Patologia dermatológica numa população sem-abrigo
DATA
28/05/2019 10:16:31
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Jornal Médico
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Patologia dermatológica numa população sem-abrigo

Os sem-abrigo têm um risco aumentado de doenças da pele. A permanência na rua, associada a cuidados de higiene e alimentação desadequados, a elevada prevalência de comportamentos aditivos e de patologia psiquiátrica torna esta população mais suscetível a doenças dermatológicas.

No âmbito do projeto Dermatologists from the heart apoiado pela Fundação Roche Posay no ano de 2017, foi desenvolvido o projeto vencedor “Doenças de Pele nos Sem-Abrigo”.

Procurámos avaliar a prevalência de doenças cutâneas num grupo selecionado da população sem-abrigo, ditos sem-casa, a residir em alojamentos temporários destinados para o efeito ou a viver em pensões ou quartos pagos pelos serviços sociais. Não foram incluídos os sem-abrigo sem teto, por se considerar haver outras prioridades nomeadamente alojamento e alimentação neste grupo e pela inexistência de condições para uma observação dermatológica com dignidade num ambiente de rua.

Entre 24 de fevereiro de 2018 e 19 de janeiro de 2019 foram avaliadas 111 pessoas com uma média de idades de 47,0 anos, sendo 83,8% do sexo masculino, maioritariamente solteiros (60,7%) ou divorciados (29,9%), de nacionalidade portuguesa (86,5%) e com baixa escolaridade (63,9% com habilitações até ao 6º ano). Metade (56, 50,5%) tinham história ativa ou passada de alcoolismo e 47 (42,3%) de consumo de drogas.

Com base na informação direta dos participantes e indireta, pela história de ingestão de psicofármacos, a incidência de doença mental foi calculada em 55%. Em 10,8% havia história conhecida de infeção VIH e em 12% de hepatite C. Cinco participantes (4,5%) tinham história de tuberculose pulmonar e 3 de sífilis (2,7%). Antecedentes oncológicos (ORL e próstata) foram identificados em dois sem-abrigo. A cavidade oral foi avaliada em 87 dos 111 participantes, verificando-se que 41% tinham menos de cinco dentes e 19,5% menos 12 dentes.

Nos 111 sem-abrigo observados foram identificadas dermatoses em 96 (86,5%). As doenças de pele mais prevalentes na população examinada foram a tinea pedis (19, 19.8%), onicomicose dos dedos dos pés (18, 18.8%), dermite seborreica (18, 18.8%), eczemas (estase, desidrótico, das mãos ou não especificado) em 15 participantes (15.6%) e calosidades (14, 14.6%). Outras lesões avaliadas incluíram os nevos melanocíticos (12, 12.5%), distrofias ungueais (linhas Beau, unhas em pinça, onicofagia, onicogrifose – 7, 7,3%), quistos (epidérmicos e triquilémicos – 6, 6,3%) e psoríase (5, 5.2%). Em dois participantes foram identificados basaliomas e orientados para o hospital para tratamento. Sarna foi também identificada em dois participantes. Um doente apresentava condilomas perianais estando já em seguimento na Consulta de Infeções Sexualmente Transmissíveis dos CHUC.

Tal como em estudos prévios encontrámos uma incidência aumentada de problemas nos pés, principalmente micoses e calosidades.

Estas doenças estão relacionadas com a deficiente higiene dos pés, andarem muito a pé, com consequente maior transpiração e ao uso de calçado desadequado, muitas vezes de plástico, quase sempre proveniente de donativos e nem sempre o tamanho certo. A maioria das situações avaliadas foram ligeiras, o que associamos aos bons cuidados de alimentação e acesso a banho diário disponíveis nos centros de acolhimento temporários, bem como à articulação existente entre estas unidades e os cuidados de saúde primários.

Os nossos dados foram obtidos numa população de sem-abrigo sem casa, a residir em alojamentos temporários, e não serão certamente representativos da patologia dermatológica que poderíamos encontrar numa população de sem-abrigo sem teto, onde a permanência na rua, associada a cuidados de higiene e alimentação desadequados, se traduziria certamente, quer em maior prevalência quer em maior gravidade da patologia dermatológica.

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