Uma polémica global!
DATA
10/12/2009 07:43:05
AUTOR
Jornal Médico
Uma polémica global!

Instalou-se, nas últimas semanas, um receio impossível de esconder nos países que iniciaram programas de vacinação contra o vírus H1N1...

 

Instalou-se, nas últimas semanas, um receio impossível de esconder nos países que iniciaram programas de vacinação contra o vírus H1N1/gripe A. Muitos cidadãos temem mais os efeitos da vacina do que aqueles provocados pela doença, perante a ideia (ilusória) de que a infecção é menos perigosa e letal do que inicialmente esperado. Nesta edição, propomos uma volta ao mundo, em busca de saber qual o rumo que tomaram as conversas (científicas e leigas) sobre a importância da imunização em diferentes geografias

Tornou-se óbvio, desde muito cedo, que nem todos os portugueses correriam a arregaçar as mangas para serem vacinados contra a gripe A.

Mais a mais quando argumentos a favor e contra a vacina invadem os noticiários e as redes sociais, avolumando a confusão na cabeça de quem procura ser esclarecido. Mais recentemente, os receios que envolvem a administração da vacina a grávidas vieram acentuar o clima de incerteza. Em Portugal, o INFARMED - Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde - garante que recebeu apenas duas notificações de morte fetal após administração da vacina contra a gripe (Pandemrix), adoptada entre nós. E até agora, não foi possível confirmar qualquer relação de causa/efeito entre a administração da vacina e a morte dos fetos. A própria ministra da Saúde, Ana Jorge, já veio a público garantir que tais coincidências podem acontecer, atendendo ao aumento do número de grávidas imunizadas nesta época de vacinação. Por seu lado, o presidente do INFARMED, Vasco Maria, explicou aos meios de comunicação social que não existe "nenhuma verdade científica" que prove a relação entre a vacina e as mortes fetais.

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Após a confirmação dos dois casos mortais, o INFARMED diz ter activado, no dia 17 de Novembro, os grupos de resposta a situações de crise da Agência Europeia do Medicamento (EMEA), nomeadamente a Rede de Revisão de Incidentes e o Grupo de Peritos para Resposta Rápida em Farmacovigilância Pandémica. Na altura, os representantes do INFARMED foram informados sobre a existência de oito notificações a nível europeu de morte fetal, na sequência da vacinação. Porém, depois de avaliados os casos suspeitos pelo Grupo de Peritos para Resposta Rápida em Farmacovigilância Pandémica, foi "considerado que uma relação causal entre a administração da vacina e as mortes fetais é improvável, pelo que o processo foi dado como encerrado pela EMEA", lê-se em comunicado emitido pelo INFARMED.

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Assim, quer o INFARMED, quer a EMEA e os Estados-Membros da União Europeia onde se registaram casos de morte fetal entendem que "a relação entre os benefícios e os riscos da utilização da vacina contra a gripe pandémica em grávidas se mantém positiva", aconselhando, assim, a imunização das grávidas.

 

Recusa de vacina tem de ficar registada

 

Entretanto, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) tem vindo a emitir recomendações em torno na vacinação com a Pandemrix, relacionadas com riscos específicos detectados em outras latitudes. Na circular informativa nº 45/DSPCD, por exemplo, alerta-se os profissionais de saúde para a necessidade de vacinar crianças dos 6 aos 24 meses de idade que "tenham apresentado reacção alérgica grave às proteínas do ovo" em ambiente hospitalar, "tal como recomendado para as vacinas do Programa Nacional de Vacinação". É igualmente dito nesta circular que a vacina pandémica, por ser inactivada, pode ser "administrada simultaneamente ou com qualquer intervalo de tempo em relação às vacinas do PNV". Caso se verifique, durante a visita de actualização do PNV, que o número de injectáveis é demasiado incómodo para a criança, "deve ter prioridade a vacina pandémica", preconiza a DGS.

