Dor Neuropática Localizada: tratar a dor diretamente no local doloroso

Estima-se que a prevalência global de dor neuropática varie entre 7 e 10% e prevê-se que esta aumente com o envelhecimento da população, com o aumento da incidência da diabetes e de cancro, e também à medida a que se assiste a um aumento das taxas de sobrevivência relacionadas com o cancro.1,2

A dor neuropática é definida como a “dor que surge como consequência direta de uma lesão ou doença que afeta o sistema somatossensorial”, e pode afetar quer o sistema nervoso central quer o sistema nervoso periférico.3 Esta condição está associada a uma diminuição considerável da qualidade de vida dos indivíduos afetados.1,2

No que diz respeito à sintomatologia, os doentes experienciam tipicamente sensações paradoxais, sinais e sintomas positivos e/ou negativos, com o predomínio dos primeiros.4,5 Os sinais e sintomas característicos de dor neuropática incluem a sensação de queimadura, de choque-elétrico, de formigueiro, entre outros.1,4

Na maioria dos casos, são os especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF) quem o doente consulta em primeira instância.2 É por isso importante que o especialista em MGF esteja alerta para os descritores verbais característicos de dor neuropática.

Esta patologia representa um desafio terapêutico importante no contexto do tratamento da dor, já que está geralmente associada a maiores níveis de intensidade de dor, a um consumo aumentado de recursos em saúde e a uma maior carga de doença em comparação com a dor não-neuropática.1,2,6-8 Para além disso, esta condição permanece muitas vezes subdiagnosticada e subtratada, podendo permanecer sem tratamento ao longo de anos.2

Apesar da melhoria contínua no conhecimento da fisiopatologia desta doença, o seu tratamento permanece difícil e, em grande parte, devido à baixa adesão do doente à terapêutica instituída, face aos efeitos adversos a que estão associados.7,9,10 As guidelines atuais recomendam tratamentos sistémicos como primeira opção terapêutica para estes doentes.5,7,11-13 No entanto, estudos indicam que menos de 50% dos doentes relatam um alívio significativo da dor.14

Sabemos que estas terapêuticas convencionais podem ser eficazes no tratamento da dor, mas a sua utilização é limitada pelos efeitos adversos que apresentam, pelas interações medicamentosas, pelo lento início de ação, pela necessidade de titulação e de múltiplas doses diárias, ou pelo risco de abuso e dependência7,9,15 que poderão não só afetar a atividade diária dos doentes, mas apresentar também encargos adicionais.16,17  

Por outro lado, aquando da seleção terapêutica importa considerar que 60% das situações apresentam um caráter localizado.18 A revisão científica das recomendações atuais e a evidência da prática clínica diária têm reforçado o uso de tratamentos tópicos como uma alternativa terapêutica importante.2,19

A possibilidade de um tratamento local, diretamente no local doloroso, torna-se uma vantagem em comparação com os fármacos de administração sistémica, nomeadamente pela relação risco-benefício mais favorável.2,19 Assim, considerando o caráter localizado da maioria das situações de dor neuropática e o facto dos fármacos habitualmente utilizados para o seu tratamento apresentarem geralmente efeitos sistémicos importantes e, muitas vezes, limitantes de dose – como: sonolência, tonturas, ganhos de peso, entre outros – os tratamentos tópicos constituem uma alternativa terapêutica importante.2,18 Esta importância já é reconhecida pelos especialistas no tratamento da Dor Neuropática Localizada (DNL) que sugerem a utilização de fármacos tópicos como primeira linha para o tratamento desta entidade.19

Adicionalmente, permitem reduzir o número de interações medicamentosas devido à sua baixa absorção sistémica, podendo ainda ser combinados com outros agentes farmacológicos que atuam sistemicamente, de modo a obter um efeito aditivo ou sinérgico, sem interação sistémica do medicamento ou efeitos secundários adicionais.14

Do ponto de vista clínico, a administração de tratamentos tópicos para o tratamento da DNL apresenta-se como uma boa alternativa terapêutica com eficácia demonstrada e perfil de segurança favorável comparativamente com os tratamentos sistémicos, que se tornam condições necessárias para o seu uso no contexto de primeira linha de tratamento da DNL, por parte da MGF e de outros especialistas.19

 

 

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  6. Torrance N, Smith B, Bennett M et al. The Epidemiology of Chronic Pain of Predominantly Neuropathic Origin. Results From a General Population Survey. The Journal of Pain, Vol 7, No 4 (April), 2006: pp 281-289
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