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Adesão à terapêutica: um grande desafio da MGF

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adesão à terapêutica pode ser definida como o grau em que o comportamento de uma pessoa é representado não só pela ingestão de medicamento, mas também pelo seguimento da dieta, das mudanças no estilo de vida e ainda se corresponde e concorda com as recomendações do médico ou de outro profissional de saúde.1

De facto, o problema da não adesão nas doenças crónicas, em que cerca de 50% da população residente nos países desenvolvidos não cumpre a prescrição médica até ao fim, apresenta uma dimensão global, independentemente da doença, do tratamento e do prognóstico.1 A evidência mostra-nos que uma boa adesão à terapêutica está associada a uma mortalidade mais baixa e que a baixa adesão é prejudicial e está associada a um aumento da mortalidade.2

Uma das doenças crónicas onde é mais notória a não adesão é a hipertensão arterial. Alguns dos motivos para que tal aconteça estão relacionados essencialmente com a ausência de sintomas, aparecimento de efeitos laterais e a tendência para o autocontrolo e automedicação.

De acordo com a OMS existem pelo menos cinco dimensões que influenciam a adesão à terapêutica: fatores socioeconómicos; fatores relacionados com os serviços de saúde e profissionais de saúde (nomeadamente a relação médico-doente e o custo dos medicamentos); fatores relacionados com o tratamento (compreensão sobre o esquema terapêutico, efeitos secundários e ausência de resultados imediatos); fatores relacionados com a doença (gravidade, impacto do tratamento, bem como comorbilidades associadas); fatores relacionados com o utente (onde destaco a literacia em saúde, os esquecimentos e a ansiedade sobre possíveis efeitos secundários).1

No nosso país, um estudo recente mostrou que o comportamento da população portuguesa perante a adesão à terapêutica atinge também níveis muito inquietantes: 46,7% dos portugueses refere o esquecimento como a principal causa de incumprimento do esquema terapêutico; 26,6% não cumpre por pensar que já não precisa de fazer o fármaco por se sentir melhor e 22,2% pelos seus efeitos secundários.3 Contudo, os resultados relativos à nossa atuação neste processo dinâmico da adesão são deveras preocupantes: 31,7% dos utentes referem ter receio de fazer perguntas ao seu médico; 28,1% não prestam atenção quando o médico está a explicar o esquema terapêutico; 20,5% não entendem as vantagens do tratamento e 12,5% não confiam no médico.

Não existe uma forma correta ou ideal para aumentarmos a adesão dos nossos utentes aos tratamentos que prescrevemos. Mas está nas nossas mãos avaliar a adesão da terapêutica dos nossos utentes em todas as consultas, apesar da duração cada vez curtas das mesmas, tudo em prol de uma melhor qualidade de vida e ganhos em saúde.

  1. Sabaté E. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva: World Health Organization; 2003
  2. Simpson SH, Eurich DT, Majumdar SR, Padwal RS, Tsuyuki RT, Varney J, et al. A meta-analysis of the association between adherence to drug therapy and mortality. BMJ. 2006;333(7557):15
  3. Cabral MV, Silva PA.A adesão à terapêutica em Portugal: atitudes e comportamentos da população portuguesa perante as prescrições médicas. Lisboa: APIFARMA; 2010

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