Ainda no texto desta circular está descrito o mecanismo através do qual os profissionais devem registar toda e qualquer recusa de toma da vacina, por parte dos pais das crianças a vacinar. Assim, se a recusa surgir durante a consulta médica, esta deve ser "registada pelo médico assistente na ficha clínica". Caso tal suceda em visita de actualização do PNV, terá se ser assinalada "na ficha de vacinação do módulo de vacinação do SINUS, no campo Observações".

Apesar de toda a informação veiculada junto de técnicos de saúde e do cidadão comum, o sentimento relativamente à segurança da vacina não é, em Portugal, de tranquilidade. O panorama de dúvida não é, porém, exclusivo do nosso país. Em todo o mundo multiplicam-se as controvérsias centradas na toma ou recusa desta vacina.

De um modo geral, os partidários da vacinação consideram uma irresponsabilidade e um perigo desnecessário para a saúde pública dispensar a vacina. Do outro lado da barricada, os opositores da vacina apontam para a baixa taxa de mortalidade da infecção (quando comprada com a gripe sazonal, por exemplo), os efeitos leves a moderados que provoca na maior parte dos casos e para interesses económicos que beneficiam de uma certa paranóia social em torno da doença (capaz de forçar os estados a aumentarem o investimento em profilaxia). Façamos, pois, um pequeno périplo mundial na tentativa de melhor perceber as contingências que envolvem as vacinas da gripe A, além-fronteiras.

 

Espanha

Quando uma monja consegue fincar a dúvida...

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 O governo central espanhol e os conselheiros de Saúde das comunidades autónomas estipularam o dia 16 de Novembro como data de arranque para a campanha de vacinação em terras espanholas. Entre os grupos de risco inicialmente vacinados encontram-se grávidas, doentes crónicos, pessoal médico, forças de autoridade e guardas prisionais. Às grávidas serão administradas vacinas sem coadjuvantes, para a diminuição de risco de complicações para o feto. 

A ministra da Saúde e da Política Social, Trinidad Jiménez, procurou descansar a população com a garantia de que Espanha encomendara 37 milhões de doses de vacina (com duas doses a serem administradas a cada indivíduo), o que permitira cobrir até 40% dos espanhóis.

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A ministra da Saúde e da Política Social, Trinidad Jiménez, procurou descansar a população com a garantia de que Espanha encomendara 37 milhões de doses de vacina (com duas doses a serem administradas a cada indivíduo), o que permitira cobrir até 40% dos espanhóis.

Nos meios de comunicação social, a discussão em torno da vacina conheceu episódios curiosos. O mais curioso - e provavelmente com maior impacto - foi a intervenção quase compulsiva de Teresa Forcades i Vila, que se auto-apresenta como especialista em Medicina Interna e doutorada em Saúde Pública. A também monja beneditina no Convento de Montserrat, em Barcelona, pronunciou-se contra o que considera ser uma onda de pânico infundado em torno da gripe A. Segundo ela, aproximadamente 33% das pessoas maiores de 60 anos parecem ter imunidade a este tipo de vírus. Afirma também que os dados científicos são claros na confirmação de que "a nova gripe é uma realidade mais benigna do que a gripe sazonal". Forcades i Vila acusa a Organização Mundial de Saúde de se ter precipitado na declaração da pandemia de gripe A, uma decisão que segundo a monja permite que se declare "a vacinação obrigatória para determinados grupos de pessoas ou, inclusivamente, para o conjunto dos cidadãos", com penalizações severas para quem se recusar a obedecer. Teresa Forcades alerta também para o facto de alguns laboratórios utilizarem coadjuvantes na produção e administração das vacinas, que podem multiplicar por dez a resposta imunitária. "O problema é que ninguém está em condições de assegurar que este estímulo artificial do sistema imunitário não provoque, passado algum tempo, doenças graves, como a síndrome de Guillain-Barré", aponta a monja beneditina. Assim, propõe aos cidadãos espanhóis que mantenham a calma, tomem precauções sensatas e não se deixem vacinar.

