim os 10.000 metros barreiras. Os meses passaram. Chegou o verão, o outono, a segunda vaga e praticamente logo a seguir a terceira. Relaxámos no Natal, mas a “prenda” chegou no mês seguinte, com juros. Passámos de 3.000 novos casos e 70 mortos diários, para 12.000 novos casos e 300 mortos. Pior, dessensibilizámos para os números da mortalidade e 150 começou a não parecer assim tão mal, em proporção, fazendo quase cair no esquecimento que cada uma daquelas mortes representa alguém que sucumbiu à doença, alguém com família e amigos que neste momento estarão a sofrer pela perda de um ente querido. Passado quase um ano desde o início desta história, falta planeamento, falta conseguirmos prever o que poderá acontecer e que capacidade temos para dar resposta a este problema. Vamos vacinar a população, vamos fazer (e bem) mais testes rápidos para rastreio, inclusive nos doentes que se deslocam aos centros de saúde, se assim o desejarem. No entanto, contamos com o mesmo número de profissionais e equipas que se desdobram em cada vez mais tarefas burocráticas, Trace-Covid, acompanhamento dos utentes da sua lista, vacinação (nos lares e centros de vacinação), reforço das equipas de ADR, tudo isto a cargo dos mesmos que, já antes da pandemia, se encontravam sobrecarregados.

A verdade é que a COVID-19 é, provavelmente, apenas a ponta de um grande iceberg. Os utentes queixam-se – “agora é só COVID” – dizem. Os médicos e outros profissionais de saúde nunca se sentiram tão exaustos como agora. Tudo é urgente, de preferência para ontem e continuamos na corrida a pensar “é só mais este esforço”.

Investimento na saúde precisa-se, não só nos hospitais, mas também nos cuidados de saúde primários. É urgente criar condições para que os profissionais se possam sentir felizes e realizados no trabalho. Há pouco mais de dois meses era escrito na comunicação social que o Serviço Nacional de Saúde tinha perdido 842 médicos desde o início da pandemia, sendo que 476 resultavam de aposentações. Resta saber quantos mais ponderam sair após o fim da pandemia e quais as suas motivações. Será fundamental fazer um balanço e ouvir os profissionais. Perceber as suas preocupações, torná-los mais felizes e realizados, porque nem tudo depende única e exclusivamente de uma questão financeira.

Há lições que poderemos tirar desta nova forma de viver e de cuidar da saúde dos nossos tempos. Aprender a planear, a antecipar o plano A ou B. Podemos continuar a acreditar que é possível fazer melhor. Talvez tenhamos de reajustar a agenda médica, contemplando contactos presenciais e outros por via telefónica por não necessitarem de uma visita presencial. Retirar o melhor desta experiência e aplicar num futuro que se espera breve e mais feliz.

Estamos todos no mesmo barco e precisamos todos de remar na mesma direção para chegar a bom porto. Pela saúde de todos e pela nossa sanidade mental também!

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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