Mortalidade subiu 8% face ao espectável nas primeiras seis semanas de desconfinamento
DATA
18/06/2020 14:57:24
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Jornal Médico
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Mortalidade subiu 8% face ao espectável nas primeiras seis semanas de desconfinamento

Nas primeiras seis semanas do desconfinamento, entre 3 de maio e 13 de junho, morreram em Portugal 11.124 pessoas, mais 807 do que “seria de esperar nesse período”, de acordo com o Barómetro Covid-19, que teve em consideração a mortalidade dos últimos seis anos.

Trata-se de um aumento de 8%, face às 10.317 mortes espectáveis, avança a Escola Nacional de Saúde Pública, responsável pelo estudo, que revela que, na última semana, os óbitos desceram para o valor que seria de esperar para esta época do ano.

De acordo com o Barómetro Covid-19, “195 (2%) dos 11.124 óbitos a mais são considerados excesso de mortalidade, porque ultrapassam o limite da média de óbitos nos últimos seis anos mais 2 desvios padrão”, tendo existido um pico de mortalidade entre os dias 24 e 31 de maio.

Durante o período em análise, observaram-se 474 mortes (4%) por Covid-19 e 10 650 (96%) por outras causas naturais. 

Se não tivesse havido mortes relacionadas com a doença provocada pelo novo coronavírus, ter-se-iam verificado 333 (3%) óbitos acima do que seria de esperar, com base na média dos últimos seis anos. 

“No entanto, este valor não pode ser considerado como excesso de mortalidade, porque não atinge o limite da média dos últimos seis anos mais dois desvios padrão, ou seja, está dentro dos limites da variabilidade anual dos óbitos em Portugal. O excesso de mortalidade só se verifica quando se contabilizam os 474 óbitos por Covid-19”, explica a Escola Nacional de Saúde Pública.

Em comunicado, é ainda esclarecido que 474 (41%) dos 807 óbitos que se registaram a mais do que a média dos últimos seis anos, foram causados por outras causas naturais que não a Covid-19, às quais a instituição dá o nome de “mortes colaterais”, mas sobre as quais não conhece as causas, uma vez que “os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde não permitem fazer análises por grupos diagnósticos mais detalhados”.

O barómetro ressalva, contudo, que a hipótese de que um grande número destes óbitos possa ter sido causado pela Covid-19, mas não terem sido classificados como tal, é “pouco provável”.

“Em Portugal, e durante este período, vigorou uma política de testagem muito ampla, incluindo testes a pessoas que morreram em casa e a aceitação de um diagnóstico clínico de Covid-19 relativamente abrangente, mesmo sem confirmação laboratorial”, consolida.

Por outro lado, o estudo considera que a possibilidade de o aumento de mortalidade verificado possa estar associado a casos de doença aguda grave que não procuraram os serviços de saúde atempadamente, ou que não foram adequadamente atendidos pelos mesmos, “parece pouco provável”.

Esta posição é justificada com o facto de, no último mês e meio “os serviços de urgência, incluindo as unidades de cuidados intensivos, estavam bem abaixo do nível de saturação e já se verificavam alguns sinais de retoma da atividade assistencial (consultas, exames, cirurgias, etc…)”.

Uma das possibilidades que pode explicar as referidas mortes, de acordo com a Escola Nacional de Saúde Pública, serão os casos de doença crónica grave cujo diagnóstico e tratamento possam ter sido adiados devido à pandemia, “porque os doentes evitaram procurar os serviços, ou porque as listas de espera adiaram os diagnósticos e tratamentos para além do prazo em que poderiam ter sido efetivos”.

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Editorial | Jornal Médico
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