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Nos meios de comunicação social, a discussão em torno da vacina conheceu episódios curiosos. O mais curioso - e provavelmente com maior impacto - foi a intervenção quase compulsiva de Teresa Forcades i Vila, que se auto-apresenta como especialista em Medicina Interna e doutorada em Saúde Pública. A também monja beneditina no Convento de Montserrat, em Barcelona, pronunciou-se contra o que considera ser uma onda de pânico infundado em torno da gripe A

A médica catalã colocou um vídeo no site Youtube, onde explica muitas destas ideias e calcorreou programas de rádio e televisão, na defesa dos seus pontos de vista. No seu entender, a fobia em relação à gripe A resulta apenas de uma gigantesca campanha da indústria farmacêutica.

Algumas semanas depois de encetada esta polémica, ficou incomunicável e fora do alcance das perguntas dos jornalistas que a procuraram para esclarecimentos adicionais. A vários jornais espanhóis terá sido transmitido que se mudou para a Alemanha.

Mas a polémica não terminou com o silêncio da freira. Em declarações ao diário El País, Pilar Pérez Breña (Centro Nacional de Epidemiologia de Espanha) sugere que este testemunho terá causado grande impacto na sociedade espanhola devido à sua fonte: "supõe-se que por ser monja e por estar num convento não pode mentir, ou estar privada de razão". Sobre a reduzida coerência das palavras de Teresa Forcades, a virologista acrescenta que se tornam até descabidas, face ao actual modelo de sociedade: "não faz qualquer sentido que a indústria farmacêutica queira matar os seus clientes".

 

Alemanha

Quando as dúvidas nascem no parlamento...

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 Em solo germânico foi Wolfgang Wodarg, pneumologista, especialista em Medicina Ambiental e presidente da Comissão de Saúde do Parlamento Alemão, quem fez as honras da casa do "Não!" à vacina (ver info-imagem). E teve, no movimento, apoios de peso. Foi o caso de Johannes Löwer - presidente do Paul Ehrlich Institute (entidade com responsabilidades na aprovação de ensaios e autorizações de comercialização de determinados produtos clínicos, nomeadamente vacinas) -, que declarou ao Neuen Presse que as actuais vacinas contra a gripe A "podem originar efeitos adversos mais graves do que as consequências da contaminação pelo vírus". Em paralelo, Löwer aproveitou para considerar os temores públicos sobre a pandemia como uma orquestração, com "bons resultados de negócio para a indústria farmacêutica".

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Wolfgang Wodarg, presidente da Comissão de Saúde do Parlamento Alemão, lançou alertas sobre a suposta perigosidade da vacina. Ao jornal Bild, o também especialista em medicina ambiental sublinhou os riscos de oncogénese devido ao facto de uma das vacinas produzidas para combater a gripe A recorrer, de acordo com as suas informações, a culturas de células de tumores de animais

 

França

Estrelas da Medicina... dizem "Não!"

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Em França, os media foram palco de uma guerra aberta sobre o uso, ou rejeição, da vacina contra a gripe A. A comunidade médica tem participado activamente neste debate, dividindo-se entre os partidários da imunização e os que preferem dispensá-la.

No jornal Le Parisien, o oncologista David Khayat, presidente do Instituto Nacional do Cancro e tido como próximo do ex-presidente Jacques Chirac e o intensivista Patrick Pelloux escreveram crónicas nas quais se mostram totalmente contrários à vacinação, anunciando a sua decisão pessoal de não serem abrangidos pela mesma. Jean-Marie Le Guen, médico e deputado socialista na Assembleia Nacional, está no lado contrário da barricada, defendendo a vacinação para todos os grupos de risco.  

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Tido na mais alta conta em França, o presidente do Instituto Nacional do Cancro gaulês, David Khayat, deu a cara pelo não à vacina contra o H1N1

Entretanto, mesmo antes da vacinação se iniciar em território gaulês, os profissionais de saúde davam a conhecer as suas dúvidas sobre a profilaxia. Segundo um inquérito publicado no site da Internet do L'Express, mais de um terço dos médicos, enfermeiros e auxiliares de acção médica parecem inclinados para recusar a vacinação durante este Outono.

 

Japão

Se houver problema... O governo indemniza!

