Covid-19: Sociedade Portuguesa de Pneumologia alerta para impacto do vírus nos fumadores
DATA
27/04/2020 15:09:17
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Jornal Médico
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Covid-19: Sociedade Portuguesa de Pneumologia alerta para impacto do vírus nos fumadores

A Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), através da sua Comissão de Trabalho de Tabagismo, anunciou estar preocupada com o impacto do novo coronavírus SARS-CoV-2 sobre os dois milhões de portugueses consumidores de tabaco, devido às “notícias recentemente divulgadas que apontam um efeito protetor da nicotina contra a Covid-19”.

A SPP assume estar “totalmente alinhada” com a OMS, que alerta para o perigo da controvérsia causada pela indústria tabaqueira com a divulgação de informação imprecisa e não fundamentada sobre o efeito protetor da nicotina, e reafirma que os fumadores podem sofrer condições mais graves da doença Covid-19.

Em comunicado, recorda que o tabagismo está associado a várias patologias crónicas, entre as quais doença respiratória, cardiovascular, diabetes e cancro, e afirma que “doentes com estas patologias têm maior risco de doença grave por Covid-19, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Direção Geral de Saúde”.

Alerta ainda para o “efeito nocivo para o sistema imunitário”, que torna os fumadores mais vulneráveis às infeções, “incluindo, possivelmente, o novo coronavírus” e aponta “outra questão preocupante”, relacionada com o contacto mão-boca, realizado frequentemente pelos fumadores, que constitui uma forma de infeção reconhecida.

“Apesar dos estudos serem escassos até à data, já há evidência científica que mostra que os fumadores têm maior risco de progressão para doença grave, maior risco de internamento em Unidade de Cuidados Intensivos com necessidade de ventilação mecânica e maior risco de morte, em comparação com os não fumadores”, sublinha.

A SPP acrescenta que a nicotina é uma substância “altamente aditiva que causa dependência nos seus utilizadores não existindo qualquer evidência sobre o seu efeito protetor”.

Neste sentido, frisa que os estudos em causa aguardam ainda revisão científica e que “há evidência clara de ligação à indústria tabaqueira, no passado, por um dos autores do estudo que coloca a hipótese do efeito protetor da nicotina, Jean-Pierre Changeux”.

“O artigo de Jean-Pierre Changeux que coloca esta hipótese do efeito protetor da nicotina, é baseado num outro estudo, realizado com 343 doentes, e do qual destacamos algumas limitações que comprometem as conclusões retiradas: o facto da taxa de prevalência de tabagismo nesta amostra hospitalar ser menor que a da população em geral não significa que tem um efeito protetor, na medida em que apenas grandes estudos de coorte bem fundamentados são apropriados para responder a questões sobre associação de fatores de risco a determinada doença ao longo do tempo, o que não acontece neste estudo”, aponta a SPP.

Sobre o referido estudo, defende ainda que “os dados dos doentes colhidos são imprecisos, por exemplo, no grupo dos ex-fumadores não é discriminado o tempo de abstinência (o que poderá incluir doentes que fumaram o último cigarro pouco tempo antes da avaliação). Além disto, a prevalência de ex-fumadores parece ser elevada, não são mostrados dados ajustados ao sexo e idade e não é fornecida verificação bioquímica da abstinência tabágica”.

Estes são aspetos referidos pela comunidade científica e estas limitações são, inclusive, afirmadas pelos autores do estudo original. 

A SPP destaca também que deve ser tido em conta que “ser fumador e efeito protetor da nicotina são conceitos diferentes, que não devem ser confundidos”.

Neste âmbito, reforça a posição defendida pelo pneumologista Filipe Froes que considera que “nesta altura, a necessidade de divulgar conhecimento científico faz com a revisão e o rigor sejam mais frágeis existindo estudos que não seguem metodologias corretas e que tiram conclusões precipitadas. Existe demasiada especulação para os curtos meses que a doença tem e acaba por se valorizar o que se quer ouvir para se fazer o que se quer fazer”.

No mesmo comunicado, a SPP recomenda a cessação tabágica imediata, sendo que esta recomendação abrange igualmente os utilizadores de cigarro eletrónico e tabaco aquecido. 

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.