Paulo Pessanha: "Nós não tratamos números, tratamos pessoas”

Se a hipertensão arterial é conhecida por ser uma “doença silenciosa”, o papel do médico de família, pelo contrário, faz-se ouvir, no seu tratamento e no acompanhamento do doente. O especialista em Medicina Geral e Familiar e em Hipertensão Clínica, Paulo Pessanha, aborda os riscos associados à doença, a sua situação no país e a importância da adesão à terapêutica.

“O médico de família (MF) é o pivô, a pedra basilar, do controlo das doenças crónicas”, assumindo, portanto, um papel fundamental no acompanhamento do doente hipertenso.

Quem o diz é Paulo Pessanha, acrescentando que igualmente importantes são o envolvimento “do doente na sua doença” e a relação entre este e o médico. Assim, “informar os doentes dos perigos de ter a pressão arterial descontrolada” é um dos primeiros passos do tratamento, sendo o seguinte “convencê-los a aderir à terapêutica”, informando-os sobre os riscos associados. A falta de adesão à terapêutica é, aliás, um dos “grandes problemas” inerentes à hipertensão arterial (HTA), afirma.

A HTA é uma doença silenciosa que afeta mais de 40% da população portuguesa e, habitualmente, não dá quaisquer sintomas. Os doentes descuram a terapêutica (farmacológica e não farmacológica), porque “se sentem bem”, contudo, “muitas vezes, a primeira manifestação da HTA é a morte: enfarte agudo do miocárdio (EAM), hemorragia cerebral fatal, ou acidente isquémico fatal”.

A principal causa de morte, em Portugal, é o AVC, sendo a HTA o fator de risco mais importante. “Daí, insistirmos muito no seu tratamento e controlo”, justifica, referindo que o MF tem a vantagem de conhecer o ambiente familiar do doente, o que se pode tornar uma mais valia adesão ao tratamento. Considera ainda que o esforço que tem vindo a ser feito no controlo da tensão arterial e de outros fatores de risco cardiovasculares, como o colesterol, a diabetes, a obesidade e o sedentarismo, tem surtido “algum efeito”.

“O grande problema da HTA não controlada deve-se, sobretudo, à fraca adesão à terapêutica dos doentes”. Existem medicamentos “altamente eficazes” como os modeladores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (IECAs e ARAs), os diuréticos e os antagonistas do cálcio que, habitualmente em associação, “controlam convenientemente a grande maioria das situações”.

Uma das estratégias apontadas para aumentar a adesão passa pela simplificação do tratamento, para a qual contribuíram a evolução em termos de investigação e o desenvolvimento farmacológico, tornando possível a existência de um comprimido com dois ou três princípios ativos distintos. Neste sentido, apesar de não se ter assistido, nos últimos anos, a novidades terapêuticas, no que concerne aos princípios ativos, houve uma “inovação dentro das próprias classes” e uma simplificação do regime posológico dos medicamentos com o advento das associações fixas, aumentando, consequentemente, a adesão. “Hoje em dia, dentro da mesma classe terapêutica já existe, por exemplo, um medicamento que dá para 24 horas”, reforça o especialista. Paulo Pessanha destaca as mais-valias das associações fixas, porque “quanto mais simples o esquema posológico, melhor o doente adere à terapêutica”, sublinhando que “quando se medica para a tensão arterial, medica-se para a vida toda”.

Fundamental é o diagnóstico correto do doente, estando aconselhado fazer-se uma monitorização ambulatória da pressão arterial, 24 horas (MAPA). Este exame é visto como o “gold standard” para o diagnóstico da hipertensão, permitindo confirmar, ou não, a sua presença. É também necessário identificar causas secundárias de HTA, nomeadamente, renal, endócrina, vascular, ou outra, as quais representam cerca de 10% dos casos. Excluídas estas hipóteses e confirmada a doença, deve iniciar-se a terapêutica “o mais rápido possível”.

“O nosso objetivo primordial é diminuir a morbilidade e a mortalidade, causadas pela hipertensão, evitando o impacto negativo da mesma, a nível do coração, do cérebro, da retina e dos rins, considerados os órgãos alvo desta patologia”, defende.

A este respeito, o médico advoga: “Nós não tratamos números, tratamos pessoas, procurando impedir que haja atingimento destes órgãos e eventual morte pela sua degradação”.

Numa referência às implicações da pandemia de Covid-19, que levou à desmarcação de consultas, conta que continuou a ligar aos seus doentes para “saber se estavam bem” e se precisavam de medicação. Contudo, mesmo no pós-Estado de Emergência e com o reagendamento das consultas, os doentes mantêm o receio em comparecer, o que implica “evidentes consequências nefastas” para a sua saúde.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
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Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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