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De acordo com o jornal Yomiuri Shimbun, vários casos de efeitos adversos entre profissionais de saúde vacinados contra a nova estirpe foram já confirmados no país do sol nascente, com realce para a detecção de anafilaxia e de lesões hepáticas. O próprio Ministério da Saúde, Trabalho e Segurança Social japonês, confirma que pelo menos dez casos de efeitos adversos graves foram identificados desde que a vacinação do pessoal de saúde se iniciou, em 19 de Outubro. Ainda assim, um porta-voz do Ministério afirmou publicamente que a frequência destes efeitos adversos é reduzida. De facto, a dezena de casos registou-se num total de 850 mil vacinas administradas, perfazendo uma taxa de efeitos adversos apenas marginalmente superior à verificada com a vacina da gripe sazonal.

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A fazer fé na publicação Kyodo News, o Ministério da Saúde pretende compensar todas as pessoas que tenham sofrido efeitos adversos da vacina, ao abrigo dos programas de vacinação financiados por verbas públicas, bem como os cidadãos que tenham sido objecto de procedimentos de inoculação incorrectos

 O virologista Hitoshi Oshitan, da Universidade Tohoku, alinha nesta análise ao garantir que "os riscos de efeitos adversos não variam muito em relação ao que é expectável relativamente à imunização contra a gripe sazonal". O mesmo especialista pede, contudo, "monitorização cautelosa em relação às grávidas e a crianças em idades mais precoces".

 

Suíça

Políticos não são grupo prioritário ...

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Apesar de um dos fabricantes da vacina contra a gripe A estar sediado em Basileia, a Suíça atrasou-se em relação a outros países europeus e tornou-se um dos últimos Estados da Europa Ocidental a aprovar uma das vacinas disponíveis. As autoridades suíças que regulamentam o sector preferiram avaliar com mais detalhe as consequências da vacina, antes de se pronunciarem a favor de um programa de vacinação: Este deverá arrancar em Dezembro, com base em duas vacinas: Pandemrix (GSK) e Focetria (Novartis). A primeira foi interditada pela autoridade suíça que regulamenta os produtos terapêuticos (Swissmedic) no que respeita ao uso em grávidas, menores de 18 anos e idosos acima dos 60 anos. Pietro Vernazza, director de serviço no Hospital St. Gallen, sentiu na pele as implicações na vacinação. Este médico injectou-se com a vacina que possui o adjuvante AS03, desenvolvida pela GSK, no âmbito de um estudo alargado. "Toma-se claramente consciência do seu efeito. O braço doía-me após a inoculação e revelou-se difícil dormir de noite. Pelo que me foi dado a conhecer, em alguns casos pode detectar-se febre e determinadas pessoas podem experimentar dificuldades em se movimentar, durante vários dias".

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Ao contrário do que acontece em Portugal, os deputados da Confederação Helvética não integram grupos de risco, prioritários no que toca à vacinação contra o H1N1

Para já, a Swissmedic mostra-se bastante prudente na aprovação de vacinas contra a gripe A com coadjuvantes. De acordo com o diário Tages-Anzeiger, as autoridades decidiram também recomendar que, entre os grupos de risco, grávidas e crianças sejam vacinadas com produtos sem adjuvantes.  "Uma vez que não existem dados clínicos suficientes sobre as vacinas, especialmente no que respeita a grávidas e crianças, iremos emitir recomendações concretas para a vacinação destes grupos", adiantou Joachim Gross, da Swissmedic.

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Pietro Vernazza (Hospital St. Gallen) sentiu na pele as implicações da profilaxia. Este médico injectou-se com a vacina que possui o adjuvante AS03, desenvolvida pela GSK: "toma-se claramente consciência do seu efeito. O braço doía-me após a inoculação e revelou-se difícil dormir de noite"

 

EUA

Muita procura... Poucas vacinas

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Depois de o número de mortes provocadas pela gripe A nos EUA atingir recentemente a fasquia dos milhares, o presidente Barack Obama tomou a decisão de classificar a epidemia de gripe A como uma emergência nacional. A medida administrativa abriu as portas à possibilidade dos hospitais e autoridades estaduais acelerarem a criação de mais postos de triagem e tratamento. Ao mesmo tempo, as filas para a toma da vacina aumentaram um pouco por todo o país e porta-vozes da administração Obama reconheceram que o programa federal de vacinação conheceu um impulso inicial lento, pouco auspicioso. De notar que nos EUA são utilizadas duas formas de administração da vacina. Por via subcutânea - com vírus inactivado - e através de spray para uso intranasal - com vírus vivo, embora atenuado. A FDA (autoridade norte-americana do medicamento) deu luz verde à utilização de vacinas comercializadas por quatro fabricantes: Sanofi-Aventis, CSL, Medimmune e Novartis.

