Dermatologia & MGF: Como conseguir uma referenciação adaptada à prioridade clínica de cada doente?
DATA
11/11/2020 15:17:05
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Jornal Médico
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Dermatologia & MGF: Como conseguir uma referenciação adaptada à prioridade clínica de cada doente?

A questão deu o mote para o terceiro workshop do Derma Innovation Summit, onde a parceria entre Dermatologia e Medicina Geral e Familiar (MGF) procurou responder com soluções inovadoras. A definição de critérios de urgência e de prioridade para referenciação foi uma das ideias defendidas, assim como a importância do Registo Nacional de Doentes Dermatológicos “como um caminho para o futuro e uma afirmação epidemiológica da patologia dermatológica em Portugal”.

“Tendo em conta a formação deficitária na área da Dermatologia, tanto no ensino pré, como no pós-graduado, a formação online ou através de uma aplicação intuitiva – e até divertida – poderá ser uma medida fácil de incorporar na realidade portuguesa, no sentido de melhorar a articulação entre Dermatologia e MGF”.

De acordo com Paulo Morais, dermatologista e cofacilitador do workshop Speeding Up Connections – from GPs to Dermatologists”, esta foi uma das muitas ideias que surgiram através da adoção da metodologia de design thinking, com vista à melhoria da referenciação do doente dermatológico entre estas duas especialidades médicas.

O conjunto destas patologias é relevante na procura dos cuidados de saúde primários (CSP), pelo que “mais formação e treino médico regular na área da Dermatologia para a MGF precisa-se, quer para o diagnóstico, quer para a orientação terapêutica das patologias dermatológicas mais comuns”, destacou igualmente Rui Cernadas, especialista de MGF que cofacilitou este workshop, acrescentando que “a referenciação é uma questão que pode parecer estar a jusante do problema, mas que acaba por ser realmente o motor de partida para a entrada dos doentes na consulta de Dermatologia”.

O painel refletiu sobre o verdadeiro significado de referenciação, desde logo, a distinção entre teleconsulta e telerreferenciação. Em concreto, a análise das experiências de teledermatologia, por exemplo na região Norte e no Grande Porto, com mais de 10 anos de evolução, foram invocadas, apontando-se os problemas técnicos ligados a estruturas de ligação e ao hardware, muitas vezes obsoleto, ou a menor adesão dos doentes ao modelo como pontos negativos.

Importância do Registo Nacional de Doentes Dermatológicos

Neste workshop, houve ainda espaço para a discussão de outros aspetos relevantes na ótica dos especialistas. A saber: “A desvalorização do diagnóstico dermatológico – sublinhada pelas associações de doentes na fase inicial da Summit – por parte de colegas da MGF, mas também do próprio SNS, o que não só atrasa a referenciação, como contribui para um não-reconhecimento da importância da Dermatologia enquanto processo assistencial”, sublinhou Rui Cernadas.

Foi neste sentido, adiantou, que a implementação efetiva do Registo Nacional de Doentes Dermatológicos foi apontada como importante ou, nas palavras do médico de família, “como um caminho para o futuro e uma afirmação epidemiológica da patologia dermatológica em Portugal”. O exemplo da Reumatologia foi apontado neste contexto, salientando-se as “vantagens enormes, nomeadamente em cenários como o da pandemia, permitindo aos clínicos e aos doentes um apoio continuado e mais seguro em matéria de exacerbações, prescrições, efeitos secundários e follow-up”.

A referenciação na Dermatologia não pode deixar de considerar, ainda, a pequena dimensão em número de especialistas e a assimetria que o país apresenta o que, no entender dos especialistas, abre portas para a discussão de uma resposta pública ou privada, um pouco como acontece com outros sistemas convencionados, como por exemplo com as análises clínicas, Radiologia ou Fisiatria. A este propósito, diz Rui Cernadas, “uma parceria entre sistema público e privado para uma mais rápida avaliação do doente com patologia dermatológica deveria ser equacionada, no limite num sistema de tipo convencionado. Esta medida face à escassez de respostas públicas e à assimetria na distribuição dos dermatologistas pelo território nacional parece uma saída robusta”.

O impacto das start-ups em soluções inovadoras de futuro

O desenvolvimento de apps/ferramentas tecnológicas que permitam uma triagem e orientação mais eficiente e rápida do doente, capazes de através da análise de uma imagem ou de um exame, por exemplo, avaliar e decidir por que especialista o doente deve ser observado, se pelo dermatologista ou pelo médico de família) foi uma das muitas soluções apontadas para a melhoria da referenciação entre especialidades médicas.

Entre as principais propostas figurou, também, a criação de uma base de dados de “aulas” permanente de Dermatologia dirigidas a MGF que estes especialistas possam consultar, integrada na plataforma da Novartis, por exemplo.

“Foi amplamente sugerida a existência de um dermatologista associado a um centro de saúde ou a um agrupamento de centros de saúde (ACES), que de forma regular, presencial ou de forma virtual, discuta e ajude a orientar os casos dermatológicos mais complexos”, adiantou Paulo Morais, referindo-se às conclusões apontadas neste workshop (ver caixa).

Para Óscar Ribeiro, da Novartis, “as start-ups made in Portugal, com as quais a companhia já tem uma vasta experiência de trabalho, têm sido verdadeiramente inspiradoras para a comunidade médica, pela sua capacidade de reconhecer as dificuldades do sistema e nunca desistir da procura de soluções”.

O responsável da Unidade de Imunologia, Hepatologia e Dermatologia na Novartis lembrou que “a visão da Novartis é a de contribuirmos para reimaginar a Medicina e fazemo-lo através da inovação em novos produtos, novas moléculas, novas armas terapêuticas, mas não só… Temos uma visão muito mais ampla e queremos contribuir para que a comunidade médica consiga estar mais perto dos doentes, consiga colocar o doente no centro da sua intervenção”. Enquanto companhia, “pretendemos contribuir para que, nessa equação de saúde tão complexa, tenhamos a capacidade de colocar o doente no centro do sistema e que encontremos os serviços necessários – que têm necessariamente que ser muito inovadores – para que a qualidade da prestação da Medicina aumente”, adiantou.

Neste sentido, Óscar Ribeiro disse imaginar um futuro com o doente no centro do sistema, com maior proximidade do dermatologista ao seu doente e com apoio de diferentes profissionais no tratamento da doença dermatológica.

De acordo com Ana Rodrigues Martins, da Novartis, “os dermatologistas vêm nas start-ups apresentadas uma grande aplicabilidade” e, no seu entender, “a companhia já demonstrou estar disponível e ativamente envolvida no estabelecimento de uma relação de futuro melhor para a Dermatologia, desde logo através desta parceria com start-ups que nos podem ajudar a fazer a diferença”. No que diz respeito ao futuro da Dermatologia, Ana Rodrigues Martins diz imaginar uma especialidade “muito focada na IA para apoio à decisão diagnóstica, cada vez mais próxima do doente e mais focada em outcomes capazes de fazer a diferença na vida do doente”, bem como um especialista “com mais tempo para se focar naquilo para si é o mais importante: observar o doente e focar-se na prática clínica (sem perder tempo com aspetos burocráticos”. Na Novartis, adiantou, “queremos que este futuro se torne uma realidade o mais rapidamente possível”.

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MED/299/112020

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
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Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

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