“A inovação já cá está! Aos médicos cabe aceitá-la, abraçá-la e desenvolvê-la”
DATA
11/11/2020 15:20:27
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS




“A inovação já cá está! Aos médicos cabe aceitá-la, abraçá-la e desenvolvê-la”

Estas palavras, proferidas pelo diretor do serviço de Dermatologia do Hospital Santa Creu i Sant Pau (Barcelona), Luis Puig, deram início ao Derma Innovation Summit, um encontro online promovido recentemente pela Novartis, com o objetivo de pensar a Dermatologia do futuro.

Numa apresentação intitulada “Dermatology 2.0: Let’s embrace Innovation!”, que pretendeu lançar as bases para a discussão no workshop Clínica do futuro, o professor da Universidade Autónoma de Barcelona abordou o advento da inovação tecnológica – como algoritmos diagnósticos, apps de apoio à decisão clínica, big data e inteligência artificial (IA) – no exercício da Dermatologia.

“Há várias formas de aplicação da IA à Dermatologia e estas podem melhorar a rapidez do diagnóstico, ao mesmo tempo que exigem mais profissionais para integrar a análise. É o caso dos algoritmos e networks neurais no diagnóstico do cancro da pele, que permitem uma redução do erro diagnóstico, mas continuando a decisão diagnóstica a depender do dermatopatologista”, disse o especialista.

“A IA nunca irá substituir o trabalho médico. Pelo contrário, os médicos vão poder concentrar-se mais em tarefas essencialmente clínicas, deixando de lado as tarefas burocráticas que atualmente consomem parte do seu tempo, assumirão até novos papéis e tarefas – com primazia das competências emocionais e sociais – e terão um papel mais de consultores”, acrescentou Puig.

Questionado pelo colega português Rui Tavares Bello sobre se a inovação tecnológica “não poderá configurar ruído a mais na prática clínica dos dermatologistas”, o dermatologista de Barcelona sublinhou que “este tipo de inovação não representa mais trabalho para o médico, mas antes um conjunto de ferramentas facilitadoras e de agilização desse trabalho, de forma a torná-lo mais eficiente”.

No que diz respeito à teledermatologia, Puig frisou que esta “não é IA, mas sim e somente uma ferramenta de acessibilidade e de follow-up, não tendo nada que ver com melhoria de outcomes ou com literacia/empoderamento do doente”.

Por sua vez, Pedro Mendes Bastos, dermatologista da CUF, quis saber quais as competências/formações que, no entender do professor Puig, os dermatologistas devem melhorar e treinar para estarem melhor preparados para o futuro. Puig respondeu que “nem todos nos vamos tornar profissionais de big data, pelo que acredito que as skills a melhorar são as de interação social/emocional, empoderamento dos doentes e de comunicação – porque não há app que venha a conseguir substituir essa nossa vertente humana”.

“Nada sobre nós, sem nós”: A voz aos doentes

Partindo deste mote, a Communications & Patient Advocacy Head da Novartis Portugal, Patrícia Adegas, partilhou a perspetiva do doente e das associações de doentes e de cuidadores que, no seu entender, “são uma força que molda o ambiente de saúde de hoje, em todos os pontos de decisão”.

O objetivo, no contexto do Derma Innovation Summit, foi o de que a voz do doente contribuísse para a discussão que se seguiu durante os workshops, e que dela pudessem nascer ideias a implementar “com e para benefício dos doentes”, no plano do que será o doente do futuro.

De acordo com a responsável, a relação da Novartis com a comunidade de doentes e cuidadores tem como objetivo principal “impactar positivamente os resultados de saúde”. É desiderato da companhia “criar parcerias de longo prazo, baseadas em objetivos comuns. As contribuições e os pontos de vista que ganhamos com este trabalho tornam-nos melhores em tudo o que fazemos, desde o desenvolvimento dos nossos ensaios clínicos, até à forma como colocamos os nossos medicamentos no mercado, como comunicamos para a sociedade, como nos envolvemos com a comunidade de saúde”. Porque “as pessoas – por detrás dos números e das estatísticas dos estudos –, as suas motivações, as suas esperanças, os seus medos podem trazer-nos novas perspetivas sobre como a nossa inovação afeta a qualidade de vida do doente e em que outras esferas da sua jornada nós podemos atuar para que o seu percurso seja mais eficaz”, esclareceu Patrícia Adegas, antes de partilhar com os participantes do Summit um vídeo onde representantes de quatro associações de doentes – Jaime Melancia (PSOPortugal), Joana Camilo (ADERMAP), Patrícia Silvério (APDHS) e Mónica Albuquerque (Futura Associação Portuguesa de Doentes de Urticária) – apontaram os principais desafios atuais e soluções futuras para uma gestão eficiente das suas patologias.