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Nos EUA, a própria secretária de Estado da Saúde, Kathleen Sebelius, confessou que os esforços de contenção da doença se iniciaram mais tarde do que seria desejável. De facto, apenas 16 milhões de vacinas foram disponibilizadas na fase de arranque (para um país de dimensão continental) e muitos estados encomendaram dez vezes mais doses do que aquelas que lhes foram atribuídas

Apesar da vacinação avançar, os opositores da mesma fazem-se ouvir sem reservas. E as vozes surgem de quadrantes inesperados. O apresentador de talk-shows e cronista de assuntos políticos Bill Maher, apesar da sua notória falta de competência científica, veio pronunciar-se no Twitter em desfavor da vacina, ao afirmar que apenas os "idiotas" se deixariam vacinar no actual cenário. No seu programa semanal, emitido no canal HBO, chegou inclusive a contra-argumentar em prol da não vacinação, face ao cirurgião cardíaco e senador Bill Frist, insinuando que os estão a "injectar doenças nos braços dos americanos". O fenómeno parece dar origem a resultados imediatos. É que de acordo com o New York Times, nos últimos dias de Novembro menos de metade dos pais nova-iorquinos que têm crianças em escolas primárias deram permissão legal para os seus filhos serem vacinados. Uma sondagem levada a cabo pela estação televisiva CBS denunciava, em paralelo, que apenas 46% dos americanos consultados aceitaria a picada no braço, quando chegasse o momento da verdade.

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Ouvido pelo jornal New York Times, o comissário de Saúde da cidade de Nova Iorque, Thomas Farley, explicou que a atenção pública dedicada à vacina e à nova estirpe concedeu aos adversários da vacinação "uma oportunidade para falar em público e amplificar as suas mensagens, que de outro modo seria impossível de alcançar"

Este tipo de resistência é inflamado por dúvidas que cresceram na mente dos americanos, em particular nos casais com filhos menores. De acordo com Steven Black, do Hospital Pediátrico de Cincinnati, por influência dos meios de comunicação social e da enorme confusão gerada em redor da vacina, muitas pessoas começaram a associar imediatamente alguns efeitos secundários graves com a toma da vacina. "Existem situações clínicas indesmentíveis, como a síndrome de Guillain-Barré, o aborto espontâneo e inclusivamente a morte, que coincidiram nos indivíduos com a chegada da vacina para a nova estirpe de gripe", relembrou em texto publicado nas páginas do Lancet o investigador. Este e outros reputados especialistas defendem, todavia, que os doentes poderiam conhecer igual desfecho, mesmo que a vacina não entrasse na equação.

 

Suécia

Número crescente de efeitos adversos... Preocupam população

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Desde que foi iniciada a vacinação contra a estirpe H1N1 na Suécia, (com base na vacina Pandemrix, produzida pela GSK) registaram-se pelo menos 140 casos de efeitos adversos relatados às autoridades sanitárias.

A morte de um doente devido a patologia cardíaca, inicialmente associada à vacina, não foi confirmada pelas autoridades suecas (o mesmo sucedeu com outros três casos suspeitos).

A directora do Instituto Sueco para o Controlo de Doenças Infecciosas, Annika Linde, procura ainda assim sossegar os seus compatriotas, com um argumento não convincente para todos: "é verdade que esta vacina apresenta mais efeitos adversos do que a vacina da gripe sazonal. Isto porque contém adjuvantes, que estimulam uma resposta defensiva do sistema imunitário. Porém, trata-se de um sinal que demonstra a protecção efectiva que consegue garantir".

