Covid-19: Mais de um terço dos profissionais de saúde sem sistema organizado de gestão do risco
DATA
29/04/2020 12:06:45
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Jornal Médico
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Covid-19: Mais de um terço dos profissionais de saúde sem sistema organizado de gestão do risco

Cerca de 36% dos profissionais de saúde encontram-se sem sistema organizado de gestão do risco de Covid-19, nos locais de trabalho. Esta é uma das conclusões do segundo questionário de Saúde Ocupacional do Barómetro Covid-19.

 

Realizado pela Escola Nacional de Saúde Pública, o estudo tem como objetivo “conhecer melhor a atual realidade e avaliar o impacto na saúde dos profissionais de saúde”, tendo os novos dados sido recolhidos através de um inquérito dirigido a profissionais de saúde, realizado entre os dias 16 e 24 de abril.

Daí, resultaram 2.059 respostas que provêm, maioritariamente, de profissionais do setor público (92,1%), entre os quais enfermeiros (39,6%), médicos (26,4%), técnicos de diagnóstico e terapêutica (18,6%), assistentes operacionais (2,9%), farmacêuticos laboratoriais e hospitalares, nutricionistas e psicólogos.

O barómetro avança que o contacto com doentes – ou casos suspeitos – de Covid-19 tem repercussões a nível psicológico, constatando que quase três quartos dos respondentes apresentam níveis de ansiedade elevados, ou muito elevados como resposta às situações de stress que vivenciam.

Ainda na área psicossocial, a análise revela que quase 15% dos profissionais apresentam níveis de depressão moderados ou elevados, e mostra que quase metade dos profissionais de saúde dorme menos de seis horas diárias.

“Este facto, associado à sensação de fadiga, que piorou para quase 90% dos profissionais de saúde desde o último inquérito, pode ter repercussões na sua saúde e desempenho profissional. De facto, quase quatro em cada cinco profissionais de saúde (78,7%) considera o seu nível de fadiga (física) muito agravado, em relação à semana anterior”, explica o coordenador executivo do estudo, Florentino Serranheira.

Quanto aos fatores de risco microbiológicos, e juntando os dados dos dois inquéritos realizados, as conclusões indicam que um terço dos 5.180 profissionais de saúde não realiza a automonitorização diária.

Dos inquiridos, 10,3% afirmam terem sido casos suspeitos de estar infetados, cerca de metade foram submetidos a vigilância passiva e 98,6% foram testados para a Covid-19, maioritariamente 72 horas após serem casos suspeitos.

Entre os que trabalham em área dedicada à Covid-19, apenas 11,5% foram casos suspeitos e a 56,6% sujeitos a vigilância ativa.

Dos profissionais de saúde que participaram neste segundo questionário, foram positivos para a Covid-19 cerca de 1,1%.

Relativamente aos Equipamentos de Proteção Individual (EPI), a sua disponibilização, na última semana, é considerada pelos profissionais de saúde “melhor” (31,7%) e “muito melhor” (40,7%), face à anterior, tendo a sua disponibilidade aumentado para 55,1% dos profissionais, embora 11% considerem que piorou bastante. Neste âmbito, 80% dos inquiridos considera que os EPI são adequados.

A maioria (78,2%) trabalhou menos de nove horas noturnas, na passada semana, e 9,5% mais de 18 horas. Apesar disso, 44,8% refere ter menos de seis horas diárias de sono com qualidade.

Cerca de 15% dos respondentes do segundo questionário que estão em áreas dedicadas aos doentes Covid-19 assumem trabalhar mais de 12 horas diárias, e 34,9% entre as 8 e as 12 horas por dia. Trata-se de profissionais maioritariamente dos Cuidados de Saúde Primários (34,3%), seguido dos Serviços de Urgência (23%) e das Enfermarias (15,9%). Destes 43,8% são enfermeiros, 26% médicos, 18% técnicos de diagnóstico e terapêutica e apenas 3,7% assistentes operacionais.

A representatividade geográfica deste barómetro assume dominância na região de Lisboa e Vale do Tejo (68,3%), seguida do Norte (14,5%) e do Centro (13,9%) do País.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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