A saber e à cabeça: as dificuldades que os doentes sentem no diagnóstico e na gestão da doença, a par da falta de informação e da gestão não acompanhada dos primeiros sintomas, que acaba por prolongar a fase até ao diagnóstico. O desconhecimento e a subvalorização da patologia são outro dos pontos salientados pelos doentes, na medida em que, de um modo geral, as doenças de pele ainda continuam a ser encaradas como uma condição estética e não como doenças crónicas com impacto físico, psicológico e socioeconómico. Também a falta de reconhecimento das limitações causadas por estas doenças tem um impacto extremamente negativo para o doente, assim como a falta de equidade no acesso, sobretudo a consultas da especialidade, situação que se relaciona com a necessidade de uma melhor e mais rápida referenciação para a especialidade certa.

E onde é que os doentes dizem ser mais urgente atuar? Desde logo, na criação de uma plataforma de fácil acesso que sirva para esclarecimento de sinais e sintomas, mas também de sensibilização para a doença. A abordagem integrada e holística do doente e de todas as suas comorbilidades é outras das principais reivindicações dos doentes, que exigem ainda uma maior interdisciplinaridade e interação entre especialidades. Uma das sugestões mais criativas neste contexto é a da criação de uma figura – uma espécie de buddy – que possa ajudar o doente a gerir de forma integrada a sua saúde. O acompanhamento entre consultas é outro dos desafios que os doentes querem ver respondidos e, para tal, sugerem a criação de uma app ou de outra ferramenta que possa servir para fortalecer a relação e os contactos médico-doente entre consultas, permitindo que o doente se sinta mais seguro nas decisões e recomendações que lhe foram transmitidas pelo seu médico, nomeadamente no que diz respeito ao tratamento farmacológico. Na facilitação da gestão da doença, os doentes advogam, acima de tudo, tecnologias/ferramentas com benefício imediato e que sejam tangíveis.

“Quando refletimos com estes representantes dos doentes sobre o doente do futuro, todos referem que gostariam de se sentir verdadeiramente parceiros dos profissionais de saúde na partilha das suas dificuldades, na gestão da doença, mas também nas conquistas, porque afinal os resultados que ambos consigam alcançar são fruto de um trabalho de equipa”, salientou Patrícia Adegas.

De acordo com a responsável, “o doente do futuro será um doente mais informado, mais participativo, menos resignado, que exigirá maior proximidade e maior confiança com o seu médico, que será sempre o seu melhor aliado na busca contínua por uma melhor qualidade de vida”.

Maior capacitação digital dos médicos é fundamental”

Quem o diz é a fundadora e CEO da Tonic App, Daniela Seixas, que acredita ainda haver “um longo caminho a percorrer neste sentido, apesar de a pandemia de Covid-19 ter acelerado a digitalização do setor e ter aumentado a maturidade digital dos médicos”.

Mas, há o reverso da medalha: com a situação pandémica, “o digital na saúde está mais competitivo do que nunca”, pelo que “quem garantir elevada qualidade, agregação em vez de dispersão e diferenciação vencerá”, defende a também professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

Numa apresentação intitulada “Startups, Pharma and Derma: Partnering for a brighter tomorrow” – que serviu de catapulta para a discussão em torno da melhoria da referenciação entre médicos de família e dermatologistas – Daniela Seixas referiu que “agregar e curar os melhores recursos profissionais numa única aplicação” é a grande motivação da Tonic App e reconheceu que, neste âmbito, “tem sido um enorme desafio trabalhar a Dermatologia”, dadas as caraterísticas desta especialidade (poucos especialistas em número, a maioria trabalha isolada em consultório, múltiplas doenças crónicas de enorme complexidade e com tratamentos de longo prazo também eles complexos).

“Usar o digital para facilitar a vida dos dermatologistas é um desafio para a Tonic App”, concluiu Daniela Seixas, deixando a nota de que “o digital ainda não cumpriu a promessa de aumentar a eficiência dos cuidados de saúde”.

 Sem nomeMED/296/112020

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

Mais lidas