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O principal desafio de Maria Larsson, Ministra da Saúde sueca, é convencer o público de que o número crescente de casos de reacções adversas à vacina contra o H1N1 não é preocupante

Uma vez que milhares de suecos já foram vacinados, os pedidos de informação chovem no Instituto Sueco para o Controlo de Doenças Infecciosas, mediante receios de complicações. Com o aumento progressivo de efeitos indesejáveis relatados, as críticas à segurança da vacina foram subindo de tom. Na opinião de Gunilla Sjölin Forsberg, da agência do medicamento sueca, sem fundamento: "até agora, os efeitos adversos observados não são inesperados", disse Gunilla Sjölin Forsberg em conferência de imprensa.

Reino Unido

Muito ruído... Pouco siso

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O programa nacional de imunização contra a gripe A começou no Reino Unido na terceira semana de Outubro. O governo assinou contratos para a aquisição de duas vacinas distintas, a Pandemrix (GSK) e a Celvapan (Baxter). 

Para a maior parte dos clínicos, esta vacina é sem dúvida uma arma eficaz e segura. Steve Field, presidente do Royal College of General Practitioners, adiantou antes da campanha arrancar que os clínicos gerais deveriam preparar-se para convocar os grupos de alto risco: "parece tratar-se de uma vacina bastante segura, a julgar pelos dados até agora reunidos".

Mas uma vez que subsiste algum grau de dissonância na sociedade britânica, o Chief Medical Officer para a Inglaterra, Sir Liam Donaldson, apressou-se a lançar um alerta no jornal Times, dando nota de que não será apanhado distraído: "os extremistas tentam, a todo o custo, descarrilar a campanha nacional de vacinação contra a gripe A. Não lhes será permitido tal objectivo". Um exemplo claro de radicalismo ocorreu recentemente, junto a um hospital de Birmingham. No momento em que a campanha de imunização dava os primeiros passos, um avião largou panfletos anti-vacina, um acontecimento que apanhou as autoridades de surpresa. 

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"Se estivermos preparados para o número de perturbações fortuitas que afectarão pessoas vacinadas, talvez possamos evitar reacções públicas exageradas face a acontecimentos tristes, mas fruto de mera coincidência", defende David Spiegelhalter, professor de Cambridge perito em análise de risco. Para este académico, os media têm um papel importante a desempenhar, em particular na tarefa de não explorar infelicidades pontuais que tenham ocorrido a indivíduos vacinados: "Por que será que nunca vemos títulos de jornais como Homem vence lotaria depois de se vacinar contra a gripe?", questiona...

A propósito dos expectáveis efeitos adversos de uma campanha que envolverá milhões de cidadãos, David Spiegelhalter (professor da Universidade de Cambridge e especialista na análise de risco) assegura que o melhor é preparar o povo britânico para aceitar o inevitável, com a necessária tranquilidade: "se estivermos preparados para o número de perturbações fortuitas que afectarão pessoas vacinadas, talvez possamos evitar reacções públicas exageradas face a acontecimentos tristes, mas fruto de mera coincidência". O académico lembra igualmente que os media têm um papel importante a desempenhar, em particular na tarefa de não explorar infelicidades pontuais que tenham ocorrido a indivíduos vacinados: "Por que será que nunca vemos títulos de jornais como Homem vence lotaria depois de se vacinar contra a gripe?".

 

Rússia

A teoria da conspiração...

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Dado assustador: 30% dos russos acreditam que a gripe A/estirpe H1N1 foi criada pela indústria farmacêutica, para aumentar a venda de produtos anti-virais. Esta conclusão surge de uma sondagem realizada no site superjob.ru, que envolveu cerca de dois mil participantes. De permeio entre esta ilusão colectiva e um rigoroso Inverno que se adivinha, as autoridades russas pediram às unidades de saúde para reforçarem os seus dispositivos (à medida que o número de casos diagnosticados e de mortes aumenta). Lutam, também, para convencer a população de que não está perante uma doença fantasma.

