Especialista analisa dermatite atópica e outros eczemas na web
DATA
29/05/2020 10:53:44
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Jornal Médico
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Especialista analisa dermatite atópica e outros eczemas na web

A dermatite atópica (DA) e outros eczemas estiveram em destaque, numa conversa na web promovida pelo Jornal Médico, no dia 28 de maio, que contou com a presença do especialista em Dermatologia e Venereologia Pedro Mendes Bastos.

Também consultor científico da Associação Dermatite Atópica Portugal (ADERMAP) e investigador em ensaios clínicos em doenças dermatológicas imunomediadas, Pedro Mendes Bastos abordou o diagnóstico e a terapêutica de alguns eczemas, no contexto pandémico.

Numa breve introdução, relembrou que, clinicamente, o eczema caracteriza-se por lesões eritematosas, por vezes, com edema, em que se pode observar pápulas e também fenómenos de liquenificação, sendo, geralmente, sintomático.

Ainda neste ponto, ressalvou que o que se observa na pele dos doentes varia, consoante se esteja perante eczemas agudos, subagudos ou já em fase crónica.

Dentro do espectro dos eczemas, o dermatologista centrou a sua apresentação em três: a dermatite atópica (DA), a dermatite seborreica e o eczema asteatótico, sendo todos eles de causa endógena, embora sejam “sujeitos a agravamentos, devido a fatores externos”.

“A DA é uma doença que tem tido uma maior visibilidade, nos últimos tempos”, afirmou o médico, acrescentando que esta é “a doença inflamatória da pele mais frequente, em todo o mundo”, apesar de estar, em muitos casos, sub-diagnosticada e sub-tratada.

No que concerne à terapêutica, admite que a doença esteve “alguns anos fora das luzes da ribalta”, mas considera que se está a assistir, atualmente, a uma “revolução terapêutica na DA”, que permite tratar cada vez mais doentes, sobretudo, nas formas graves.

“Nós sabemos que, dos doentes com DA, a grande maioria tem uma história familiar, de atopia”, revela, explicando que se trata de uma tendência para desenvolver entidades como DA, rinite alérgica, asma e alergia alimentar, apesar de todas serem “fundamentalmente diferentes”.

Neste tipo de eczema – DA – Pedro Mendes Bastos, com base num estudo recente, refere que existe uma disfunção de barreira: “A epiderme e a derme destes doentes não funcionam de uma forma normal, e existem mutações genéticas pontuais, a nível de constituintes e a pele não se consegue defender, adequadamente, do exterior”.

Existem, pois, consequências associadas, nomeadamente, a perda de água transepidérmica muito importante, e a entrada na pele de componentes exteriores, que podem desencadear a inflamação, fundamentalmente, da dermo.

“Paralelamente a estas mutações genéticas a nível estrutural da pele, existem algumas mutações genéticas, a nível imunológico, e, portanto, estes doentes têm um perfil do tipo Th2, a nível de inflamação da pele”, salientou.

Frisou ainda que a dermatite atópica, na sua essência, não é uma alergia. “De acordo com o entendimento atual, nós percecionamos a dermatite atópica como a porta de entrada para aquilo que hoje chamamos de marcha atópica”, indicou. 

Numa mensagem dirigida aos médicos de família e pediatras, o dermatologista fala da terapêutica aconselhada no caso das DA ligeiras.

Partindo do problema de barreira cutânea, aponta como fundamental otimizá-la, através do uso de roupa de algodão, de banho adequado – rápidos e sem produtos agressivos – e a utilização de emolientes adequados (bálsamos > creme > leite).

No caso de lesões de eczema poderá recorrer-se à terapêutica anti-inflamatória, através de dermocorticóides ou inibidores da calcineurina, como é exemplo a tacrolímus pomada.

Descrevendo já a dermatite seborreica, Pedro Mendes Bastos, lembra que esta é “extremamente prevalente” na população, e que envolve, predominantemente, as áreas seborreicas da pele – couro cabeludo, face e tronco – e que, mais raramente, pode atingir pregas.

Em termos de terapêutica, no caso do couro cabeludo, a utilização de champôs – enquanto produtos não medicamentosos auxiliares do tratamento – pode ser “bastante útil”, existindo vários laboratórios e formulações, contendo piritionato de zinco, sulfeto de selénio, setoconazol, derivados do alcatrão, dlimbazol, piroctona olamina, ácido salicílico e lactato de amónio. Nas situações em que existe “muita irritação”, nesta zona, colocou a opção de uma solução com dermocorticóide e, ou, ácido salicílico.

Na face e tronco, os exemplos apresentados foram de hidratante “oil-free”, dermocosméticos com antifúngicos tópicos e champô como gel de banho, enquanto, nas situações de crise, se pode recorrer a dermocorticóide – “potência fraca a moderada, ciclos curtos, evitar face” – e a antifúngicos.

Ainda no âmbito da dermatite seborreica, houve espaço para falar da idade pediátrica, uma vez que esta é “muito típica” nos primeiros três meses de vida.

“Aqui, a mensagem [para os pais] é: calma. É uma situação, normalmente, transitória, não vale a pena ficarmos stressados, normalmente, o bebé está perfeitamente assintomático”, defende, sustentando que resulta de uma adaptação ao microbioma novo e que, nesta fase, existe também uma hiperseborreia.

Já a partir dos três meses “o mais provável” é ser uma dermatite atópica, explica, ressalvando que também se pode identificar quadros mistos.

Numa faixa etária oposta – mais elevada – uma forma de eczema muito frequente é o asteatótico, ou caquelé, geralmente, a nível das pernas e dos membros superiores, caracterizada por uma descamação poligonal, “por vezes, com algum eritema”.

É mais prevalente nos meses frios e, no que concerne à terapêutica, o dermatologista abordou “medidas gerais”, nas quais se incluem a roupa de algodão, o banho apropriado, bem como emolientes adequados, e, se a inflamação for excessiva, dermocorticóide.

Falou-se também de dermatites de contacto em tempos de Covid-19 e foram deixadas sugestões para a sua minimização, entre as quais, a colocação de compressas de algodão entre máscara e pele, o reforço da hidratação, em período de repouso e a continuidade das terapêuticas tópicas prévias, para evitar agravamentos.

Pedro Mendes Bastos deixou ainda a sua opinião sobre a gestão partilhada do doente, entre a dermatologia e a Medicina Geral e Familiar.

“É um gosto trabalhar com os médicos de família, no sentido de gerir o doente”, afirmou, concluindo que “trabalhar em equipa é o segredo da medicina, atualmente, principalmente nas doenças complexas”.

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