Doente do futuro: Um doente com maior necessidade de proximidade
DATA
11/11/2020 15:24:44
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Jornal Médico
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Doente do futuro: Um doente com maior necessidade de proximidade

Os dermatologistas Ana Brasileiro e Tiago Torres foram os facilitadores do workshop “Doente do futuro”, onde o foco recaiu sobre as necessidades das pessoas que sofrem de patologias dermatológicas, plasmadas na apresentação feita pela Communications & Patient Advocacy Head da Novartis Portugal, Patrícia Adegas, no âmbito do Derma Innovation Summit. Entre as principais lacunas a colmatar contam-se a acessibilidade e a proximidade ao médico, que a tecnologia, as apps, a robótica e a inteligência artificial (IA) certamente vão permitir tornar mais eficientes e céleres.

Os participantes no workshop “Doente do futuro” concentraram-se nas necessidades dos doentes, partilhadas pelos próprios no Derma Innovation Summit, para reimaginarem um futuro com respostas concretas e eficazes para os problemas do presente.

“O doente quer ser mais e melhor informado e entende que a sociedade também deve estar mais informada sobre a sua doença; quer que essa informação provenha de fontes confiáveis – e não do Google ou do Facebook – e validadas pelos médicos; e pretende, ainda, sentir-se mais envolvido na gestão da sua doença”, explica o dermatologista do Centro Hospitalar Universitário do Porto, Tiago Torres, ressalvando que “maior envolvimento implica maior responsabilidade”.

De acordo com o também professor e investigador do ICBAS, o desafio que ocupou grande parte da reflexão neste workshop foi o de tentar encontrar soluções para estreitar o contacto entre médico e doente entre consultas. Até porque, acredita, é precisamente neste ponto que a tecnologia pode fazer a diferença. “Encontrar formas de contacto-extra que não roubem mais tempo aos médicos é um desafio grande. Percebemos que a tecnologia nos pode ajudar, mas que a tecnologia que teremos daqui a 10 anos provavelmente poderá ajudar-nos muito mais”, salienta o especialista.

A IA foi uma das soluções identificadas como potencialmente facilitadora deste contacto-extra, “não substituindo o médico, mas triando o trabalho deste profissional”, diz Tiago Torres, frisando que num futuro próximo poderá ser possível recorrer a vários tipos de telerreferenciação e “chegar” aos doentes sem roubar mais tempo aos médicos através, por exemplo, de hologramas, cyborgs ou outros modelos tecnológicos.

“Acreditamos que o papel do médico no contacto com o doente vai continuar a ser fundamental. Acreditamos também que o doente que tem uma forma grave de doença vai querer um contacto mais ‘apertado’ com o médico e a tecnologia vai-nos ajudar a ultrapassar a dificuldade da demora no acesso”, destaca o médico, que acredita que “um dos maiores desafios da inovação em Dermatologia – tal como em várias áreas da Medicina – é como lidar com os avanços tecnológicos na relação médico-doente. Não há dúvida que a tecnologia pode ser um grande aliado, mas sem ameaçar a relação médico-doente”.

Em relação ao futuro da especialidade, o dermatologista mostra-se “otimista”, antevendo um futuro “positivo”. Tiago Torres diz crer que “a Dermatologia terá a capacidade de evoluir e de aproveitar da melhor forma toda a inovação e evolução tecnológica, mantendo o equilíbrio entre inovação, tecnologia e relação humana com o doente”. E sublinha: “Sendo a parceira que sempre foi – ambiciosa e inovadora –, a Novartis poderá ser um enorme aliado neste caminho. Esta companhia já nos habituou a eventos diferentes e inovadores. Este foi um evento ambicioso, muito interativo e do qual surgiram muitas ideias que eu acredito que num futuro próximo poderão dar frutos”.

 

Médicos devem envolver-se no desenho de um futuro mais digital

A ideia deste evento como “altamente inovador” foi partilhada pela colega de especialidade Ana Brasileiro, que afirma “não estar habituada a ir a congressos onde o ponto de partida para o debate são as necessidades dos doentes”.

Segundo a dermatologista, “os médicos estão habituados apenas a ver doentes e a discutir casos clínicos, guidelines, tratamentos ou novos artigos de investigação. Não estamos habituados a abordar estes processos em saúde. E considero que o melhor que este workshop nos trouxe foi perceber que estes processos em saúde se repercutem na nossa prática clínica diária.”.

Assim sendo, a especialista defende um maior envolvimento dos médicos “no desenho de um futuro mais digital e com soluções mais integradas”, até porque o doente do futuro será, no seu entender, “um paciente  com mais necessidade de proximidade, que vai querer uma relação mais estreita com o médico, vai querer expor questões de forma cada vez mais imediata, através de meios cada vez mais tecnológicos, sejam apps, envio de fotos, ou outras”.

Neste workshop foi, assim, sugerida “a criação de uma ferramenta que permita melhorar este acesso por parte do doente, sem ‘infernizar’ ainda mais a vida já complicada do médico. Uma ferramenta que filtrasse e triasse todos os pedidos que nos chegam”, destaca Ana Brasileiro.

O doente do futuro aprendeu que em certas situações pode ter ajuda do dermatologista sem consulta presencial

"A pandemia atual veio colocar novos desafios, quer ao doente, quer ao médico dermatologista. Repentinamente, não nos foi possível observar doentes presencialmente, mas os doentes e as doenças não desapareceram. O doente do futuro aprendeu que em muitas situações pode ter ajuda do dermatologista sem uma consulta presencial".

Quem o diz é a dermatologista Martinha Henrique, a propósito da sua participação no workshop “Doente do futuro”, defendendo a ideia de que “sendo a Dermatologia uma especialidade em que a imagem associada a uma história clínica pode ser suficiente para um diagnóstico, a teleconsulta em tempo real, ou em diferido, pode ser uma ajuda preciosa”.

No atual contexto, avança a especialista, “o contacto telefónico ou por email aos nossos doentes para dar resultados de exames, para monitorizar a evolução e tratamento, foram fundamentais e ajudaram a não perder a relação médico-doente, basilar na nossa profissão médica”. Assim, advoga, “o doente do futuro quer ter acesso a uma consulta atempadamente para resolução do seu problema, estando mais aberto a novas formas de consulta, mas também exigindo ter uma consulta presencial sempre que necessário.”

De acordo com Martinha Henrique, essa resposta “pode ser direta, por via da resolução da necessidade clínica do doente, mas também indireta, através das inúmeras aplicações digitais que vão surgindo e que podem ajudar a caraterizar melhor o doente e a sua doença”.

A inovação tecnológica “vai ter certamente um papel fundamental na Medicina e, mais concretamente, na Dermatologia do futuro”, conclui.

cristina campos

MED/297/112020

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