Segundo o jornal Moscow Times, os organismos federais que zelam pela Saúde Pública estão a apostar em mensagens que privilegiam o reconhecimento de sintomas iniciais da doença, de modo a que os russos não se sintam tentados a cair no imobilismo, ou nas mezinhas caseiras.

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Talvez movidos pela imprevisibilidade (ou pelos conselhos do epidemiologista mais consagrado do país - Gennady Onishchenko, à direita na foto) muitos moscovitas passaram a ser vistos nos transportes públicos com máscaras

De realçar que uma das últimas vítimas mortais da gripe A - uma mulher de 39 anos residente em Krasnoyarsk - apenas procurou apoio médico cinco dias a seguir ao início de sintomas, confirmou uma fonte do Ministério da Saúde russo à agência noticiosa RIA-Novosti.

Apesar dos dados mais recentes indicarem perto de 2 mil casos de gripe A diagnosticados por via laboratorial, com um acréscimo diário de 45 a 60 novos casos, o investigador Igor Nikonorov (Instituto de Pesquisa da Gripe - São Petersburgo) mostra-se prudente nas suas previsões sobre como poderá a doença disseminar-se em território russo: "é tudo altamente imprevisível".

 

Ucrânia

Proibidos ajuntamentos e reuniões públicas

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Na Ucrânia, a propagação do H1N1 revelou-se de tal maneira rápida que assustou os países vizinhos. A Rússia e a Eslováquia encerraram as fronteiras com a Ucrânia e estão a controlar com bastante rigor entradas e saídas de populares. A Polónia solicitou uma posição da União Europeia sobre a matéria.

O governo ucraniano decidiu tomar medidas preventivas e proibiu ajuntamentos e reuniões públicas, medida que acresce ao encerramento de todas as escolas durante três semanas. Uma vez que o Ministério da Saúde considera que a infecção pode ter atingido níveis epidémicos em algumas partes ocidentais da Ucrânia (desde meados de Outubro os hospitais daquela região têm recebido muitos doentes com insuficiência respiratória), foram ainda levantadas restrições de viagem aos cidadãos ucranianos. O ministro da Saúde, Vasyl Knyazevych, considera a hipótese de colocar toda a região ocidental sob quarentena.

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A Ucrânia vê-se - literalmente - cercada pela gripe A. A primeira-ministra ucraniana, Yulia Tymoshenko, revelou perante o parlamento ucraniano que mais de 300 mil habitantes apresentam sintomas compatíveis com a infecção

Sublinhe-se que o país está mergulhado numa forte crise económica e, como tal, terá de recorrer a instituições internacionais para obter o apoio necessário para enfrentar este problema sanitário. Para já, o governo atribuiu um pacote de 42,7 milhões de euros para a aquisição de material médico considerado essencial para o combate à infecção.

Canadá

Pelo sim, pelo não... Vai um chazinho

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No Canadá, segue a bom ritmo a campanha de vacinação. Mas os canadianos ainda se mostram indecisos sobre potenciais benefícios e perigos da vacina. Tal insegurança acaba por abrir portas à persuasão feita, quer por apoiantes da profilaxia, quer por aqueles que a demonizam. Na região de Alberta, por exemplo, María Tocco e Andrew Moulden (dois auto-intitulados peritos na infecção e na administração de vacinas) iniciaram uma tournée de conferências sobre a matéria. Para assistir a estas conferências (realizadas nas cidades de Edmonton, Calgary, Grande Prairie e Red Deer), os interessados tiveram de pagar um bilhete de entrada no valor de 16 euros. Nas mensagens de endereço electrónico que precediam as conferências explicava-se que os participantes podiam "descobrir a verdade sobre as vacinas". É ainda possível ler nestes textos promocionais que o neurocientista Andrew Moulden desenvolveu uma investigação cujos dados são relevantes, ao demonstrarem que certos ingredientes usados na vacina provocam dados neurológicos, doenças auto-imunes e desordens degenerativas. Mas há quem contradiga estas posições. É o caso de Glen Armstrong, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Calgary. Apesar de ver como útil todas as clarificações sobre efeitos adversos de vacinas, Armstrong afirma que relativamente à vacina para a estirpe H1N1 nada de negativo há a recear: "é evidente, de acordo com os dados de que dispomos, que todas pessoas alvo desta imunização conhecerão grandes benefícios, que excedem em larga medida eventuais riscos de uma reacção adversa".

