Estudos recentes evidenciam o potencial da capsaícina na modificação da dor neuropática localizada
DATA
29/03/2021 09:14:54
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Jornal Médico
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Estudos recentes evidenciam o potencial da capsaícina na modificação da dor neuropática localizada

No âmbito do 28.º Congresso de Medicina da Dor – ASTOR 2021, decorreu o simpósio “Qutenza: do alívio da dor à modificação da doença”, promovido pela Grünenthal.  Moderado por Beatriz Craveiro Lopes, anestesiologista no Hospital da Cruz Vermelha, contou com a intervenção de Dalila Veiga, anestesiologista na Unidade da Dor do Centro Hospitalar e Universitário do Porto. Nesta sessão, foram apresentadas evidências recentes que suportam o papel da capsaícina enquanto agente modificador da dor neuropática localizada.

 

Começando por introduzir alguns conceitos no contexto da dor neuropática, a médica anestesiologista Dalila Veiga explicou que esta “é derivada de uma lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial, de origem central ou periférica que, quando limitada a uma zona do corpo bem definida, pode ser subclassificada como dor neuropática localizada”.

“A dor neuropática global tem uma prevalência global de 7-10%, embora este valor possa estar subestimado, uma vez que tende a ser muitas vezes subdiagnosticada”, prosseguiu. “Com efeito”, alertou, “se os médicos não forem proativos no rastreio e procura da componente neuropática, esta pode passar despercebida, afetando significativamente a funcionalidade e qualidade de vida do doente”. Acrescentou, a propósito, que, “muitas vezes, as terapêuticas disponíveis têm resultados clínicos insuficientes e efeitos adversos associados que dificultam as adesões terapêuticas e se associam a piores prognósticos”.

Em função da etiologia, a componente localizada pode perfazer até 60% da dor periférica, como no caso da dor neuropática diabética. “Assim”, frisou, “é muito importante a identificação desta componente da dor para orientar melhor o doente em relação à terapêutica a seguir e, consequentemente, melhorar o seu prognóstico”.

Qutenza® é um adesivo cutâneo que contém 179 mg de capsaícina e está indicado para o tratamento da dor neuropática periférica em adultos, isoladamente ou em associação com outros medicamentos para o tratamento da dor. A dor neuropática periférica localizada pode ter várias etiologias, como diabética, pós-cirúrgica, pós-herpética, oncológica, entre outras.

Em seguida, a especialista explorou as últimas evidências sobre o uso da capsaícina na modificação da doença. O primeiro estudo a que se referiu (Anand et al; Journal of Pain Research; 2019) procurou avaliar a sua eficácia analgésica através de questionários clínicos, e a sua eficácia na regeneração nervosa ou no restabelecimento do fenótipo das fibras nervosas disfuncionais em doentes com neuropatia periférica induzida por quimioterapia há mais de três meses, por meio de biopsias cutâneas.

Quanto à eficácia analgésica, verificou-se uma redução estatisticamente significativa nas escalas de dor espontânea, na dor invocada pelo toque e invocada pelo frio. O questionário concebido para avaliar a dor neuropática também revelou uma redução estatisticamente significativa nos sintomas relacionados com a dor contínua, dor neuropática e dor global.

O último estudo citado (Privitera et al; Journal of Pain Research; 2017) procurou avaliar a eficácia do adesivo de 179 mg de capsaícina no tratamento de doentes com dor do coto de amputação ou dor fantasma com score na escala numérica > 4. Além da eficácia analgésica, este estudo teve como endpoint as alterações produzidas ao nível dos mapas cerebrais observados por via de ressonância magnética funcional (RMf).

Quanto à avaliação da analgesia, verificou-se uma redução estatisticamente significativa, quer na dor espontânea e coto de amputação, quer na dor evocada do coto e na dor fantasma. Observaram-se também diferenças estatisticamente significativas nos descritores de dor contínua, nos descritores de dor intermitente e descritores de dor neuropática. “Do ponto de vista clínico, observaram-se ainda reduções significativas nas áreas de alodinia estática, dinâmica e de hiperalgesia, o que é especialmente relevante na medida em que pode melhorar a funcionalidade e vida dos doentes elegíveis ao uso de próteses”, acrescentou.

Já a avaliação dos mapas cerebrais por RMf revelou uma diminuição da estimulação cortical de áreas adjacentes à área correspondente ao membro amputado, o que, por sua vez, se reveste de especial importância enquanto proof of concept da modulação central a partir de estímulos periféricos.

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Editorial | Jornal Médico
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