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Glen Armstrong, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Calgary, afirma que relativamente à vacina para a estirpe H1N1 nada de negativo há a recear: "é evidente, de acordo com os dados de que dispomos, que todas pessoas alvo desta imunização conhecerão grandes benefícios, que excedem em larga medida eventuais riscos de uma reacção adversa"

Esta opinião não descansa, porém, muitos dos habitantes da província de Alberta, especialmente os apelidados de naturalistas. Estes preferem recorrer a produtos naturais com vista a reforçar o seu sistema imunitário e, assim, gastam o seu dinheiro em alternativas a uma vacina oferecida gratuitamente pelo Estado. Uma das maiores lojas de alimentos orgânicos da cidade de Calgary tem registado grande afluência deste tipo de clientes (cerca de 30 pessoas por dia), os quais pedem expressamente produtos que os ajudem a aumentar defesas naturais contra a gripe A.

No sentido de vacinar as grávidas com uma vacina isenta de adjuvantes, o Canadá comprou também 200 mil doses de vacina a outra companhia, a australiana CSL. As primeiras doses desta vacina foram distribuídas nas diversas províncias canadianas durante a primeira semana de Novembro. 

Austrália

Clínicos Gerais lideram distribuição da vacina

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Na Austrália pensa-se já em reduzir danos face a 2010. Aquele país do hemisfério sul decidiu avançar com um programa de vacinação, apesar de entrar agora num período menos crítico para a propagação da gripe A. O governo de Kevin Rudd gastou cerca de 61 milhões de euros para adquirir cerca de 21 milhões de doses à empresa CSL, apesar da época mais crítica do ponto de vista gripal estar a terminar naquele país. Ainda assim, a ministra da Saúde Nicola Roxon recomendou às famílias australianas que se vacinem, aproveitando o esforço financeiro realizado pelas autoridades federais (a vacina será gratuita) e em antecipação de tempos menos favoráveis, quando chegar o Inverno de 2010.  A vacinação contra a estirpe H1N1 torna-se assim o maior programa de imunização alguma vez projectado em solo australiano, depois de em 2009 a doença ter conduzido à hospitalização de 4.700 pessoas e, segundo as estimativas, à morte de 200 indivíduos.

Só a província de Queensland vacinou perto de 200 mil pessoas no mês que se seguiu à introdução da vacina, a maioria delas em consultórios particulares de clínicos gerais, de acordo com declarações proferidas em Brisbane pelo director-geral de Saúde da província, Michael Reid. Uma parte substancial destas vacinas foi administrada a profissionais de saúde e a membros das comunidades aborígenes, estes últimos particularmente vulneráveis à infecção.

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Nicola Roxon, Ministra da Saúde, recomendou às famílias australianas que se vacinem, aproveitando o esforço financeiro realizado pelas autoridades federais (a vacina é gratuita)

Entretanto, os procedimentos de vacinação não estão a ser bem aceites por alguns representantes da comunidade científica. O problema reside no facto de as vacinas disponibilizadas surgirem em apresentação de multi-dosagem. Segundo a Associação Australiana para o Controlo de Infecções, esta metodologia pode implicar sérios riscos de saúde para os cidadãos. A presidente daquela associação, Claire Boardman, frisa que "o uso de frascos multi-dose contraria normas de orientação clínica nacionais para o controlo de infecções, sendo que no passado se registaram inúmeros efeitos adversos associados ao seu uso, em casos bem documentados".

Investir na Saúde é também investir na Formação
Editorial | Carlos Mestre
Investir na Saúde é também investir na Formação

Em março de 2021 existia em Portugal continental um total de 898.240 pessoas sem Médico de Família (MF) atribuído, ou seja, 8,7% da população não tem um acompanhamento regular com todas as medidas preventivas e curativas inerentes ao papel do especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF).

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